ANO IX - Nº. 271, em 20 de fevereiro de
2011.
Crônica de um dia comum
“O DIA DA MINHA
MORTE”
Amanheceu lépido e
fagueiro e pensou vaticinando: “Hoje é o último dia dos meus dias!” “O dia da
minha morte!” Sabia disso do fundo do seu ser, deste que atingira uma idade,
digamos, provecta.
Antes mesmo
do desjejum, sentou-se ao computador e começou a escrever, repetindo o pensamento
do despertar: “Hoje é o último dia dos meus dias!” “O dia da minha morte!” “Ao
final destas linhas vou me recolher e, quando isto se der, sei que não acordarei
jamais.” “Exatamente, como morreu o meu velho tio.” “Eu agora tão mais velho do
que ele!”
Como bom hacker
que sou entrei no PC do nosso cronista. Editar. Selecionar tudo. Copiar.
Colar. A seguir apaguei a seleção. Eis aí o resultado:
Não sofro de nenhuma
enfermidade grave. Só as anormalidades normais de minha idade. Sei lá de onde
vem a certeza de minha morte, só que a vejo inevitável. E é para hoje! Sem
falta!
Essa saúde relativa é a
razão por que não preciso de religiões, nem de ilusões para me apoiar no ocaso
de minha vida. Não acredito em vida depois da morte, muito menos nessa balela da
reencarnação dos espíritos ou da ressurreição dos mortos, como pregam os credos
dos espíritas e dos católicos. Não é possível atrocidade maior aos humanos, além
daquelas que eles sofreram e sofrem ao longo de sua vida, se a eles fosse
obrigatório viver eternamente, seja lá de que maneira for. O fim e o nada são as
únicas formas de salvação humana!
Há poucos dias ao assistir
à entrevista do Ronaldo Fenômeno anunciando sua aposentadoria, compreendi o
momento dele e respeitei-o, mas me senti um tanto surpreso com tamanha tristeza
e tantas lágrimas, depois de uma carreira de tantos sucessos! Desportivos e
financeiros. Lembrei-me da época da minha aposentadoria. Há mais de dez anos não
tenho vínculos profissionais. Que bom que foi isso! Como me senti feliz, livre
de muitas amarras e do fardo de garantir com meu trabalho o meu sustento e o da
minha família. Dei as boas vindas a uma vida sem a necessidade de terapia
ocupacional para “matar o tempo”. Eu aprendi a “viver o tempo”. Gozei e
aproveitei muito bem o tempo ocioso; é assim que o chamam quando não dedicado ao
trabalho profissional. Uma visão utilitária mercantil. E aprendi também que tem
tempo de viver e tempo de morrer.
Pois ainda me restava a
velhice com todas as suas obrigações, deveres e limitações que devem ser
superadas para bem viver o resto de minha vida. Uma vida que, embora agradável,
associo a uma distanásia disfarçada, com as frequentes visitas aos médicos, o
uso contínuo dos remédios e vitaminas, a dieta alimentar que não admite
gorduras, açúcar e álcool e as caminhadas diárias para manter bem funcionando
coração e cérebro e manter o tônus muscular. Não fumo há quarenta anos.
Tome de cardiologista,
urologista, endocrinologista, dermatologista, oftalmologista, dentista,
periodontista e, eventualmente, pneumologista, ortopedista, fisioterapeuta,
protologista, gastroenterologista e otorrinolaringologista. No meio de campo o
clínico geral. Papagaio! Putzgrila! Lembrei-me dessas exclamações antigas de
espanto que ao longo de minha vida utilizei. Sem citar algumas impublicáveis.
A morte, portanto, deve
ser igual, ter as mesmas vantagens de uma aposentadoria. Outra missão cumprida.
Como sempre digo, a morte deve ser ótima. Chato é morrer. Com a minha morte
anunciada, dormindo tranquilamente, vou ultrapassar esse obstáculo verbal e me
consolar com o fim substantivo. Tal fim deve ser muito parecido com o tempo em
que ainda não tinha nascido, nem sequer sido concebido.
Depois dessas
palavras iniciais, nosso herói deixou o computador na espera e tomou um saboroso
café preparado por sua mulher, que ignora completamente o que vai acontecer. Deu
um passeio no calçadão da praia, tomou um pouco de sol, o que há muito tempo não
fazia por medo do câncer de pele. Não obstante, passou um pouquinho de filtro
solar no rosto e nos braços. Hábito adquirido. Como sempre, não deu o prosaico
mergulho no mar porque tem arrepios com a água fria do mar capixaba. Foi até a
peixaria e comprou um belo robalo e temperos. Sua cozinheira fez uma saborosa
moqueca capixaba. Pirão e moqueca de banana da terra. Almoçou sorvendo um
excelente Sauvignon Blanc da Santa Digna, chileno. Escovou os dentes, com todos
os zelosos cuidados que a periodontista recomendara. Leu os dous (sic)
capítulos finais de Helena, romance do Machado de Assis. Quanta coincidência
encerrar a leitura desse livro exatamente hoje! O desfecho da história não o
impressionou e em nada prejudicou a sesta que se seguiu.
À tardinha continuou
a escrever a última crônica de sua vida com a convicção intacta que seria a
derradeira. Como demora muito a preparar um texto, lendo e relendo, consertando
aqui e ali, só vai terminá-lo antes de se deitar. Apesar dessa demora, este foi
um texto que escreveu sem maiores delongas. Geralmente, dedica de cinco a dez
dias para escrever de três a cinco páginas.
Não precisou
municiar a mulher e filhos com comentários suplementares sobre o “dia seguinte”,
pois todos já estavam devidamente orientados sobre o que fazer. Se procederem
como recomendou, tudo bem. Se não, tudo bem também, não estará nem aí!
Ao jantar,
deliciou-se com a moqueca de robalo que sobrara do almoço e, mais do que isso,
com o fim do vinho que restara e descansava na geladeira. Cinicamente, como
fazia sempre após o café da manhã, o almoço e agora ao findar o jantar, tomou os
remédios recomendados. Que bom não precisar comprar nova bateria de tais
medicamentos!
Escovou com atenção
os dentes. Tomou um bom banho. Barbeou-se. Ligou o ar refrigerado. Deu um beijo
na mulher. Desejou-lhe boa noite.
Antes de se recolher
mais uma providência: Salvar Como: O Dia de Minha Morte. Fechar. Sair.
Iniciar: Desligar o Computador. Desativar. Fazendo logoff. O programa
está sendo encerrado...