ANO IX - Nº. 255, em 10 de agosto de
2010.
Relato
de viagem (1/2)
AMAZÔNIA AMADA
AMANTE (I)
Pela décima vez passo algumas semanas em Rio Branco, capital
do Acre, para rever familiares e novos amigos, razão por que o JORNALEGO entrou
em recesso, agora suspenso com a minha volta à sede da redação. Desta feita
também fui a Porto Velho, capital de Rondônia, por estrada de rodagem,
quinhentos e poucos quilômetros distantes de Rio Branco.
Embora já conhecesse as grandes capitais amazônicas, Manaus e
Belém, em viagens anteriores, foram as passagens pelo Acre que me fizeram mais
consciente da história e da realidade amazônica e me proporcionaram maior
imersão no assunto. O que sei sobre a Amazônia? Muito pouco! Nós, de outras
plagas, leigos, que nunca nos infiltramos e vivemos no seio da floresta ou nas
margens de seus rios, nada sabemos de lá. Acredito que nem imaginamos como seja.
É como as profundezas dos oceanos, uma região de nosso planeta ainda pouco
conhecida.
Nessa última estada fui exposto a uma
saraivada de ideias decorrentes de pouca coisa que li e de muitas conversas que
tive com dois bons interlocutores. O primeiro, meu filho, 41 anos, professor de
teatro da Universidade Federal do Acre, observador atento da vida por lá há
quase dois anos. O outro um cidadão americano, 72 anos, ex-professor
universitário no seu país, há cinco anos no Acre, onde adora viver, seguidor do
Santo Daime, ecologista amador, de uma religiosidade reverente à Mãe Natureza e
ao seu precioso rebento, a Floresta.
Acre e Rondônia vivem um momento desenvolvimentista
entusiasmante. Testemunho por uma década o notável crescimento do
primeiro. A economia da região é baseada na agropecuária, na indústria
extrativa e madeireira e em outras atividades de menor monta. A floresta
devastada nos dois estados é o produto mais drástico dessas atividades. Em
Rondônia muito mais do que no Acre. De alguma forma, o espírito de Chico Mendes
e os governos do PT que criaram o conceito de Florestania, neologismo local para
a Cidadania, fizeram com que o Acre fosse mais preservado. Mas em ambos os
estados as florestas ficam distantes das grandes estradas de rodagem; são vistas
ao longe quando se transita pelas rodovias. Nos pastos restam os esqueletos
calcinados de enormes castanheiras ou poucas castanheiras ainda vivas,
solitárias, rescaldadas das queimadas que, fora do seu habitat,
desamparadas pela floresta, não devem ter vida longa.
O desenvolvimento nos moldes tradicionais, capitalístico,
consumista, industrialista e tecnologista é o que vigora nesses estados e em
quase todos os corações e mentes da população local. É, na realidade, o único
modelo que lhes resta para ser seguido e o que realmente almejam. Os modelos
alternativos são propostas acadêmicas, idealistas, indígenas ou alienígenas, não
do gosto do grosso da população local e de seus governantes. É o que penso a
partir de observações, não o que desejo ou o que penso ser desejável.
Em Rio Branco, anualmente, em julho, é tempo de Expoacre, uma
demonstração da pujança da evolução da economia acreana. Um acontecimento que
congrega milhares de visitantes. É uma exposição do nível de desenvolvimento
atingido pelo Estado e do curso a ser seguido, igualzinho a qualquer região do
país. A Florestania do discurso político faz concessão à realidade econômica
global. Há, portanto, uma crise de identidade. O Estado se agita no mês de julho
com esse evento e a população se orgulha dele.
Porto Velho é uma grande e “progressista” cidade, com uma
população que se aproxima de 400 mil pessoas, imensa, que se espraia pelas
margens do rio Madeira. Rio Branco tem pouco mais de 300 mil. Tivemos problemas
em reservar quartos em hotéis, que não são poucos, completamente lotados, na
capital de Rondônia. A sua catedral de consumo, o grande shopping da
cidade, é gigantesco, moderno, igual ao de qualquer cidade do sul maravilha do
país. No rio Madeira estão sendo construídas duas grandes hidrelétricas, Jirau e
Santo Antônio, que servirão à região amazônica e principalmente aos dois estados
aqui citados. Outras hidrelétricas estão sendo cogitadas na região amazônica. De
Urucu, no Estado do Amazonas, parte um gasoduto até Manaus e outro braço vai ser
construído
para atender Rio Branco e Porto Velho.
Por fim, no que diz respeito às grandes obras de
infraestrutura, deve-se citar a ligação rodoviária de Rondônia e do Acre com a
Bolívia e o Peru, abrindo caminho por esse último para o Oceano Pacífico e, com
isso, tornar mais fácil chegar aos mercados da costa oeste da América e aos
mercados da Ásia. Prevê-se, para essa região, considerando a integração com a
Bolívia e Peru, um mercado de aproximadamente 30 milhões de pessoas, bem maior
que a atual população da Amazônia brasileira.
Imaginem os efeitos ambientais que essa evolução pode ter na
região! Na minha visão não há como reverter isso. Aquela gente quer ter o mesmo
padrão de vida das populações dos grandes centros e mesmo de outros países mais
desenvolvidos. Afinal, eles, especialmente os índios, preservaram até agora o
que foi possível da floresta com o seu subdesenvolvimento, dando aval ambiental
ao desenvolvimento de outras regiões e mesmo de outros países, e não querem
continuar na mesma vidinha de sempre. É impossível reverter a marcha desse
“progresso”.
Trata-se de um paradoxo: o regime econômico que lhes é
imposto é o capitalismo, mas não é de bom tom, para os ecologistas, acadêmicos e
estrangeiros, seguir em frente capitalisticamente. Por acaso lhes são permitidos
regimes políticos e econômicos alternativos?
Para mim não há dúvidas quanto à incompatibilidade entre
crescimento econômico capitalista e geração tradicional de energia em grande
escala com preservação do meio ambiente. Pode-se e deve-se, quando muito,
minorar os impactos ambientais.
Lembra-me muito VVV (Vitória e Vila Velha) e sua bucólica
região, atualmente impactada com pó de minério e gases siderúrgicos.
Preocupam-me muito tais observações que são, à primeira
vista, politicamente incorretas, mas que não me parecem destituídas do que
realmente está acontecendo na região amazônica, a última fronteira a ser
conquistada (resta saber como) pelo desenvolvimento capitalista brasileiro.
No próximo número, em continuação desta série, apresenta-se
uma tentativa de ver o outro lado da moeda ou da verdade, como queiram,
sabedores que somos de que essa digníssima senhora escorregadia, a verdade, tem
muitos lados além dos dois de uma prosaica moeda.
(Continua no próximo número)