ANO IX - Nº. 257, em 30 de agosto de
2010.
Crônica
O CANDIDATO
IDEAL
Em época de eleição, quando
analisamos os candidatos para escolher quem exerceria melhor os mandatos,
permiti-me escrever este texto, com algumas memórias do passado e outras
especulações sobre o futuro.
Há treze anos, quando retornei a
Vitória, a Agência de Desenvolvimento do Estado, recentemente criada, onde
prestei meus serviços ao governo estadual, tinha um discurso maravilhoso, que
não se tornou realidade tão rapidamente quanto desejávamos. Seja pelo
relativamente pouco poder político e econômico do nosso Estado, seja talvez
pelos projetos que não estavam ainda devidamente maduros.
O tempo fez amadurecer e
realizar os principais projetos da nossa pauta. O tempo é o grande realizador
das ideias, embora possa também servir à destruição. Fixemo-nos nas realizações.
Por exemplo: o gasoduto Cabiúnas
(RJ) – Vitória. Ao argumentarmos a favor dessa obra, tínhamos como trunfo que
ela seria importante na interligação da rede de gasodutos do Nordeste do país
com a do Sul-Sudeste. Só faltava ligar a região de Salvador, na Bahia, com o
norte fluminense. Eu, particularmente, temia que essa ligação passasse ao largo
do Espírito Santo, entrando e saindo por Minas Gerais. Pois bem, o sonho está
realizado: o grande gasoduto que une todo o litoral brasileiro, do Ceará ao Rio
Grande do Sul, atravessa de norte a sul o nosso Estado, devidamente concluído.
Logicamente, as grandes descobertas no mar capixaba fizeram com que isso se
viabilizasse. Acho mesmo que o gasoduto, que foi pensado inicialmente para
trazer gás do norte fluminense para cá, vai funcionar com a mão trocada,
prioritariamente, levando gás do Espírito Santo para outras plagas,
especialmente para São Paulo, o maior mercado nacional, aliviando assim o risco
de uma eventual falta do gás boliviano. Certa vez escrevi um texto que se
intitulava: “O Espírito Santo vai virar Bolívia”. Se não virou, ainda vai
virar!
A termelétrica do norte
capixaba, um dos nossos projetos, também vai sair. Não só ela, mas outras que
estão sendo planejadas. Naquele tempo, nem a Vale nem a Escelsa se interessaram
muito em colocar o seu rico dinheirinho nessa parceria, empreendimento que tanto
diminuiria a grande dependência do Estado da energia elétrica importada.
A Companhia Estadual de Gás,
outro projeto de nossa pauta, visando criar uma empresa capixaba, ainda não
saiu, já que encontrou alguns obstáculos pelo caminho. Mas, meno male, a
Petrobras Distribuidora cumpre bem o seu papel de concessionária nessa
atividade, com sua rede de distribuição já chegando ao sul, entrando até no
espaço urbano de Cachoeiro de Itapemirim. Até nessa não realização,
possivelmente o tempo tenha atuado sabiamente.
Tá tudo acontecendo, natura
non facit saltus. Bastou certa paciência e uma dose de sorte. De lá para cá
foram feitas novas descobertas de óleo e gás e, principalmente, a camada do
pré-sal.
Existem outras estrepolias,
fora da seara até aqui abordada, que o tempo já resolveu ou vai resolver.
Lembram-se da famosa discussão sobre o divórcio no Brasil, que notabilizou o seu
defensor, o deputado e senador Nelson Carneiro? Nem a tradicional oposição da
poderosa Igreja Católica conseguiu segurar a correnteza. O parlamentar deve ter
sido excomungado várias vezes. Recentemente o estatuto do divórcio foi
melhorado, propiciando o novo casamento sem maiores delongas. Ninguém se espanta
mais.
Agora, será que alguém tem
alguma dúvida quanto à realização, oportunamente, dos pontos a seguir
arrolados?
Há um outro ponto do qual eu não
me atrevo a prever a concretização nem tampouco tenho opinião a respeito. Mas
nada me impede de pensar sobre ele como cronista do tempo (uma redundância).
Trata-se da liberalização das drogas, assim como hoje é liberado o álcool e o
fumo (com as devidas restrições parciais, é claro). Isso pode acontecer dada a
impotência em se conter o crime e a corrupção que envolve o assunto, em todo o
mundo. Talvez limitar os seus malefícios unicamente às áreas da saúde, da
psicologia e da família, seja um mal menor à sociedade do que acrescentar a esse
quadro terrível mais terror: o crime, a corrupção, o contrabando e toda a lama
que vem na rebarba da droga.
Acabo de ler uma citação de um
sociólogo (Robert K. Merton): “Quando a reforma política se restringe à tarefa
de ‘pegar os bandidos’, ela não passa de um ritual mágico”. Isso também pode
valer para outros contextos. Realidades não são abolidas com proibições. O
grande exemplo foi a extinção, depois de desastrados 13 anos de vigência, da Lei
Seca nos Estados Unidos.
Não é só o tempo que canaliza as
vontades e as decisões políticas para o caminho das realizações. Se ele não
estiver coadjuvado por um processo democrático efetivo, nada é garantido. É a
democracia, com todos os seus defeitos, que está melhorando nosso país.