Jornalego
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ANO IX - N° 275, em 30 de abril de 2011.
Crônica do absurdo
ESPERANDO GODOT
Ouvi dizer que o neologismo Godot, do nome da peça de Samuel Beckett, que aqui tomo emprestado, vem da junção da palavra God, Deus em inglês, e Charlot, como é conhecido em francês o personagem Carlito de Charles Chaplin. A interpretação sobre o nome Godot é, no entanto, polêmica, pois, se quisermos fechar um único significado, isso vai trair o espírito do texto, que dá ao leitor/espectador a possibilidade de ter um sentido próprio, que ele mesmo concebe, à peça. Beckett é conhecido como autor do “teatro do absurdo”, embora ele não concordasse com esse rótulo. Dito isso, escrevo sob a influência escancarada do que estou lendo nas Obras Completas de Jorge Luis Borges, tentando adaptar-me tanto à forma quanto ao conteúdo do escritor argentino. A propósito, os quatro volumes dessa obra (em português) ficam me namorando empoleirados na estante do meu escritório à espera de um momento, como o atual, quando não tenho romances para ler. O romance é o gênero de literatura de minha preferência. Aproveito o ensejo que me proporciona a falta de romances à mão, que sempre me esperam em fila indiana, para ler outros gêneros literários. A fila extinguiu-se temporariamente. Estou liberado para outras leituras. Isso é muito bom quando a alternativa é Borges. O interessante é que esse autor, notabilizado como um dos maiores literatos da atualidade, nunca escreveu um único romance. Somente ensaios, poemas, crônicas, artigos curtos e contos. Assim como eu; só que quem nasce para Jornalego não chega jamais aos píncaros borgianos. Vamos ao que interessa para efeito deste artigo. Num texto do Borges, intitulado Ragnarök (do livro O Fazedor, 1960) ele conta numa crônica, um sonho, em que os personagens, inclusive o sonhador, ao final, sacam os pesados revólveres (de repente houve revólveres no sonho) e alegremente dão morte aos Deuses. Segundo o Google, na mitologia nórdica, Ragnarök (do nórdico antigo “destino final dos deuses”) é uma série de eventos, incluindo uma grande batalha anunciada para, por fim, resultar na morte de um número de figuras importantes (incluindo os deuses Odin, Thor, Týr, Freyr, Heimdallr e Loki). E mais: conta a ocorrência de vários desastres naturais e a submersão subsequente do mundo em água (tal qual o dilúvio contado da Bíblia). Ragnarök é um evento importante no cânone nórdico e tem sido tema de discursos acadêmicos e teóricos. Por aí sigo eu. A humanidade não prescinde de emoções, ilusões e esperanças benfazejas que lhe minorem as dores do viver neste vale de lágrimas. As religiões, desde muito tempo, preenchem essa necessidade. Contudo, além de assim procederem, usam fantasiosos argumentos tanto para explicar o passado quanto para acenar com mirabolantes futuros e promessas. Como exemplo do primeiro grupo: a criação do Universo e do nosso mundo, e a dos seres humanos e da vida em nosso planeta. Para o segundo grupo prometem a remissão dos pecados, a ressurreição dos mortos, a reencarnação ou a vida eterna na glória dos deuses. Sem contar os processos de cura e os vários milagres apregoados para encher o presente. Com pequenas diferenças esse é o discurso de quase todas as religiões. Na minha visão um engodo, uma mistificação, obscurantismo. As pessoas necessitam de um amparo, vá lá, espiritual, para viver. Mas as religiões vão além. Compreendo as religiões como expedientes comportamentais das pessoas, o que não deveria passar pelos exageros de que lançam mão. O ser humano cultua o misticismo, adora cerimônias, muito exploradas nas liturgias religiosas. Gostaria de ver tais necessidades realizadas fora do âmbito religioso, por exemplo, no âmbito da arte, que é uma forma de exercer a espiritualidade (não necessariamente no sentido religioso com que vem sendo usado esse termo). O que também serve para elevar o espírito para patamares acima de nosso comum viver e sentir emoções, algumas ilusões poéticas, românticas, visuais, amorosas, enfim dar o colorido necessário às nossas vidas, sem apelar para a mistificação (podendo inclusive se valer do místico). É o caso da literatura, do cinema, do teatro, da poesia, das artes plásticas, da música, da dança, da pintura e de tantas e variadas formas de arte. Do lúdico ao onírico. Temos dois exemplos populares muito importantes nesse sentido para o caso brasileiro. O carnaval, principalmente o espetáculo das escolas de samba, e o futebol. São provas da cultura do povo que podem fazer com que se sublimem suas inquietações pessoais por meio desses eventos. As cerimônias religiosas têm muito a ver com teatro. Não há um limite rígido entre o que seja teatro e o que seja cerimônia religiosa. Haja vista as encenações sobre a morte de Cristo durante a Semana Santa e as multidões que as prestigiam, não muito diferentes das que assistem aos cultos religiosos no mesmo período. A arte, quando engana, como é o caso da ficção, não esconde que está criando uma outra realidade, um mundo possível. Essa realidade, normalmente, retrata a realidade sensível. Não há empulhação nem tampouco fuga. Essa realidade ficcional leva o espectador, leitor etc. a conhecer e julgar sua própria realidade quando retornar desse plano artístico, reparador e benéfico para a vida prática. Na minha avaliação, certas manifestações e acontecimentos sociais poderiam muito bem dispensar o lado religioso das cerimônias. É verdade que, quem optar pelas liturgias religiosas que o faça, e estamos conversados. Recentemente, fui a um casamento espetacular. A cerimônia foi presidida pelo padrasto da noiva que se saiu muitíssimo bem. Houve entrada triunfal dela no recinto, o noivo estava esperando ao lado da mesa condutora dos trabalhos. Houve hino nupcial, flores jogadas sobre os nubentes, discursos poéticos e os prosaicos aconselhamentos aos noivos, entrega solene das alianças, juramentos de amor eterno (enquanto durar, naturalmente) e o consentimento formal mútuo de se unirem, constituindo família, não faltando nem mesmo a fala tradicional: “eu os proclamo marido e mulher”. Implícito estava a admissão sutil: “até que a vida os separe”. Logicamente isso além da cerimônia de registro civil que pode ser concomitante. Seguiu-se uma ruidosa festa. Termino este número reproduzindo um texto do livro Outras Inquisições, de 1952, encontrado ao final do artigo intitulado A Muralha e os Livros do mesmo Borges. Abre aspas: Pater (?), em 1877, afirmou que todas as artes aspiram à condição da música, que é apenas forma. A música, os estados de felicidade, a mitologia, os rostos trabalhados pelo tempo, certos crepúsculos e certos lugares querem dizer algo, ou algo disseram que não deveríamos ter perdido, ou estão prestes a dizer algo; essa iminência de uma revelação, que não se produz, é talvez o fato estético. Feche aspas. A religião mente ao afirmar o que aconteceu e o que acontecerá, com certezas plenas e dogmáticas que incute na mente dos seus seguidores. A arte não. E Borges diz isso na frase anterior. A iminência da revelação não se produz no contexto artístico e, termina ele, talvez aí resida o fato estético por excelência. As religiões “revelam”, são objetivas; as artes sugerem, são subjetivas. “A máquina do mundo é complexa demais para a simplicidade dos homens” (citação do Borges, em artigo intitulado Inferno, 1, 32, do livro O Fazedor já mencionado). Talvez aquela numeração após o título se refira aos versos de Dante na Divina Comédia. A frase que aparece acima entre aspas também sugere uma necessidade do gênero humano que o leva à religião, a facilidade de ter respostas precisas, claras, simples, sobre o complexo fenômeno humano e o Universo, mesmo que não se tenha nenhuma comprovação. Como se sabe isso é conhecido como o mistério inefável da fé. Enquanto isso continuamos esperando, esperando, esperando Godot, seja lá o que isso represente para cada um de nós.
Nota: Leia ou releia os números anteriores citados a seguir. Basta clicar sobre os títulos na relação à esquerda. N° 253 – Fé e Razão N° 262 – Fé e Crendice
Genserico Encarnação Júnior, 71 anos. Itapoã, Vila Velha (ES).
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