ANO IX - Nº. 268, em 25 de janeiro de
2011.
Novela
FOLHETIM – III (Continuação)
Medrava no interior
do pequeno grupo das irmãs uma ebulição passível de erupção a qualquer momento,
enquanto a sensação de felicidade da mais nova instigava declarações e atitudes
de reprovação e ouso dizer, de inveja nas outras. O magma estava em revolução.
Por insistência da
caçula continuavam a frequentar o Bar Azul. Quando o João estava em terra,
aparecia invariavelmente por ali. Naquela noite, antes de pedir licença e
sentar-se à mesa, como seria de se esperar, tirou a mais velha para dançar. Esta
acedeu e, já na pista, se postou à frente dele colocando o braço direito em
posição de defesa, com sua mão apoiada no seu ombro, o que impedia uma
aproximação corporal maior. João, delicadamente e com muito humor, disse-lhe que
assim não se dança. Assim se luta. Vou lhe ensinar uns passos apropriados para
este samba sincopado e, para tal, a primeira coisa que se faz necessário é se
soltar, deixar o som lhe levar e se esquecer do seu par. É assim meio puladinho.
Deu um sorriso no que foi amplamente retribuído com outro, de certa forma,
envergonhado.
Impressionante com
que delicadeza e tato ele falou direto quebrando o gelo que ela trouxera para o
salão.
Passados uns minutos
continuou o diálogo: que tal lhe convidar para fazer um passeio de barco pelas
proximidades da cidade? Se sua irmã gostou tanto acredito que você, ou vocês,
vão também gostar. Só que tem de ser uma de cada vez por questões de segurança.
Sou extremamente responsável quando lido com o mar. Eu o conheço bem.
Sem titubear, para
não ficar atrás da irmã, aceitou o convite. Voltando para a mesa ele pediu
licença para se ausentar um pouco, não monopolizando assim o ambiente,
prometendo encontrá-las mais tarde para acompanhá-las até a casa. A conversa
entre as três e o consumo de algumas Cocas-Cola transcorreu calma com
considerações sobre os pares dançantes e as pessoas presentes. Fofocas
femininas.
Intempestivamente, a
mais velha pediu ao garçom uma cuba libre. Aos olhares espantados das demais,
fez-se de surpresa pela surpresa causada nelas. Intuitivamente ela sabia que o
superego se dilui em álcool, antevendo o que Erica Jong iria consagrar mais
tarde, uns dez anos aproximadamente mais à frente daquele seu tempo, no livro
famoso Medo de Voar.
No domingo seguinte
quem acordou cedinho e foi para a beira do cais foi a primogênita, as duas
seguiram carrancudas e solidárias para o banho de mar.
Depois de passar
pelo morro da prisão, margearam as praias principais do centro da cidade, não
sendo notadas pelas duas na da Areia Preta, pela simples razão que elas ainda
não tinham chegado lá. Rumaram na direção de Anchieta, passando pela Enseada
Azul, Guaibura, Peracanga, Bacutia e Meaípe. Ancoraram numa prainha deserta
afastada duma pequena colônia de pescadores. A praia era a hoje conhecidíssima
Ubu. Ali morrera o Padre Anchieta, contou João: aba ubu, aqui o pai
caiu, numa de suas constantes caminhadas da vila de Benevente (que
atualmente leva o seu nome) para o Colégio dos Jesuítas e a Igreja de São Tiago,
ambos reformados e transformados na sede do governo estadual (hoje Palácio
Anchieta).
Banho de mar com
muita conversa e um problema numa das alças que sustentavam o maiô nos ombros da
moça. Estamos no início dos anos sessenta quando o biquíni ainda não existia em
praias capixabas. Ela se desprendera da parte traseira da roupa de banho. Não
houve solução, o jeito foi deixá-lo sem conserto, pois não havia linha nem
agulha. Com espírito de escoteiro, João amarrou a alça de um dos lados na do
outro lado acentuando assim o decote e deixando desprotegida uma boa parte de um
dos seios, propiciando uma boa visão periférica do espírito “sempre alerta”.
O papo foi animado
versando sobre assuntos amorosos de ambos. Rosto a corar e descorar à medida que
ela discorria sobre as proibições que lhes foram impostas às coisas do sexo, na
provinciana cidadezinha do interior, lídima representante da Tradicional Família
Mineira. Era o próprio paraíso antes da serpente, isto é, permanentemente
monitorado pelo pai todo poderoso e por seus Anjos da Guarda.
Algumas vezes João
passou-lhe as mãos nas faces e na base do pescoço, molhando-a com água do mar
para esfriar o calor que essa conversa provocava.
Na volta ao barco,
ao ajudar sua companheira a subir a bordo, dando-lhe a mão e puxando-a sobre a
beirada do barco, o nó da alça se desprendeu e a visão gloriosa de um seio nu
sendo projetado para fora do maiô se deu como por milagre. Com as mãos ocupadas
foi difícil contornar o acontecido.
Abraçada nela para
trazê-la para o interior da embarcação e proteger sua nudez com seu próprio
corpo, dali prontamente se refugiaram e se acomodaram na pequena cabine ao lado
do motor já resfriado, que se transformou num original dossel de amor e...
O dia terminou com
sanduíches trazidos de casa com refresco de perinho, novos pulos ao mar e... Ah!
As reticências recorrentes!
Ora direis ler
reticências! Se ler nas entrelinhas já é complicado imaginem ler reticências.
Mas se pra bom entendedor o pingo do i já quer dizer algo imagine três
pinguinhos, três pontinhos assim tão sensualmente aconchegantes!
Naquele dia não
houve baile, não houve Bar Azul, todos foram dormir cedo. João ia acordar de
madrugada para pescar. As meninas, embora fossem para cama, só conciliaram o
sono já avançada a noite, num silêncio retumbante das mentes em polvorosa num
misto de culpa, felicidade, inveja e ciúme.
CONTINUA