ANO IX - Nº. 261, em 15 de novembro de
2010.
Versos Imundos
REFLEXÕES AO
ESPELHO
Quando este povim chinfrim,
Essa gente botocuda,
Compreenderá, entenderá,
Atinará, escolherá
O melhor caminho
Para nossa mãe gentil
Pátria amada Brasil?
Massa inculta, ignorante,
Analfabeta, escória,
Canalha, gentalha,
Que nem sabe o que quer.
Gentinha colorida,
Longe das civilizações
Ricas e cultas do norte,
De nossos avôs imigrantes,
A que tanto invejamos.
A que tanto visitamos.
A que tanto imitamos.
Num mutirão de civilidade,
Precisamos nos envolver
Ensinar a essa gente
Que nem gente parece.
A pensar, a votar, a escolher seus líderes.
Dizer-lhes o que devem almejar.
E por esse ideal lutar, trabalhar, votar,
Com denodo, com espírito altaneiro,
Fé no futuro e na graça divina.
Trabalha e Confia!
Ordem e Progresso!
In God we
trust!
Ou em nossa tradução numerária:
Deus seja louvado!
Mostrar-lhes o país do nosso idealismo
E da nossa ideologia.
Contradizendo Buñuel, somos nós,
Da elite, pessoas do bem,
Que alcançaremos o paraíso,
Onde resplandece a Verdade
Que temos a obrigação de pregar.
De propagar. De difundir.
Pelos rincões do Brasil profundo,
Pelos longes desta América baixa,
Impedindo o acesso de usurpadores
Autóctones ou alienistas
À senda do bem.
E o seu contato infecto-contagioso.
Homens e mulheres honrados,
Sabemos que Brutus,
No discurso do bardo,
Também honrado era!
Tão honrado como eu.
Que, num espasmo de espanto,
Mira a cara no espelho
E exclama:
Até tu tatu!