ANO X - N°
280, em 20 de agosto de 2011.
Conto
PLATÔNICO, VIRTUAL, ONÍRICO
O amor! Ah! O amor! O amor é lindo! Viver sem ele quem há de?
O amor em suas várias manifestações, as artimanhas, daí para a
paixão e desta para o ódio! Trânsito fácil e intenso. Um sentimento prazeroso e
perigoso. Insensato e incensado. Tentei mostrar um fragmento desse mundo
romântico na crônica anterior: Até que a Morte os Separe. Paixão: o amor
de porre ou chapado. Quanto ao ódio, sua relação com o amor pode ser expressa no
cacófato: quem ama mata.
Tais considerações iniciais servem tão somente para situar o tema
desta crônica que, por sinal, não tem lá muito a ver com a história que vai ser
contada. Esta é até hilária! Aconteceu com um amigo de infância, colega desde os
tempos de colégio, do ensino fundamental e do médio, antigos ginásio e
científico.
Assim ele me contou:
Ao ultrapassar a casa dos sessenta, apaixonou-se nova e perdidamente
por uma moça trinta anos mais nova. Vem alimentando esse amor por quase uma
década (hoje ele já superou a barreira dos setenta) na base do que chama “a
nível de”, o que embute uma crítica irônica à expressão. A nível de
ideia, um amor para se curtir no plano exclusivamente mental. Ter um amor para
chamar intimamente de seu e preencher o seu tédio de viver.
A menina é uma lindeza, uma meiguice só, uma simpatia. Eu também a
conheço, pois tenho conta no mesmo banco em que ela trabalha e em que ele a
conheceu, onde também é correntista. Não vou aqui me dar ao desfrute e deitar
fala sobre os atributos corporais dela. Mas, de fato, trata-se de um pitéu, um
tesãozinho.
O primeiro obstáculo encontrado pelo enamorado era ter a
correspondência da moça. Para tal, precisava declarar seu amor a ela. E o medo
de se expor ao ridículo de um amor senil e ao perigo da negação, o que por certo
levaria ao fim aquela bela amizade e a boa convivência com a sua musa, quando a
visitava na agência do banco.
“Simpatia é quase amor” é o nome de um bloco
carnavalesco carioca; o perigo era provocar e não conseguir o deslocamento da
simpatia para o campo do amor, dada a grande diferença de idade entre os
dois.
Além do mais, ela tem uma bruta aliança no delo anular esquerdo e já
lhe mostrou a foto de uma bela criança, seu filho.
A saída era satisfazer-se com o platonismo desse
amor. “O importante é amar, reciprocidade no amor é egoísmo”. Lembrava-se da
frase de José Amádio, em sua coluna intitulada Ninguém conhece Ninguém no
hebdomadário O Cruzeiro, das décadas de cinquenta e sessenta.
Mas a despeito do platonismo, queria de alguma forma almejar um
encontro amoroso. Daí derivar para um artifício virtual. Virtual no sentido de
não real e não no da prática tão comum na Internet. Esse tipo de sexo virtual
tem nome certo, chama-se masturbação. Não que ele tenha algo contra essa velha
senhora, mas não era bem o seu caso nesta altura do campeonato.
Assim, cogitou que esse esperado intercurso amoroso pudesse
acontecer num sonho, o que vinha provocando há algum tempo, sem sucesso. Ia
treinando a sua mente para alcançar o desejado encontro, com a plenitude sexual
que tanto desejava, num sonho, como nos que tinha quando jovem.
Chegou a tomar, em algumas oportunidades, aquela milagrosa drágea
azul que levanta a autoestima do homem em idade provecta. O mais que conseguiu
foi um rápido priaprismo que apelidou de ereção al dente.
Só lhe restava, portanto, uma única saída, essa mesma: a onírica.
Eis que de repente, num sonho de uma noite de verão, encontra-se com a amada na
saída do expediente bancário e convida-a para lanchar em seu apartamento. Aceito
o convite, deu-lhe carona no seu carro.
Ao parar e esperar o verde num dos sinais de
trânsito, olhou para cima vigiando ansioso a abertura do semáforo e viu um par
de olhos a espreitá-lo da escuridão do céu. Estremeceu. Eram os mesmos olhos que
vira, há muito tempo, não se esquecera jamais, numa gravura exposta em uma aula
de religião preparatória para a primeira comunhão, quando a catequista incutira
naquelas cabecinhas em formação a onipotência, a onipresença e, principalmente,
a onisciência de Deus. O olho da gravura vinha inserido num triângulo cujos
lados representaram os três ONIs acima. No primeiro momento entrou em pânico.
Contudo, ao pensar melhor, notou que eram seus próprios olhos refletidos no alto
do para brisa do carro! Lembrou-se do tempo em que vivia acossado pelo big
father em qualquer lugar solitário em que tentasse se refugiar.
A próxima cena já ocorreu no seu edifício.
Entrou pela garagem e subiu no elevador rezando para não encontrar vizinhos.
Assim mesmo estava lá pendurada num canto a indiscreta câmera que transmitia, ao
vivo, suas imagens para o vigia e que ficariam gravadas na memória do
computador.
No apartamento, sentindo-se mais seguro,
acompanhou-a já com o braço sobre o seu ombro, encaminhando-se celeremente para
o quarto e a cama de viúvo. Deu-lhe um beijo numa das faces que imediatamente se
deslocou para uma boca sensual e acolhedora. Nervosamente ia abraçando seu amor
enquanto a acariciava e a ajudava a se desvencilhar do vestido.
Já deitado, de cueca samba-canção, ouviu um pequeno murmúrio no
quarto contíguo. Levantou-se e se dirigiu para lá, deixando a sua parceira
debaixo dos lençóis que ela rapidamente puxara para si.
Quem lá estava? Sua mulher falecida em reunião de família com seus
pais também desencarnados, como eles diriam como crentes da doutrina espírita, a
quem olhou surpreso com aquele ar de ser surpreendido, metaforicamente “com as
calças na mão” ou “com a boca na botija”.
“Não é isso que vocês estão pensando” e correu para a sala, de onde
ouvia um burburinho abafado. Lá encontrou o padre conselheiro do colégio
religioso, em sua batina preta encardida, confabulando com o inspetor de
disciplina do colégio público, com sua gravata babada. Mais além, na varanda, em
pé, vestidos em suas fardas molambentas, o guarda-civil do Parque Municipal, que
os proibia de pescar carás no lago e correr sobre a grama, conversando com o
cabo da Polícia Militar que tentava colocar ordem nas filas das matinês e
proibia os mais crescidinhos de fumar na sala de projeção. Não faltou o sargento
dedo-duro do Exército, que caçava a ele e a seus companheiros pela cidade para
dar parte aos superiores e puni-los porque andavam à paisana sem permissão.
E agora José? O nome do nosso personagem é José. Que coincidência!
Acordou sobressaltado. Empataram o seu encontro amoroso. Que pena! O sonho
acabou abruptamente, da mesma forma como acabou a crônica! E assim também se
foram seus derradeiros projetos amorosos, por água abaixo no xixi que se
seguiu.
Sossegado, voltou para cama e terminou o seu
sono, agora limpo de qualquer excremento romântico. Isso me sabe a um verso de
Drummond!