ANO IX - Nº. 259, em 20 de setembro de
2010.
Resenha Literária
COETZEE
Um dos romances mais
interessantes que li foi Vida e Época de Michael K., do prêmio Nobel de
Literatura de 2003, J. M. Coetzee. O personagem que dá nome ao livro é um pária
da sociedade sul-africana, do tempo do apartheid. Negro, pobre, fraco,
doente, vivendo com a mãe moribunda que em pouco tempo se finda. Depois, começa
a sua sina solo. Fugindo de todos. Quanto mais se refugia, quanto mais se
apequena e assume a sua miséria e a sua insignificância social, mais é
perseguido pelas autoridades constituídas, preso, maltratado, simplesmente por
nada ser. Uma pessoa abjeta, um objeto sem valor, um verme, um lixo. Trata-se do
mais marcante personagem literário que encontrei na minha vida de leitor.
Recentemente, por
acaso, visitando uma livraria (coisa que eu venho tentando evitar porque
inevitavelmente compro algo) caiu-me nas mãos um livro de bolso, fininho,
intitulado Infância, do mesmo autor. Fui seduzido pelo tema; lembrei-me
da novela do Graciliano Ramos de mesmo nome e de Miguelim do Guimarães
Rosa. Comprei-o incontinenti. Baratinho. Lendo os comentários na orelha observei
que era o primeiro volume de uma trilogia: uma autobiografia do autor. Daí para
adquirir o segundo e o terceiro, Juventude e Verão,
respectivamente, foi um estalar de dedos. Interessante, diferente, é a abordagem
de sua vida madura no último livro da série. Coetzee não é mais o narrador. Quem
desempenha esse papel é um biógrafo, já que ele, o autor, Coetzee morrera
ficcionalmente, é claro. Interessantíssimo: uma autobiografia feita através de
uma biografia, por sua vez constituída de cinco entrevistas com pessoas que
haviam convivido com o escritor, sendo quatro mulheres. Mais algumas anotações
do autor biografado compõem o livro.
Ao encomendar os
últimos livros num sebo virtual, pedi também Desonra, listado entre os
cem livros mais importantes da literatura mundial num determinado levantamento.
Coetzee nasceu na
África do Sul, em 1940. Segundo a trilogia autobiográfica, morou em Londres, nos
Estados Unidos e voltou para a Cidade do Cabo. Atualmente ele mora na
Austrália.
Embora a história,
na trilogia, tenha laivos de ficção, conta verdadeiramente a sua vida. Ele
sempre foi um cara tímido, introspectivo, sem amigos e sem muito tato com as
mulheres. Por outro lado, uma pessoa sensível, inteligente e muito empenhado em
ser escritor, em viver para e da literatura. Ele é uma pessoa tão fechada que,
convidado à Feira Internacional do Livro de Paraty (Flip) do ano passado, ao
participar de uma mesa redonda, abriu um de seus livros e simplesmente fez a
leitura de um pequeno trecho, sem interagir com ninguém.
O seu Desonra
cobre um amplo leque de situações humanas: o instinto sexual, o amor, a luta
pela sobrevivência, a violência, a política universitária, o homossexualismo, o
racismo, a convivência dos pais com os filhos, o relacionamento com os animais,
tendo como pano de fundo a situação política da África do Sul, ainda no tempo do
apartheid. Retrata a ebulição latente da população para desvencilhar-se
desse mal, com uma sutileza genial, pois não trata diretamente da situação
política nacional. Tudo é feito a partir das relações humanas entre os
personagens.
Para quem gosta de
literatura, moderna e laureada, receito Coetzee nesses cinco invólucros aqui
citados. Tome-os sem moderação!
Sugestão de releitura: A fábula
O DEUS DOS ANIMAIS, clicando no número 222 na relação à esquerda desta página.