ANO IX - Nº. 263, em 10 de dezembro de
2010.
Crônicas
O HAITI É AQUI
O Caetano
Veloso assim profetizou em uma de suas músicas. Faz algum tempo. Agora se
concretiza sua premonição, com o anúncio da instauração de uma Força de Paz do
Exército Brasileiro, igual à que funciona naquele país, para organizar a vida
nas favelas do Complexo do Alemão depois do enfrentamento com os traficantes.
Nada contra a
invasão nas favelas do Complexo do Alemão pelas forças da Polícia Militar, da
Polícia Civil, da Polícia Federal, da Marinha e do Exército. Tudo de acordo com
a lei, sem grandes baixas, sem abusos. Lamento a fuga dos chefes do tráfico (é o
caso de continuar no encalço deles) e as denúncias feitas por populares contra
policiais (o que deve ser exemplarmente apurado e julgado).
Também, nesta
oportunidade, não farei nenhum comentário sobre as causas da situação caótica em
nossas favelas, para o que teria de esgrimir razões de ordem histórica, política
e econômica. Vamos passar sobre isso, nesta crônica ligeira dos dias que correm
céleres.
Quando eu comparo
aquelas favelas com o Haiti, faço-o por força da comparação com a música aludida
e pela pobreza que reina em tais localidades, como de resto em todas as
periferias urbanas brasileiras e, com certeza, latino-americanas, só para ficar
neste hemisfério, sem cruzar os mares sempre hoje navegados.
Com a entrada dos
militares e da imprensa na Vila Cruzeiro e na Favela do Alemão, lembrei-me
nitidamente da leitura dos Sertões, na parte em que reporta a tomada de Canudos,
com a invasão e a vitória das forças do governo, naquele reduto miserável, sobre
aquela população paupérrima.
Não restam
dúvidas de que lá na Bahia, naquele tempo, a coisa era mais miserável. Os
barracos foram invadidos e incendiados, grande parte dos seguidores do
Conselheiro foi morta. Como da mesma forma, sofreram baixas terríveis os
militares que os combatiam, principalmente em batalhas preliminares. Os
derrotados naquele reduto estavam em completa petição de miséria, cadavéricos,
famélicos, em condições subumanas. Não foi isso o que aconteceu no Rio. Mesmo
porque, lá, se tratava de um bando de místicos religiosos não de traficantes de
drogas, como aqui.
Mas as
imagens feitas pela tevê, ao percorrerem aquelas vielas estreitas, entrarem em
algumas casas, me remeteram imediatamente ao relato brilhante do Euclides da
Cunha. Enfim, ficou em mim o complexo (psicológico) de Canudos.
Com a
filmagem dos barracos nas favelas, ficaram transparentes as condições de vida
daquela população, as agruras do seu viver. É tudo muito ruim! E como eles
deveriam sofrer sob a ditadura dos marginais! A liberdade desse autoritarismo
foi muito significativa para aquela população.
O me
interessa agora é “o dia seguinte”. Como ficam as coisas? O enfrentamento foi
fundamental. Mas que não se limite a ele.
Isso lembra
também Canudos. Até os combatentes governamentais, ao voltarem para a capital do
país, foram os primeiros moradores das favelas no Rio de Janeiro, no morro da
Providência, a habitarem barracos cobertos de zinco e forrados de folhas de
latas. Também eles, os combatentes, foram jogados às traças. A propósito, o nome
“favela” surgiu aí, quando o sol, reluzindo nas folhas de flandres, recordava um
mato que grassava no sertão baiano, de nome favela, ao refletir a luz solar do
alvorecer nas gotículas de orvalho guardadas em suas folhas.
E agora José?
O que resta fazer para salvar as favelas de todas as periferias urbanas
brasileiras, da miséria e do tráfico de drogas? Eu não tenho a solução. Acho
dificílima a eliminação da miséria e, principalmente, o fim do tráfico das
drogas. Uma atuação vigorosa sobre a primeira deve refletir positivamente sobre
a segunda chaga.
O governo que
ora finda fez muito pela parte pobre deste país, pessoas e regiões. Falta ainda
muito a fazer. Além das medidas assistencialistas, como a extensão da Bolsa
Família, criação de quotas, outros sucessos se deram: aumento real do salário
mínimo, aumento do poder aquisitivo das classes mais baixas, criação de emprego
formal, “minha casa minha vida”, “luz do campo”, o Pronaf (crédito para
agricultura familiar) e outros programas. Os resultados da recente eleição
mostraram a aprovação dessas iniciativas. Agora, precisamos reverter a situação
mostrada pela imprensa nesses bolsões de miséria que são muitos espalhados pelo
país.
Não vai ser
fácil. O compromisso eleitoral da presidente eleita em erradicar a miséria é um
projeto de proporções faraônicas. Mas há que se tentar. Somente assim se resolve
a situação das várias ilhas haitianas insuladas em nosso vasto território.
Uma coisa é
certa e sobejamente conhecida: as Forças Armadas, tão elogiadas nas ações de
enfrentamento, não são talhadas para desempenhar este papel de pacificador das
favelas, muito especialmente o de polícia numa comunidade. Dois argumentos
provam isso: um soldado ganha menos que um policial, a metade do que ganham os
componentes da Força de Paz no Haiti; e mais: têm família e endereços passíveis
de serem conhecidos, possivelmente até em áreas periféricas, tornando-se alvo
fácil para os traficantes e para a corrupção.
DESCOBRIRAM
VIDA NO PLANETA... TERRA.
Anunciou-se, de
forma bombástica, uma descoberta científica, que levaria a admitir que pudesse
existir vida em outros corpos do Universo além da existente na Terra. Teve gente
pensando que teriam sido feitos contatos imediatos do primeiro grau ou, seja lá,
do enésimo grau, com extraterrenos.
Nada disso:
descobriu-se uma nova forma de vida aqui mesmo, na Terra. Não resta a menor
dúvida de que isso foi uma grande descoberta e que a procura por vida em outros
planetas (uma obsessão humana) possa ser feita dentro de outros padrões,
diferentes daqueles que supúnhamos ser exclusivos para a existência da vida.
Depois da ansiedade
em saber o que teria sido descoberto veio a frustração. O que me irritou foi o
modo como anunciaram a descoberta, antes de esclarecê-la. Deu-se ênfase à vida
fora da Terra, o que pode vir a acontecer, no futuro. Mas a descoberta se dera
aqui no nosso planetinha.
A vida no Universo,
em minha opinião leiga, é uma ocorrência sem maior expressão no Cosmos, podendo
mesmo ser considerada como uma doença fatal no caso do nosso planeta. Mais: a
Natureza e o Universo estão pouco se lixando para ela. A vida pode ser
importante só sob o prisma antropomórfico. Mesmo assim: “A vida é uma doença
letal, transmitida sexualmente” (não sei de quem é essa frase genial).
Mot de la fin:
Existe vida no Haiti.
Existe vida no arsênio.
Existe vida no Alemão.
Existe vida na Terra.
Existe vida em outros planetas?
Canudos vive.
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