ANO IX - Nº. 262, em 30 de novembro de
2010.
Crônica
FÉ E CRENDICE
Uma coisa me
intriga: a suposta ajuda divina, sempre alegada quando alguém se safa de um
sério acidente: “Só pode ter sido um milagre!”; uma providencial intervenção de
Deus ou a intercessão de algum santo poderoso. Por vezes trata-se de um acidente
aéreo ou rodoviário, desmoronamento, desabamento ou coisa parecida, de grandes
proporções, onde perecem várias pessoas. As que admitem terem sido contempladas
por um milagre, de certa forma, ignoram a magnitude do acidente em si. Se alguma
força poderosa, sobrenatural, tivesse o efeito de salvá-las, poderia também
evitar o funesto acidente e salvar a todos. A escolha das poucas pessoas que se
salvam, ou de somente uma (no caso um verdadeiro sweepstake!), seria uma
refinada demonstração da imparcialidade divina. Sejam lá por que razões, esse
sortudo seria então o único privilegiado protegido por Deus?
Não encontro
explicações razoáveis (acredito que essa palavra tem parentesco com racional)
para tal fenômeno. Se não encontro tais explicações no campo da razão é porque
não têm mesmo. Elas se situam em outra esfera da mente humana: a da fé e a da
credulidade. Diga-se de passagem, eu não sou daqueles que acreditam que somente
a razão seja a base de todo o raciocínio e do conhecimento humanos, nem tampouco
da vida humana.
Uma frase de efeito
que eu gostava de esgrimir antigamente era: “A razão é a imperfeição da
inteligência; a intuição, a sua plenitude”. São recordações de minha fase
idealista da qual Tomás de Aquino, o autor, nunca saiu. Dada a sua reconhecida
fama de grande pensador, eu me recolho à minha pequenez, da qual eu faço uma
força danada para sair.
Chegou a ser
hilária a entrevista de uma senhora que fora atingida na cabeça por uma estátua
de um anjo que despencou de seu pedestal enquanto assistia a uma missa no
Convento da Penha, aqui em Vila Velha. A coitada ficou em coma por um bom tempo
e, ao se recuperar, entrevistada por um telejornal local, creditava a Nossa
Senhora a sua recuperação, esquecendo-se completamente de que a santa, se fosse
mesmo a responsável pelo milagre poderia ter evitado o desastre.
Tanto o argumento
de que os acidentes poderiam ser evitados com a intervenção divina, quanto a
suposta ocorrência de um milagre na recuperação dos acidentados não têm nenhuma
sustentação.
A base do
raciocínio do “eleito” talvez esteja na concepção primitiva do “Senhor Deus dos
exércitos”. Isso consta de um dos salmos da Bíblia. Até pouco tempo, quando eu
frequentava a igreja, essa saudação fazia parte de uma fala nas missas
católicas. Deveria ser assim que os cristãos compreendiam Deus, nos primórdios,
por exemplo, ou nos tempos das Cruzadas.
Trata-se do mesmo
Deus dos jogadores de futebol quando apontam para o céu em agradecimento ao
“Senhor Deus do meu time” ou a seu personnal protector quanto têm a sorte
ou a competência de marcar um gol.
Uma variante dessa
questão, da ocorrência do infausto acontecimento e a sua superação, foi o que
aconteceu comigo e que me apresso a contar, impregnado de um viés ficcional.
Pois bem,
uma velha amiga de família, a Francisca, maranhense de boa cepa, médium,
vidente, curandeira e benzedeira, quando atendi a um telefonema dela para minha
mulher, observou que a minha voz estava um tanto vacilante e me disse que tinha
pensado muito em mim e achava que eu estava sendo acometido por uma doença
grave. Faz sentido, depois que se passa dos setenta. Essas imaginações fazem
todo sentido e, na maioria das vezes têm procedência dada a alta probabilidade
de acerto.
Francis conviveu
conosco muito tempo enquanto morávamos no Rio, trabalhava como manicura num
salão de beleza próximo à nossa casa e estávamos em contato permanente. Ela
atendia minha mulher também em domicílio e daí vem a nossa amizade. Muito boa
gente, dadivosa, piedosa, ingênua, crédula ao extremo, era chegada a premonições
e premeditações. Conhecemos a sua mãe velhinha, com quem morava e fomos
padrinhos de sua única filha, produto de um casamento de curta duração.
Com a morte da mãe
e na tentativa de ter um lugar mais calmo para educar nossa afilhada, voltou
para o Maranhão. Lá continuou sendo manicura e exercendo sua atividade de
vidente e benzedeira muito procurada. Já estivemos por lá, numa pacata
cidadezinha próxima à capital, quando da primeira comunhão da menina e sempre
estamos a trocar notícias dos filhos e, agora, dos nossos netos.
Mas eis que ela nos
liga, eu a atendo e vem aquele papo de que “estou sentindo que você não está
bem, está precisando de umas orações, a mediação de bons espíritos, para se
safar desse mal, sei lá qual, mas parece coisa da pesada”.
Fiquei muito fulo
da vida! E comecei a me esmerar nas caminhadas, na alimentação frugal e coisa e
tal, para não lhe dar razão. Preocupei-me seriamente em não acontecer alguma
coisa comigo, ou a Francis viria a cantar de clarividente e aumentar ainda mais
a sua credibilidade no pequeno círculo de crentes espirituosos que lhe
fazem a corte.
É assim que
funcionam muitos desses fenômenos sobrenaturais, por força da sugestão em que as
pessoas embarcam de cabeça. É por isso que acredito piamente em milagres, são
produtos tão somente de autossugestões que, poderosas, curam doenças as mais
malignas que possam aparecer por aí. A fé, como dizem, chega até a remover
montanhas, não é mesmo?
Como sofri durante
esse período com a guerra íntima para não me deixar capitular às suas profecias,
numa espécie de autossugestão negativa e tentar não sucumbir ao que preconizava
Francis, para contestá-la!
Esses videntes e
curandeiros se valem dessas filigranas mentais e do medo dos pobres mortais para
exercerem “os seus poderes”. Ao encontrarem uma pessoa fragilizada assumem seu
comando. Podem tanto afogar o coitado quanto salvá-lo do afogamento, ou mesmo
afogar para logo depois salvá-lo. Isso para só falar nos também ingênuos
videntes e curandeiros, não me refiro ao mundaréu de picaretas que existem por
aí.
A Francis, em outra
oportunidade, chegou até a cogitar que nossa nova casa, logo após nossa
transferência para Vila Velha, estava sendo habitada por um espírito de um
vizinho que fora assassinado e que ainda vagava por aqui no nosso plano. Com
alguns trabalhinhos ela nos livrou dele. Isso lá do Maranhão, sem conhecer nada
por aqui. Que bom!
Passados uns bons
meses, num de seus telefonemas para minha mulher, eu tomei do telefone e
perguntei: e a minha doença, como é que tá? Estou me sentindo superbem.
Ela deu uma
risadinha bisonha credenciando-se como responsável pela minha recuperação. Você
está plenamente curado meu filho. Com a pronta ajuda de um médico espiritual,
você está salvo.
Pois é: ela criou a
falsa doença e levou-me à sua total superação.
Um verdadeiro
milagre!
Sugestão de releitura:
Jornalego n° 253: Fé e Razão