ANO X - N°
276, em 10 de maio de 2011.
Política
Internacional
OSAMA X OBAMA
Às vésperas
de divulgar o número inaugural do ano X do Jornalego, ainda padecia da
ausência de um bom tema para escrever a respeito. Sempre tenho algumas ideias
perfiladas na cabeça, mas algumas delas carecem de uma elaboração mais demorada
e trabalhosa e ficam em gestação até que o engenho e arte se pronunciem, mais
aquele do que esta.
Depois de
deletar um texto que não passou bem pelo meu crivo, optei por um tema que pode
causar alguma polêmica entre os leitores. Não obstante, convido-os para
raciocinar sobre o que proponho.
Na briga
entre esses dois pesos pesados do atual cenário internacional, que intitulam
esta crônica, cada um simbolizando sua respectiva vertente de pensamento e
poder, acredito que ambos estão perdendo nessa contenda. Os EUA vêm sofrendo
importantes e sucessivos reveses há tempo: Coréia, Vietnam e, minha bola de
cristal aponta agora para os fracassos no Iraque e no Afeganistão. Quanto a
estes últimos, virá o dia em que cantarão vitória e avançarão céleres para a
retirada. Por seu turno, o al-Qaeda, que já vivia um momento de enfraquecimento
depois da euforia do 11 de setembro de 2001, nesses últimos anos não parecia tão
poderoso assim. A morte do Osama foi mais uma vingança pessoal e uma pá de cal
jogada sobre o movimento por ele liderado, o que não quer dizer que cessaram as
tentativas de terrorismo no mundo.
Em primeiro
lugar, o que convido o leitor a observar, é que tanto na, assim chamada,
Primavera do Norte da África quanto na do Oriente Médio, não se vê a
participação significativa do al-Qaeda nem tampouco a tradicional queima de
bandeiras dos EUA. Trata-se de movimentos reivindicatórios populares,
principalmente apoiados por jovens (possivelmente usando suas redes de
relacionamento pessoal na Internet) em favor de melhores tempos democráticos,
maior participação popular na governança dos seus países, transparência e
liberdade de expressão e, contra ditaduras envelhecidas que perduram por
décadas. Neste último caso, algumas delas são apoiadas pelos EUA, para atenderem
seus interesses naquela região, incluindo a não agressão a Israel, seu mais
precioso parceiro direto no estratégico Oriente Médio. O principal interesse,
como se sabe, é a garantia do abastecimento de petróleo.
A al-Qaeda e
seu líder, Osama, vislumbravam um califado muçulmano para a região e isso não
vem sendo conseguido. O grande projeto dele foi para o brejo. O califa, como se
sabe, é o líder que detém o poder político e religioso e isso parece que está
fora de moda no mundo moderno, a despeito do regime teocrático do Irã, que não
se constitui num califado, e da existência de certo fundamentalismo islâmico.
Um resquício
dos califas que perdura em pleno século XXI é o exercido pela Rainha da
Inglaterra, Chefe de Estado da Comunidade Britânica e Chefe da Igreja Anglicana.
Sintam, por favor, certo cheiro de ironia no ar e uma tentativa de cometer um
chiste. Desculpem-me!
Por causa do
exposto, ambos os nomes do título acima estão perdendo (não me refiro às pugnas
eleitoreiras americanas), e isso é muito bom para a oxigenação da cena política
internacional, visando à maior democratização e diversificação dos centros de
decisão mundiais. O momento, por conseguinte, é muito rico, agasalhando
esperanças quanto ao futuro de nossos países do chamado terceiro mundo, com a
disseminação de nações independentes de títeres. Isso, como se sabe, é um
processo longo e penoso, principalmente por causa do poderio bélico americano e
dos seus acólitos na Otan.
Em segundo
lugar, convido também o leitor para observar um fenômeno pouco comentado pela
mídia internacional e principalmente nacional: o milagre da mudança política
pacífica ocorrida na América do Sul. Essa região já fez a sua revolução sem
grandes traumas, através de processos eleitorais confiáveis.
Refiro-me às
novas lideranças nos vários países, depois de passadas as desastrosas ditaduras
militares e superados os também desastrosos governos neoliberais. Lideranças
populares que as forças conservadoras insistem em apodar de populistas. A saber:
No Brasil: Lula,
ex-sindicalista, sucedido por Dilma, ex-guerrilheira.
No Uruguai: José Mujica,
ex-tupamaro, sucessor de Tabaré Vásquez, socialista.
No Paraguai: Fernando Lugo,
ex-bispo católico adepto da Teologia da Libertação.
No Chile: Michelle Bachelet,
socialista. O processo democrático nesse país, depois da ditadura do Pinochet,
foi tão digno de nota que o sucessor da presidente, Sebastián Piñera, é de um
partido de oposição e parece ir bem. Não há como reverter algumas conquistas
alcançadas nos governos anteriores, pós-ditadura.
No Equador: Rafael Correa,
político de esquerda.
Na Bolívia: Evo Morales, mais do
que uma expressão popular, um representante da população indígena.
Na Venezuela: o controvertido
Hugo Chávez que, pelo menos, teve a audácia de desbancar a oligarquia
retrógrada.
Na Argentina: o discutível casal
Kirchner.
Alguns comentários
complementares:
No Peru, aguarda-se o segundo
turno das eleições presidenciais, cujo resultado, segundo as aspirações dos
chamados grupos progressistas deve barrar as pretensões da volta ao poder da
família Fujimori e eleger Ollanta Humala, de tendências esquerdistas.
A Colômbia é o único país no
qual a direita política continua no poder (por falta de conhecimento do autor,
não foram incluídos nesta análise os casos da Guiana e do Suriname). Talvez a
situação política perdure naquele país porque existem dois enclaves sérios: a
guerrilha das Farc e a presença de bases militares americanas sob o pretexto de
combater os revolucionários esquerdistas e o narcotráfico.
Na Argentina, eu particularmente
não concordo com o que muita gente boa acha: que a população tem alto descortino
político. Pelo contrário, ainda prevalecem as várias formas de um peronismo
anacrônico.
A América do Sul vem
marchando seguramente para um processo de integração regional com os
instrumentos já existentes do Mercosul (que procura estender suas fronteiras com
a incorporação de outros países) e com a recente criação da Unasul (União das
Nações Sul-americanas) que tenta unir as uniões aduaneiras do Mercosul e a dos
países do Pacto Andino. Lógico que todos nós temos consciência das mazelas que
continuam a nos atormentar desde tempos coloniais.
A América do Sul é
ainda a região que elegeu três mulheres para a presidência da República, dando
um exemplo de igualdade sexual (que os menos entendidos chamam de igualdade de
gênero).
Esses fenômenos, que
ocorrem à vista de todos aqui no nosso subcontinente, não é vista nem tampouco
benquista pela mídia conservadora do Brasil que, como o grosso da nossa elite,
vive de costas para nossos vizinhos territoriais.
Para finalizar, uma
simples especulação para suscitar discussão: o que está acontecendo no Norte da
África e no Oriente Médio poderia estar muito bem acontecendo na América do Sul,
se o quadro político da região não tivesse se modificado pacificamente, como foi
relatado aqui.