ANO IX - Nº. 266, em 15 de janeiro de
2011.
Novela
FOLHETIM – I
“Três mocinhas
elegantes: cobra, jacaré e elefante”. Era assim que se dizia, algumas décadas
atrás, quando se encontravam três mulheres, moças ou meninas andando juntas pela
cidade. Foi assim que elas ficaram sendo conhecidas, in pectore, por João
Batista, o jovem pescador, quando passavam em frente à sua humilde casa de
adobe, coberta de sapé, dirigindo-se à Praia da Areia Preta, em Guarapari, a
bucólica cidade saúde do início dos anos sessenta. Do século passado, por
suposto.
Elas eram naturais
de uma cidade interiorana do leste mineiro. Desceram juntas das alterosas pelo
trem da Estrada de Ferro Vitória a Minas e moravam sempre unidas em Vitória, há
um bom tempo, onde completaram seus estudos e trabalhavam. Foi a primeira vez
que passaram férias no balneário, sempre o faziam em sua terra natal, visitando
a família. Alugaram para a temporada uma casa pequenina, de madeira, na verdade
uma espécie de palafita pintada de verde, no meio de um terreno cercado com
arame farpado, logo depois do Radium Hotel, pouco além dos limites do que era
então o centro urbano de Guarapari. Do outro lado da rua morava o pescador
nativo.
Ele
permanecia no mesmo barraco em que vivera com sua mãe, que falecera ainda jovem.
Filho único de mãe solteira, ela lutou muito para cuidar dele e propiciar-lhe
educação básica. Trabalhava como lavadeira e não tinha tempo para dar-lhe todo o
carinho que o filho, em formação, exigia. Desde molecote vendia pirulitos nas
praias, depois fazia biscates no mercado municipal de peixes e mais tarde, ao
ganhar corpo, começou a trabalhar como pescador navegando em precárias
embarcações a pastorear aqueles mares imensos ao longo da bela costa capixaba.
Da barra do Jucu à foz do rio Itapemirim.
Ruas sem calçamento,
constantes faltas de luz e de água marcavam o dia a dia da cidadezinha. Mais: o
som insistente daquele toc-toc-toc que se ouvia pelas ruelas do vilarejo,
produzido pelos tamancos de madeira, adquiridos logo após desembarcarem do velho
ônibus. As sandálias de dedo só foram aparecer bem mais tarde. Ao cair da noite
trocavam por uns sapatinhos baixos para fazer o footing até a rua
principal, da pracinha ao Bar Azul, ver os casais dançarem e, eventualmente,
participar do baile, invariavelmente sob o som de Waldir Calmon e seu conjunto.
A mudança para
Vitória já fora um grande passo no processo de libertação dessas jovens filhas
de um pai possessivo, violento, ignorante e grosso. Extremamente machista. E de
mãe passiva, submissa, de religiosidade obscurantista. Nessa época, as idades
das meninas iam de trinta a quarenta anos. A mais nova se formara em
Letras e já dava aulas na Faculdade de Filosofia. A mais velha cuidava da casa e
das irmãs. A do meio trabalhava num banco mineiro como escriturária. Todas
continuavam solteiras e acredito que virgens, pois nunca as vi com namorados.
Embora tivessem saído da casa paterna, ainda se sentiam vivendo sob a vigilância
do pai todo poderoso, como se ele fosse onisciente, onipresente e onipotente.
Eram bonitas,
simples, simpáticas, inteligentes, agradáveis, embora sem aquele esplendor
feminino, porque lhes faltava o viço que as mulheres só têm em plena juventude,
quando apaixonadas (por alguém ou por uma causa), bem-amadas ou grávidas. A
primeira impressão que o conjunto passava era a de mulheres atraentes,
independentemente da diferença das idades. O benefício da relativa pouca idade
da caçula era compensado pelo ar de experiência e de maturidade das demais.
Contudo me pareciam um tanto aflitas, não apascentadas, o que podia
constituir-se até num chamariz aos homens de boa vontade.
João Batista era um
jovem na plenitude dos seus vinte e poucos anos, bonito, altura mediana, de pele
curtida pelo sol tropical e temperada pelo sal da maresia que flanava pelo ar.
Saúde pra dar e vender, construída ao longo do tempo pelo consumo da boa água
local, muito ômega três encontrado nas sardas, que se constituíam na sua
principal alimentação, bem como da muita energia advinda da alta radioatividade
local. Nadava longas distâncias e muito bem.
Num cair da tarde
vestiu a sua roupa mais bonita, calças compridas como exigia o figurino da época
quando ainda não existiam essas vistosas bermudas, seguiu as moças, logo que
passaram pela frente de sua casa, caminhando na marola deixada pelo mirabolante
andar bamboleante das três, rumo à pracinha e depois ao Bar Azul.
Elas ocupavam uma
mesa retirada da pista de dança. Ele já fora notado pela insistência de seu
olhar. Num ímpeto dirigiu-se até elas e tirou a mais moça para dançar. Ela,
recatada, tomou-lhe a frente na direção da pista. Dançava muito bem o par
improvisado. A conversa rolou num papo agradável, voz suave, o cavalheiro sabia
como se comportar como tal diante da dama.
Disse tê-las visto
no caminho do mar, informou que eram vizinhos, e, desde já se prontificou, se
fosse do desejo dela e das irmãs, a acompanhá-las quando voltassem. Lá para
nossos lados a iluminação é precária, as lâmpadas dos postes geralmente estão
queimadas ou quebradas, tudo é muito escuro. Era comum encontrar animais
pastando por ali na calada e no breu da noite. Ou, quem sabe, coisa pior: um
ladrão, um tarado, uma assombração do outro mundo. Disse isso, brincando, com
voz cavernosa, para valorizar a oferta de sua companhia. Vou consultar minhas
irmãs.
Ele ainda voltou à
mesa delas e novamente tirou a mesma moça para dançar, renovando sua oferta de
acompanhá-las ao final do baile, que nunca terminava tarde. Afinal, teria que
partir para o mar bem cedinho, antes que o sol despontasse.
E assim terminou a
noite com uma bela caminhada dos quatro até a porta da casinha de madeira.
Conversaram sobre seu trabalho, as aventuras no mar, os perigos que por vezes
enfrentara. Apresentou-lhes o casebre onde morava. Boa noite. Até mais ver.
Não foram sonos
tranqüilos. Cada uma das moças teve um sonho diferente, indo do romântico ao
perturbado por quaisquer preocupações subjacentes nas mentes das mais velhas. Ou
certa inveja inconsciente da parte delas. João Batista viveu um sonho erótico,
nada demais, uma dança mais ousada, mais apertadinha, de rosto colado, com o seu
par daquela noite.
CONTINUA