ANO IX - N°
272, em 30 de março de 2011.
Crônica de
guerra
HORROR! HORROR!
Rasgo papéis;
descubro anotações passadas que, logo a seguir, terão o mesmo destino do lixo.
Procuro salvar algumas na memória do Jornalego, para que não se percam nos
escaninhos da minha humana e desgastada memória. De umas não sei a fonte, de
outras sei e digo. Se verossímeis, também não sei se são. Afinal, este texto não
é uma certidão, escritura, nem qualquer peça jurídica, com firma reconhecida,
carimbos e selos. Trata-se de uma crônica despretensiosa. Embora quisesse que
não fosse entendida como tal!
Durante esse longo
recesso de mais de um mês do Jornalego, tivemos as férias da redação, viagem
para fora da sede, o carnaval e, entrementes, a visita do Obama ao Brasil, o
maremoto e o tsunami no Japão, os movimentos oposicionistas e populares nos
países árabes do norte da África e do Oriente Médio etcétera etcétera.
Volto sem muita
vontade de escrever, privilegiando a leitura; mesmo porque não imagino nada
inteligente que possa oferecer aos leitores e à minha satisfação pessoal. O que
leio é muito mais inteligente do que escrevo.
Contudo, ao
rasgar papéis descubro algumas pérolas: “Depois de Hiroshima e Nagasaki os EUA
ofereceram à França uma ou duas bombas atômicas para serem usadas no Vietnam
para evitar a derrota francesa naquele país”. “A França não aceitou”. De onde eu
tirei isso? Quem disse isso? Não sei.
Outra: “Gabriel Garcia
Márquez afirmou que, se não tivesse acontecido a revolução cubana, os EUA
poderiam hoje estar dominando todo o sul do continente americano”. “Até a
Antártica”. Será?
“A guerra americana no
Vietnam foi justificada pela tentativa de barrar o efeito dominó do comunismo no
sudeste asiático”. “Os EUA perderam a guerra e não houve o tão falado derrame do
comunismo pelo sudeste asiático”. Por outro lado, o Vietnam funcionou como uma
muralha da China, barrando a possibilidade de os EUA entrarem em seu território,
se tivessem vencido a guerra. Surpreendente é que o regime político comunista da
China hoje assumiu o regime econômico capitalista, mas sem se subjugar ao
imperialismo americano. Muito pelo contrário, como seu concorrente.
Se aquela primeira
anotação é verdadeira, por que os EUA não jogaram uma bomba atômica no Vietnam?
Talvez porque os tempos fossem outros, dadas as consequências nefastas das
primeiras bombas jogadas no Japão e, convenhamos, tanto a China quanto a União
Soviética, partidários do Vietnam, já contavam com seus artefatos nucleares.
24 de Maio de 2010: “The
Guardian, jornal britânico, afirma que Israel teria oferecido, em 1975, a
bomba atômica para a África do Sul”. Israel, através de seu presidente,
logicamente negou, sem nunca afirmar, até hoje, se detém a bomba.
No cenário mais
recente, os EUA vêm defendendo suas intervenções em outros países, sob as
justificativas as mais nobres que se possam imaginar e engendrando métodos de
dissimulação em suas iniciativas.
O rol de desculpas é o
seguinte: 1ª – Defesa da Democracia; 2ª – Defesa do Meio Ambiente; 3ª – Luta
contra o narcotráfico; 4ª – Combate à corrupção; e, last but not least,
5ª – Luta contra o terrorismo. Embora tenha invadido o Iraque sem autorização da
ONU agora, no bombardeio à Líbia, se vê amparado pela mesma ONU e sob o manto
protetor da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
No caso específico da
Líbia a justificativa é conter o massacre do Kadafi à população civil.
Acredita-se que as incursões aéreas da coalizão ocidental também tenham matado
inúmeros civis, embora com a negação peremptória dos seus comandos, o que é, aí
sim, inacreditável.
Guerreia-se para
conseguir a paz, assim como se estupra a virgem para defender sua virgindade. Lá
e cá o objetivo é o petróleo, a garantia de abastecimento. E também destruir
para participar da reconstrução. Um recente pronunciamento do Obama fala
claramente que as ações militares na Líbia são do interesse da América (é assim
que ele se refere ao seu país).
No correr da digitação
acabei escrevendo umas três páginas sobre a hipocrisia das maiores nações do
mundo, capitaneadas pelos ainda poderosos EUA. Depois, não sabem por que o
antiamericanismo medra por todo o mundo!
A visita do
Obama ao Brasil foi um show de propaganda política e pessoal, mas não teve
propostas concretas. Não houve a promessa de acabar com os gravames ao etanol,
ao suco de laranja e ao algodão brasileiro para competir com os mesmos produtos
americanos em seu mercado, não houve um apoio concreto à nossa participação como
membro permanente no Conselho de Segurança da ONU, não houve a queda da
necessidade de visto dos turistas brasileiros àquele país, etc. etc. O grande
objetivo, igualmente, é o nosso petróleo do pré-sal.
Gosto do Obama!
(Contenham-se amigos irreverentes!) Torço por seu sucesso. A despeito de ter
ganho uma eleição, não conta com a maioria republicana do Congresso americano e
tem uma forte oposição de uma parcela significativa da classe média alta daquele
país, os wasp (white/brancos, anglo-saxões e protestantes). Se ele
não está conseguindo implantar a contento suas reformas em seu país, com que
autoridade acena ao prometê-las fora de seu país?
Contou-me um
amigo, recentemente em viagem ao sul dos EUA, que algumas livrarias, ao exporem
em suas prateleiras os livros do Presidente, não expõem as fotos dele belamente
estampadas nas capas. Viram-nos, mostrando as contracapas. Se as livrarias não
fazem isso, alguns frequentadores dessas casas se prontificam a fazê-lo.
Eu que prefiro sempre
escrever ficção, enveredei-me por esses meandros perigosos da política
internacional, sem o mínimo preparo para fazer tais considerações, apenas como
um diletante escrevinhador. Mas, ora direi aos meus leitores, taí uma peça que
pode muito bem ser entendida como um exercício da mais pura ficção. Leiam-na
como desejarem. Trata-se de outro avanço na técnica literária deste conceituado
órgão da mídia alternativa.
John Reed, jornalista
americano e ativista comunista, chamado a discorrer numa reunião sobre os
motivos da eclosão da Primeira Guerra Mundial, levantou-se da cadeira, fez
aquele suspense, e disse, tão somente: “Money”. E sentou-se.
Marlon Brando, no
filme Apocalipse Now do Francis Coppola, que retratou a guerra do
Vietnam, em cena memorável, simplesmente declamava (em inglês naturalmente, a
palavra é a mesma, caprichem na pronúncia e na entonação de pavor): “Horror!
Horror!”
Em tempo: estas
considerações não autorizam ninguém a pensar que o autor seja, de alguma forma,
a favor de ditaduras, aristocracias e teocracias (declaradas ou veladas), nem
tampouco de fundamentalismos religiosos (judaicos, cristãos ou muçulmanos).