Jornalego
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ANO X - N° 278, em 30 de julho de 2011.
O SOCIALISTA E A SOCIALITE
– Isto é Brasil! – Minha senhora, o que essa exclamação representa? Trata-se de um elogio ou de uma crítica? No meu tempo dizia-se: “Calma que o Brasil é nosso!” Hoje, essa expressão foi substituída por aquela exclamação aparentemente dúbia, mas flagrantemente detratora. – É evidente que se trata de uma crítica, meu senhor. Veja isto: com o feriado de Corpus Christi da quinta-feira, quase todo mundo enforcou a sexta-feira, um dia útil que deveria funcionar normalmente. Pois bem, está tudo fechado na cidade. O Comércio enforcou, as Repartições Públicas enforcaram apelando para o tradicional eufemismo de Ponto Facultativo. Nada funciona, é uma ver-gon-ha! – Senhora, lembro-me muito bem de quando vivi na Europa. Nos recessos de Páscoa, de Natal e de outras datas menos cotadas, eventualmente até nos aniversários dos principais membros da família real, a população parava de trabalhar, enforcava alguns dias e ia passear. Eu estava na civilizada Holanda. – Essa idéia está pegando aqui. Até os supermercados não funcionam mais no domingo. Esse pessoal tá querendo é boa vida, trabalhar que é bom, nem pensar. – Mas, senhora, era tudo o que a gente queria: crescimento econômico, elevação do nível da renda das classes mais baixas, melhor distribuição de renda. Nessa situação são muitas as pessoas a gozar mais o lazer, que agora lhes é permitido. Faz sentido. – Sei não! Tá todo mundo viajando nesses feriados e nessas férias. Também com essa enxurrada de crédito fácil, embora caro... Os aeroportos parecem estações rodoviárias. As estradas superlotadas. Já não se tem o sossego de antigamente. As praias superpovoadas; não se pode mais ter sossego. – É isso que dá ter uma pequena melhoria na distribuição de renda do país. E olha que ela foi muito pouca. A senhora precisa se acostumar porque vai piorar. Bem entendido: no que diz respeito às suas reclamações. Num mercado de massas, uma população cada vez maior vai ter maior acesso a tudo, dos supermercados aos grandes shoppings. Bem como aos terrenos à beira-mar onde estão sendo construídos seus apartamentos, onde antigamente somente existiam as grandes mansões. O trânsito vai piorar com a maior venda de carros populares. – Mas o povo fica cada vez mais preguiçoso. Imagine você que não se encontram mais aquelas boas empregadas de forno e fogão, que dormiam em casa e acordavam cedo para fazer a mesa do café. Que saudades de antigamente com as empregadas trabalhadeiras que faziam todos os serviços da casa, eram respeitosas e só folgavam aos domingos! Eram consideradas agregadas da família. Conheci várias que só saíam da casa dos patrões aos domingos para ir à missa. Imagine você: atualmente tem empregada por aí que está ganhando mais que um aluguel de um bom apartamento aqui na orla da praia! Oito horas de trabalho diárias, cinco dias por semana, e mais: 13º salário, férias remuneradas, gratificação de férias, estão cogitando até na extensão do FGTS a elas, salário-desemprego e outras benesses. Fazendo as contas são 14,3 salários por ano. Um absurdo! – Que bom, madame! Isso quer dizer que em alguns casos a remuneração do trabalho está competindo com a remuneração do capital. Isso é bom! Não acha? Indo por esse caminho até o Marxismo vai ficar desacreditado. Um lembrete: a senhora não é obrigada a ter empregadas domésticas. – Acho que isso é uma subversão dos valores na sociedade. O culpado disso é essa associação escandalosa que o último governo fez com a classe alta, permitindo que ela ganhasse muito dinheiro para viabilizar o favorecimento dos programas sociais que beneficiaram as classes inferiores de renda. E com isso ganhar as eleições, claro. Nós da classe média é que estamos arrochadas no meio desses extremos. Aliás, esses movimentos, mais acelerados no último governo, vêm de antes, desde que foi retomada a democracia. De certa forma isso virou uma bagunça. Reivindicações e greves a toda hora, prejudicando a sociedade! – Não é bem assim, minha senhora. Não tem faltado nada à classe média. Mas, lógico, se a classe A e as classes D e E aumentam sua participação percentual na distribuição da renda, isso não quer dizer que a pequena diminuição do percentual da classe média indique uma diminuição do seu poder aquisitivo, se a renda total vem aumentando. Eu acho que ela vai bem, como sempre. E eu tenho certeza, pelo que conheço, que a senhora vai muito bem. – Tá tudo muito ruim, comparado com os países europeus e os Estados Unidos. Aqui a taxa de juros é altíssima, a carga tributária também, o sistema de saúde é péssimo, a infraestrutura de transportes é falha. A educação deixa a desejar e a insegurança aumenta. E a corrupção. Precisa falar alguma coisa? – Eu também acho que a taxa de juros é alta. E a carga tributária também. Isso pode melhorar. Como também têm que melhorar a saúde pública e a infraestrutura e os outros setores alinhados pela senhora. Quanto à corrupção, temos que apurar e punir os culpados. Polícia e justiça neles. Mas estamos num processo de melhora, as coisas não se fazem no curto prazo. Trata-se de um processo. A população está crescendo, e o crescimento econômico põe mais carros nas estradas e nas cidades, e mais cargas estão sendo transportadas em nossas rodovias. Quanto a essas comparações com as mais desenvolvidas economias do mundo não devem ser feitas irrestritamente. Devemos considerar nossas características, o nosso passado histórico. Por que comparar com aqueles países e não comparar com a Argentina, o Chile, o México e os demais países da América Latina? Hoje vivemos as dores do crescimento. – Não adianta. Este nosso povo é ignorante mesmo e não tem jeito. – Senhora, a Europa está em crise, os Estados Unidos também, às vésperas de um calote histórico. Neste último caso está se repetindo o que quase aconteceu nos tempos do De Gaulle que queria cobrar em ouro os débitos dos americanos para com a França. Agora, o imbróglio foi provocado dentro dos próprios Estados Unidos que bateram no limite da permissão para se endividarem. O Brasil é credor dos Estados Unidos. Assim como os países do antigo Terceiro Mundo sempre financiaram a farra dos industrializados principalmente quando contrataram financiamentos a juros baixos e flexíveis e depois tiveram que pagar o que deviam com juros altíssimos. Pagaram várias vezes a dívida que fizeram. O Brasil vai bem! Tem suas mazelas, mas está melhorando. A América do Sul vive um momento de paz, sem as grandes reivindicações que se espalham pelo norte da África e pelo Oriente Médio e mesmo por alguns países da Europa. Quem quer ver o circo sul-americano pegar fogo é a imprensa conservadora e a oposição idem, saudosas do período neoliberal que quase levou nossos países à falência. – Que nada! A Europa e os Estados Unidos passam por um período problemático, que será brevemente superado. Mas, por aqui, com esse povinho ignorante, a coisa vai sempre piorar. Veja os hospitais cheios, a violência que campeia nossas ruas, a corrupção já mencionada. Não tem jeito. – Senhora, a senhora está seguindo a mesma linha de raciocínio expressada por aquele famigerado terrorista norueguês que em seu manifesto fascista citou o Brasil, onde a miscigenação de raça do nosso povo leva a essas mazelas. – Chega, meu senhor. Com o senhor não se pode conversar. Sempre apelando para argumentos radicais. Será que não avisaram ao senhor que o comunismo acabou?
Genserico Encarnação Júnior, 72 anos. Itapoã, Vila Velha, ES.
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