ANO IX - Nº. 269, em 30 de janeiro de
2011.
Novela
FOLHETIM – IV (Continuação)
O Bar Azul era o
palco dos acontecimentos, o centro gravitacional das férias das três irmãs e do
seu relacionamento com o nativo inzoneiro, maneiroso, simpático, carinhoso e
carente.
Quando o viram
chegar por lá numa noite gloriosa de sexta-feira, as três se abriram em sorrisos
receptivos. A irmã do meio, inteligente e pragmática, pensou: hoje é minha vez.
Não deu outra: bingo.
Tirou-a para dançar.
E ela, antecipando-se ao previsível convite perguntou: quando poderemos fazer o
nosso passeio de barco? Sem pronunciar uma única palavra, seu par ficou atônito,
quando ela depois da pergunta respondeu: aceito. Que tal domingo que vem?
Mas isso é uma
adivinhação ou uma dança despretensiosa? Perguntou João depois de recuperar o
fôlego. Era exatamente isso que eu iria lhe propor. Afinal, além de ser uma
questão de justiça, é um prazer estar com todas e qualquer uma de vocês. Teje
convocada!
O som carioca da
afamada Boite Arpege, transportado para ali naqueles grandes bolachões
de vinil, os embalou num pot-pourri de músicas então em evidência e em
papos que ultrapassaram até as terceiras intenções, já antecipando e pregozando
o passeio marítimo de domingo.
Enquanto isso, as
duas sorriam, deleitando-se com suas exuberantes cuba libres, naqueles altos e
grossos copos de vidro, entulhados de pedras de gelo, com uma rodelinha de limão
a decorar-lhes a borda e a borbulhar bolhas de gás. Sorriam! Riam a bandeiras
despregadas!
Cáspite! Que
expressão mais anacrônica! Homessa! Atenção, senhor narrador, aqui fala o autor:
estamos nos alvores da década de sessenta do século passado e não no século XIX.
Tome tenência!
Afinal,
senhor escritor, isto é ou não é um folhetim? Aloô!
No domingo cedinho,
o barco tomou outro rumo. Em vez de sair para o mar aberto, voltou-se para as
profundezas do canal interior. Nesse passeio descortinaram panoramas colossais:
manguezais com suas vegetações suspensas em raízes aéreas, caranguejos em
profusão nas caminhadas do acasalamento, lagoas serenas e imensas qual lagos
alpinos ou andinos, e um pano de fundo que mais parecia um cenário de ópera, com
os picos da Serra do Mar ao longe, mas aparentemente tão próximos que quase se
poderiam tocá-los com as mãos. Um espetáculo paradisíaco e diria mesmo
afrodisíaco, duas expressões que a tradição religiosa tornou antagônicas, mas
não há nada mais compatível do que elas entre si.
Foi no centro de
todo esse esplendor que ocorreram as já conhecidas reticências pudicas, tão
esclarecedoras quanto encobertadoras. O inevitável aconteceu, como se dizia nos
folhetins de antanho.
À noitinha ainda
tiveram fôlego para dançar no Bar Azul. Antes passaram pelo casebre do João
Batista convidando-o para acompanhá-las. Nessa noite dançou com todas e todos
tomaram a sua dose de cuba libre. Com exceção da refinada escolha do João que
preferiu a novidade do pedaço, um hi-fi (vodka com Crush).
Na volta pra casa,
conversaram amenidades, cansados pelos dias exaustivos por que vinham passando,
plenos de felicidades e cheios de entusiasmo. Foi quando, ao entrar em casa, a
mais velha, num lampejo de felicidade, pronunciou sem querer, retirada nos
guardados da memória, numa espécie de ato falho, uma exortação que remontava à
formação religiosa delas, quando ainda cursavam o internato das irmãs de
caridade: “O Senhor fez em nós maravilhas!”.
Esboçaram leves
sorrisos irônicos que só não se transformaram em sonoras gargalhadas porque a
cuba libre não fora por si só suficiente para diluir todo o superego das
pobrezinhas meninas, agora tão ricas e plenas de vida.
E a vida continuou
no próximo capítulo.
CONTINUA