O que está diante de nossos olhos
é a parte menos interessante do real.”
Cacá Diegues
Eu não sei como seria viver
aposentado, sem cinema e literatura. O tema de hoje é cinema, mas
literatura é a outra base sobre a qual repouso (!) a minha atual
inatividade. Ler bastante e escrever um pouquinho. Esse binômio
(cinema e literatura) é que me transporta para uma nova realidade da
vida. Criar outra realidade não se constitui fuga desta em que vivo.
Só um artifício para se afastar um pouco dessa loucura. Só a
aposentadoria me permitiu esse transporte. Costumo dizer, brincando
evidentemente (mas com um fundo de verdade), que “o trabalho
envilece”.
Mas o assunto hoje é o cinema.
Fiquemos circunscritos a isso. Recentemente assisti a cinco filmes
que me deixaram extasiado pelo que vi, meditei e senti. A saber:
A Árvore da Vida
(EUA), dirigido por Terrence Malick, com Brad Pitt, Sean Penn e
Jessica Chastain, ganhador da Palma de Ouro do Festival de Cannes
deste ano.
Melancolia
(Dinamarca, Suécia, França e Alemanha), dirigido por Lars Von Trier,
com Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg.
O Planeta dos Macacos – A Origem
(EUA), dirigido por Rupert Wyatt.
A Última Estação
(Alemanha, Inglaterra), dirigido por
Michael Hoffman, com Helen Mirren e Christopher Plummer.
Um Sonho de Amor
(Itália), dirigido por Luca
Gudagnino, com Tilda Swinton.
Nos dois que iniciam a
lista, pela primeira vez em cinema, assistimos à inserção do drama
humano num contexto cósmico. São verdadeiramente indissociáveis. A
vida no microcosmo humano tem nítida relação com o macrocosmo do
Universo. Achei isso genial. Essa conexão foi mostrada através de
imagens maravilhosas acompanhadas de excelentes fundos musicais. E
mais: a insignificância da vida e do viver humanos e até mesmo a das
grandes conquistas pessoais e da humanidade, diante da grandeza e
dos mistérios do Universo, incluindo seu inevitável fim, individual,
coletivo ou mesmo universal, como tudo que é criado perece. A
metáfora (e põe metáfora nisso!), ao final do Melancolia, é
aterradora. No entanto, a metáfora embutida na anterior, a da
“caverna mágica” é de uma beleza poética singelíssima, ao enfatizar
a amizade, compaixão e solidariedade humanas.
Considerei o primeiro
filme, o vencedor do Festival, o mais fraco dos dois. É um filme um
tanto metafísico. Ao final tem cenas fellinianas que me
lembraram muito algumas de A Doce Vida. Acredito que
Melancolia perdeu a palma para A Árvore da Vida porque o
boquirroto diretor falou demais numa entrevista e foi considerado
persona non grata naquele evento; acho que, por isso, tenha sido
desclassificado.
Pensei muito, muito
mesmo, depois de assistir a eles. Gostei por ter feito esse
exercício de pensar no qual me senti muito identificado com as
ideias que me foram passadas por esses dois filmes. Arte é uma
proposição de enigmas que proporciona ao decifrador prazer; um
prazer orgástico. Alôôô! Isso também é uma metáfora. Assim como a
piada; quando entendemos o enigma contido é que surge a graça. Nada
mais sem graça do que explicar a piada.
O que critiquei no
primeiro foi a colocação de uma questão um tanto maniqueísta, a
escolha entre a graça e a natureza, definidas, a primeira, como o
sentido cristão de generosidade, humildade e bondade; e a segunda
como algo muito material, indomável, sem grandes objetivos
(humanos?). O filme fica com o primeiro conceito. Eu, com o segundo.
O filme incorre no erro de “definir” quem opta pela natureza como um
defensor do economicismo e dos valores mundanos: progresso e
sucesso. Isso me lembrou aquele entendimento errado de algumas
pessoas que associam o pensamento materialista à ganância e a algo
beirando o hedonismo. Materialista no meu caso é quem admite a
natureza como ela é, incluindo seus inúmeros percalços, e não
inventando visões ou versões idealistas.
Os demais filmes foram
mais amenos. No entanto, o Planeta dos Macacos – A Origem
também guarda semelhança com a vida em nosso planeta doméstico. Mas,
para apreciar a mensagem desse filme, é necessário ter visto o
original e o seu surpreendente final. Neste, é também o final que dá
o tom da genialidade dele, além dos efeitos especiais tão
apreciáveis pelo espectador moderno.
Esse final só acontece
depois que já começam a ser exibidos alguns créditos, sugerindo o
fim da película. Mas, é depois que vem a cena derradeira,
surpreendente. O funcionário do cinema já tinha aberto a porta de
saída, a sala de projeção já se havia iluminado e os espectadores,
inclusive eu, estavam saindo. Já considerava o filme sem a mínima
sutileza, diferente do original, quando, após assentar-me de novo,
fui surpreendido pelo fim. Aí, a excelência do filme me maravilhou;
tão sutil quanto o seu ancestral.
A Última
Estação, o mais bonito e mais leve dos cinco, cobre os anos
finais do escritor russo Leon Tolstoi, o embate entre a sua nova
concepção de vida depois de já ter se tornado um celebrado escritor
(Guerra e Paz, Ana Karênina, Ressurreição etc.) e a renúncia
à vida burguesa que sempre viveu.
Finalmente, Um Sonho
de Amor. O título em italiano é Io Sono l’Amore, que
traduzido ao pé da letra é Eu Sou o Amor. O tradutor deu ao
título em português um glamour ao amor e ao filme que não foi o
propósito de seu diretor. Porque o filme mostra como é a realidade
do amor, não esse romantismo bobo que é passado para as mocinhas
casadoiras. Gostei muito principalmente porque havia escrito dois
contos (imediatamente anteriores a este Jornalego) tentando
desmistificar o amor, tirando-lhe esse adocicado que tanto pregam,
talvez porque eu seja diabético.
Pena que não tenha
inserido nenhum filme brasileiro nesta lista. Só assisti a
neochanchadas nesse período: Cilada.com e Não se Preocupe,
Nada Vai Dar Certo. Falha minha.
(*)
Renovada em 20-09-2011, dando
início à série: “manutenção aérea em pleno voo”, isto é, depois de
originalmente divulgada.
Um aviso:
Não recomendo a ninguém ver tais filmes (principalmente os dois
primeiros da lista). Já quebrei a cara fazendo algumas
sugestões a alguns amigos.
Mot de la fin:
“Gosto de filmes que se passam em lugar e tempo indeterminados. O
ato de não dar nome às coisas ajuda a fabricar a fantasia e a
desenrolar a imaginação. Mais do que oferecer um relato linear, o
cinema deve transportar o público num turbilhão mental.” Isabelle
Huppert.