Jornalego
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ANO IX - N° 274, em 20 de abril de 2011.
Ficção entre amigos
SARAH VAUGHAN EM VITÓRIA
Todos deram sua versão sobre a memorável estada da cantora americana em Vitória, há 33 anos. A última ocorreu na recente edição inaugural do suplemento Pensar de A Gazeta. Agora vou dar a minha. Eu não andava por aqui à época. Transcorria a década de chumbo dos anos setenta e eu flanava alhures. Mas, como as testemunhas oculares da história apresentaram versões superficiais do evento, eu me credencio a acrescentar mais uma ao rol dessas historietas, depois de ter realizado exaustivas pesquisas. Como se sabe, a realidade não existe, o que existem são as versões. A realidade é outra ficção, a mais enganosa. A mais engenhosa é a que prevalece como verdadeira. Antes de mais nada, não me venha o principal personagem dessa história, o Sr. Carlos Victor (CV), querer monopolizar a verdade do que efetivamente aconteceu, por ser a principal figura desta crônica, tirando onda de senhor da situação sobre as demais visões apresentadas, querendo colocar uma pá de cal nas discussões a respeito. Eu sei muito bem por quê. A verdade nua e crua é outra: tão nua e crua como de fato aconteceu. Também não apelem para o testemunho do Luis Paixão, que não sabe nada de nada do que se passou nos bastidores. Outro dia, estando no Teatro Carlos Gomes, onde ocorreu a audição da Mrs. Vaughan, para ouvir a Orquestra Sinfônica do Estado, fui informado, no intervalo, por um amigo conterrâneo e coetâneo (Procurem o dicionário, afinal, só eu é quem faz tudo por aqui?) que me garantiu ter presenciado Ella Fitzgerald cantar naquele palco. Eu duvidei. Depois perguntei ao Eleisson da passagem d’Ella pela terrinha. O experto comentarista musical negou peremptoriamente o evento. Quem esteve aqui foi Sarah. Isso demonstra como rateia a memória, até mesmo as das pessoas que estiveram presentes ao espetáculo, e, principalmente, de gente coeva (Novamente: recorram ao dicionário). Aqui vai a exata história, na realidade uma refinada história de amor. Na tarde do dia 23 de outubro de 1977, estava o promotor do show Marien Calixte a fazer um sight-seeing com a cantora pela ilha, antes da apresentação daquela noite, quando pararam ao semáforo, na Praia do Canto, ao lado do carro do Carlos Victor. Este, como qualquer jovem ilhéu da época (ele tinha 37 anos, mas com espírito bem mais jovial), gritou: Sarahhhhh wait a minute! Ela procurou de um lado e de outro. Por fim encontrou a cara sorridente do CV, na direção do carro, que não conseguiu escapar, pois o semáforo estava fechado para eles. A intenção original era simplesmente pregar-lhe uma peça e passar despercebido. Mas, tendo sido identificado pelo Marien, o CV só teve mesmo que encarar a realidade e a celebridade, partindo para solicitar uma música no espetáculo de logo mais à noite: Over the Rainbow foi o pedido e declinou o seu nome. Quando ela lhe ouviu o sobrenome, conhecedora que era do idioma italiano, ficou encantada: Fine Amore! Criou-se um clima que deixou a mulher toda enluarada. A cantora achou aquilo tão espontâneo que não deixou seguir o carro e trocou algumas palavras com o CV. Convidou-o para dar um passeio com ela. Iria deixar o Marien em casa e seguiria para o hotel, onde também estava hospedava a sua trupe. Não deu outra, lá embarcou o nosso amigo todo orgulhoso e solícito. Quem continuou o passeio foi o CV, deixando a espevitada cantora muito mais encantada com ele do que com o pequeno périplo ciceroneado pelo Marien. CV foi contando causos e piadas, mostrando os locais de sua infância e de sua adolescência: o Parque Moscoso, o Colégio Americano (onde estudara), o Cine São Luiz (onde assistia as chanchadas nacionais com Oscarito e Grande Otelo). Falou desses grandes artistas nacionais, não sabendo ao certo se o Oscarito era originalmente argentino ou espanhol, ia consultar o Google ou o Cabral para esclarecer. Mostrou o local onde ficava o Politeama (aonde o amigo Mauro ia descalço assistir às Sessões Colosso das segundas-feiras, enganando assim a vigilância do seu pai), foi a Jucutuquara (no que citou o incidente – ou acidente? – do Buraco Sujo de Jucutuquara), o Saldanha da Gama, o Clube Vitória, a Catedral Metropolitana (quando chegou a imitar o Padre Fuchs para a nobre diva) e também simulou uma irradiação radiofônica de futebol, com estática. E mais: o Penedo, o Convento da Penha... Confessou à cantora que Vitória era a mais bela cidade do mundo! Ela admitiu cinicamente. Ela estava encantada com o cidadão que a acompanhava. No entanto, a cantante ficou não só maravilhada com aquele périplo naïf, mas também com a exótica linguagem do seu acompanhante, tão semelhante à língua inglesa; embora ela compreendesse tudo. Em atitude de agradecimento convidou-o para tomar um scotch no bar do hotel. E lá foi o CV todo prosa, acompanhando-a, para espanto de todos os transeuntes e hóspedes por quem passavam. De lá, foi convidado a subir para sua suíte quando e onde o diálogo continuou agora muito bem acompanhado com gestos amorosos e voluptuosos. Deu-se o inevitável. A respeitável senhora estava muito carente. Muito tempo longe de casa. Carlos Victor, campeão nacional de bolas ao cesto, não desiludiu a famosa dama do jazz americano. A grande verdade, a pura realidade é esta: o CV teve um caso casualíssimo com a veneranda e venerável senhora cinquentenária. Depois disso, e dada a grande satisfação alcançada por ela nesse acontecimento, ela cantou, de todo o coração, a musica que ele encomendara na audição daquela noite no teatro. Este fato se constituiu num grande rebuliço entre os amigos ali presentes. Esses o vinham zoando muito quando lhes foi contada a abordagem porque não acreditaram na suposta pilhéria. Quando, na segunda metade do show a Sarah cantou a música oferecendo-a “ao meu amigo Carlos Victor”, este, que vinha aguentando a gozação e a ansiedade, abriu um sorriso a bandeiras despregadas, levantou-se, saudou o público e a cantora. Agora mesmo é que os amigos não acreditavam no que viam e ouviam. Não sabiam o que havia se passado algumas horas antes numa tarde de primavera nos altos da Ilha do Boi, no hotel Senac. Foi um acontecimento da mais alta significação para a honra estadual e nacional Mais uma vez o exterior, e principalmente os Estados Unidos, se curvaram (com duplo sentido) à raça brasileira. O mais significativo de tudo é que o amigo, daqui do nosso pequeno Estado do Espírito Santo, de nossa pacata e provinciana capital, foi o grande herói desta aventura, desbancando outros conterrâneos que, no máximo, conquistaram cantoras do cancioneiro nacional. Superou Carlito Bagunça e Zé Costa. Esse acontecimento ficará indelevelmente marcado na história da gente capixaba. Não engendrem artimanhas, subterfúgios ou versões enganosas e argumentos escorregadios para esconder a verdade. Principalmente por parte daquelas pessoas possuídas por este insidioso complexo de vira-latas. Aqui está a versão verdadeira. Só um ficcionista respeitado tem crédito para dar foros de verdade a fatos ocorridos há tão grande tempo. Finalmente alguém colocou os pingos nos is e o preto no branco (ou terá sido o contrário?). Só a ficção é verdadeira, porque ela se diz ficção e isso é verdade. A realidade passa pelo crivo das testemunhas, sempre falho, e dos escrúpulos dos próprios personagens envolvidos na trama. Por exemplo: CV jamais confessaria integralmente o que de fato aconteceu naquela gloriosa tarde. Limitou-se a contar vantagem sobre o pedido da canção e seu atendimento público. Como descobri o que de fato aconteceu? Ora, eu tenho os meus meios, meus artifícios. Ninguém contava com a minha astúcia! Dêem a um escritor, por mais artesanal que seja, um papel em branco, que ele fará acontecer qualquer coisa. A ficção desvendou o mistério que ainda encobria a breve estada em Vitória da festejada dama da canção internacional, a maravilhosa Sarah Louis Vaughan, 13 anos antes de sua morte, aos 66 de idade, em 1990. Que ela descanse em paz e eu também, enquanto durmo, sem que me venha puxar a perna, pela história contada.
Nota de busca-pé: Este conto foi originalmente escrito em janeiro de 2008, agora burilado e apresentado à visitação pública por ocasião da publicação da matéria do produtor cultural Rogério Coimbra, pesquisador de história da música (www.musicanasalturas.blogspot.com), que contou seu testemunho no caderno Pensar, suplemento cultural de A Gazeta (ES), no dia 9 do corrente mês. Desde já, apresento àquele senhor as minhas desculpas ao apresentar tão mirabolante versão. Espero também que ela não provoque ciúmes infundados por parte de alguém, nem tampouco inveja aos musicófilos capixabas que gostariam de estar na pele do meu personagem, especialmente um certo Sr. Almeidinha.
Genserico Encarnação Júnior, 71 anos. Itapoã, Vila Velha (ES)
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