ANO IX - Nº. 254 em 10 de julho de
2010.
Crônica
UMA CRÔNICA, UM LIVRO,
UM SONHO E OUTRA CRÔNICA
“Ai, que vida boa, olerê!”
“Ai, que vida boa, olará!”
“O
estandarte do sanatório geral vai passar.”
Chico Buarque.
A
crônica
Que prazer ao dar por terminada a
crônica-ensaio da edição anterior do JORNALEGO: Fé e Razão, número 253,
no nosso site! Li e reli a matéria jornalística que a provocou, ruminei
durante uns poucos dias sobre o que escrever, sentei-me ao micro, esbocei a
primeira versão, convivi com o texto por mais dois dias durante as minhas
caminhadas e, voilà, pari a versão final. A solicitude do professor José
Augusto fez algumas correções gramaticais e soltei-o no espaço cibernético.
Quero admitir que a alegria se deu por ter acrescido alguma coisa nova ao meu
pensamento a respeito do assunto, complementando e confirmando o que já estava
sedimentado. Sedimentos esses que podem e devem ser revolvidos, a fim de evitar
a cristalização, a calcificação e a dogmatização das ideias. Recordar os
argumentos sobre o tema apresentado não vale a pena nesta oportunidade. Quem
quiser percorrer o raciocínio acesse o site, que me dará outro grande prazer
recebê-lo por lá, se ainda não deu as caras.
O livro
Trata-se de Porta do Sol
(Record), do escritor libanês Elias Khoury, recomendação do Milton Hatoum, jovem
e brilhante romancista brasileiro manauara. O livro conta histórias e mais
histórias, histórias que vão se rebatendo em outras, sobre a saga recente dos
palestinos. As guerras, os massacres, as mortes são trazidas para você da
maneira mais pungente, não historicamente, mas humanamente, o que faz perceber
claramente que aquilo poderia estar acontecendo com qualquer um de nós. Na
leitura pincei uma colocação interessante que ilustra concisamente o problema
desse povo: “o palestino é o judeu dos judeus”. Também uma frase, aqui citada de
memória, diz muita coisa: “a História não faz mais sentido quando a vítima é
agora transformada em carrasco”.
Milton Hatoun ao apresentar o livro na
orelha diz: “Não há maniqueísmo nem exotismo na voz dos personagens. Não
há estereótipos sobre palestinos e israelenses. E nenhuma linha de acusação,
comiseração ou parti pris”. Embora eu considere acusatórias as frases
citadas no parágrafo anterior. Mas nada contra.
A dor, o flagelo, a morte, o exílio, a
miséria ali expostos não diminuíram a boa sensação de melhor conhecer a tragédia
desse povo que perdeu a sua terra, passou a viver de histórias e de memórias. Em
algumas cenas chocantes eles passam a ser ladrões de suas próprias casas, quando
se arriscam a voltar aos seus vilarejos, escorraçados que foram de lá. Em seus
campos de refugiados em terras de países vizinhos, por sua vez veem-se
escorraçados pela população desses países hospedeiros (!). O palestino também é
o árabe dos árabes, outra citação significativa que também encontrei no livro.
Quando estive em Beirute, em 1972,
vindo de Bagdá a serviço, eu cliquei nas minhas retinas, para nunca mais
esquecer, um imenso campo de concentração de refugiados, coberto de tendas, no
caminho do aeroporto, abrigo dos palestinos expulsos de suas terras e das
sombras de suas oliveiras centenárias. A leitura do livro me fez entender agora
o que se passava dentro daquelas tendas.
O sonho
Durante os dias de gestação da crônica
mencionada no início desta e da leitura do livro a que me referi tive um sonho.
Estava escalando, sem equipamentos, uma pedreira muito íngreme, que ficava no
interior de uma torre muito alta. Não era uma igreja, não havia nenhum sinal
religioso lá no alto. Parecia, no entanto, um alto campanário sem sinos na
cúpula. Eu só via a torre sem saber o que representava. Ela fora construída
margeando e encobrindo a pedreira. Lá no alto havia duas janelas arredondadas,
por onde deveria se descortinar uma bela paisagem. Eu tentava subir até lá para
apreciar melhor um acontecimento que estava se dando no outro lado da pedreira e
da torre, ao rés do chão. Talvez uma disputa desportiva, uma regata, quem sabe,
pois estávamos à beira-mar.
As primeiras dificuldades foram
vencidas com esforço e, por isso, cada vez que subia eu me entusiasmava mais.
Cheguei muito alto, mas ainda me faltava a parte mais inclinada para chegar às
aberturas no cimo. Desisti. Sentei-me num esboço de plataforma natural esculpida
na pedra. Senti que não podia subir mais e, pior, não me arriscava a descer,
pois, se a subida foi difícil, a descida seria desastrosa. Possivelmente me
despencaria da grande altura e me arrebentaria todo no impacto com o chão. Seria
a morte, certamente.
Atentei que estava preso numa
armadilha: não podia mais subir, não podia mais descer, não havia possibilidade
de pedir socorro, ninguém me atenderia, como também seria difícil me resgatar de
lá. Nem que fosse com a mais alta escada dos bombeiros. Nem com helicóptero,
pois não havia a possibilidade de me lançarem uma corda ou cesta no interior da
torre. As únicas aberturas eram aqueles olhos imensos lá em cima que eu ainda
não alcançara. E eu, sem comunicação com ninguém. Ninguém me vira. Ninguém por
perto.
Acordei em agonia. Mas comecei a
perceber que o sonho poderia dar margem a alguma interpretação interessante.
Outra crônica
É esta que ora escrevo, descrevendo
minhas aventuras dos últimos dias. Não sei o que se passa, mas fui possuído por
uma orgástica felicidade, tenho certeza, causada por esses três eventos. Não sei
como isso se manifestou nos circuitos de minha mente, nos meus poucos hormônios,
nos meus inúmeros neurônios ainda em funcionamento, mas o produto final foi
maravilhoso. Talvez tudo fosse produto de um alargamento das percepções da
mente, propiciado pelos fatos aqui comentados. Sei lá!
Registrei nesta crônica a felicidade
fugaz e efêmera para durar um pouquinho mais.
Ai, que vida boa, olerê!
Ai, que vida boa, olará!
O estandarte do sanatório geral vai
passar.