Jornalego
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ANO IX - Nº. 251, em 10 de junho de 2010.
LIBERTADORES DA AMÉRICA
Em tempo de Copa do Mundo, uso como pretexto inicial a Copa de futebol que leva o nome desta crônica. É oportuno lembrar que em 2010 estão sendo comemorados 200 anos do início do processo de independência dos países hispano-americanos. Muito simpática, portanto, a ideia, já antiga, da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) de homenagear a nossa libertação dos colonizadores ibéricos. Faz tempo que tentei arrolar o nome desses heróis, tendo feito até contato com a citada Conmebol pela Internet. Na época, não tive sucesso. Só mais recentemente, com a colaboração de um texto achado no Google, tenho uma noção do célebre plantel: D. Pedro I - Brasil Simon Bolívar – Venezuela, Colômbia, Peru, Equador e Bolívia. José de San Martin – Argentina, Chile e Peru Antonio José de Sucre – Bolívia, Peru e Equador Bernardo O’Higgins – Chile Não sou muito bom de história. Não tenho certeza se os países que coloquei ao lado dos nomes correspondem exatamente àqueles que eles libertaram ou da libertação dos quais participaram. Senti a falta do general José Artigas, herói das lutas libertárias do Uruguai, a quem sempre via imponente em sua estátua equestre na praça com seu nome no centro de Montevidéu. Quanto ao Paraguai, a sua libertação política não dependeu de lutas ou guerras, se deu por um ato declaratório unilateral de independência. É o que li. Tudo começou com as invasões napoleônicas na península ibérica em 1808. Foi nesse ano que a família real portuguesa se refugiou no Brasil abrindo caminho para a nossa independência. Em Espanha, com a destituição do rei, o poder se fragilizou permitindo a emancipação dos territórios hispânicos de além-mar. Com a desvinculação dos países da região dos seus colonizadores, todos, com exceção do Brasil transformaram-se em repúblicas. No nosso país, foi instituída uma monarquia que, sob a forma de Império, durou 67 anos, com a coroa passando de pai para filho desde os tempos da colônia. Considero que o Império brasileiro foi o grande aglutinador do imenso território e consolidador da independência. Talvez, sob outro regime, nós fossemos divididos em várias pequenas repúblicas. Todos os países, com a sempre exceção do Brasil (e do Paraguai, com vimos), passaram por lutas ferozes para chegar à libertação. Aqui a transição foi feita no âmbito da família real portuguesa. Depois da proclamação da nossa independência, estouraram algumas rebeliões, aplacadas sob o comando da espada do Duque de Caxias, daí por que é chamado de O Pacificador. Com a emancipação política, novos “donos do poder” passaram a dominar os países sul-americanos. Depois dos colonizadores (que aqui no Brasil expulsaram vários invasores estrangeiros), vieram as oligarquias que compactuaram com os exploradores de todas as espécies e nacionalidades. Essas, por vezes, apoiaram e contaram com ditaduras, militares ou não. Também essa etapa foi superada. O sol da liberdade mais uma vez voltou a brilhar sobre o continente. Mas mesmo depois da democracia instalada, vimos a praga do neoliberalismo grassar por todos os lados. Como uma tragédia, especialmente na Argentina. No Brasil, neste último período, houve o milagre do Plano Real, obnubilado por um desastrado programa de privatização e o capítulo vergonhoso da extração à força da reeleição do presidente em exercício, eleito sob outro contexto. Estamos no limiar de novos acontecimentos que, a continuar, podem ser positivos. Só a história nos dirá. Medram por todos os países da região lideranças populares (alguns as chamam pejorativamente de populistas). O discutível e dramático Hugo Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador, José Mujica no Uruguai, Fernando Lugo no Paraguai, o casal Kitchner na Argentina e Lula no Brasil. No Chile, o sucessor da socialista Michelle Bachelet, embora considerado conservador, se propôs, em sua plataforma de candidato, continuar as conquistas sociais de seus antecessores. A ver, como se diz em espanhol. Escapa-me uma percepção melhor sobre o Alan Garcia, do Peru, talvez menos conservador desta vez do que da anterior quando assumiu a presidência. O único presidente decididamente conservador é Álvaro Uribe na Colômbia, com suas associações militares com os Estados Unidos. Tudo indica que deva eleger seu sucessor nas eleições que ora se processam naquele país, seu ex-ministro da defesa. Como se sabe, eles têm um sério problema com o movimento revolucionário e o narcotráfico. Enfim, a situação é completamente diferente dos anos de chumbo ou do período neoliberal de poucas décadas atrás, embora seus governos venham sendo muito combatidos pelas elites da região, pela imprensa em geral (e os ávidos consumidores dessa mídia) e pelos Estados Unidos que querem manter o poder por aqui. Um argumento crítico sempre usado é o de ingenuidade das atuais políticas. Não quero insinuar que os atuais governantes sejam os novos libertadores da América. Mesmo porque, atualmente, a libertação é um processo, cuja evolução depende dos seus povos e do melhor esclarecimento dos mesmos que, numa democracia, elegem seus dirigentes. O papel do Brasil, na manutenção da democracia não só na América do Sul é fundamental. Pelo seu grande território (somente não se limita com o Chile e com o Equador), pelo tamanho da população e pelo vulto da economia, nosso país tende a ser um líder natural da região. Um presidente americano teria dito: “para onde vai o Brasil vão os outros países latino-americanos”. Isso mesmo! Somos um exemplo e, portanto, todos os brasileiros têm uma grande responsabilidade quanto a isso. As mudanças recentes na política externa nacional de se voltar para os países vizinhos sul-americanos vão nessa direção. Até então vivíamos focados nos Estados Unidos e na Europa, numa posição de dependência diplomática, econômica e política. As novas posturas, com a criação da União das Nações Sul-Americanas - Unasul, do Banco do Sul e do Parlamento Sul-Americano, instituições multilaterais em fase de construção, a integração regional através do Mercosul e sua almejada extensão, são passos muito importantes para a consecução plena da autonomia de nossos países e melhoria de vida de sua população mais pobre. Hoje, a América do Sul deve se orgulhar da autonomia que possui em relação dos EUA e ao FMI, de quem quase sempre foi subserviente. Enquanto isso, porque ninguém é de ferro, vamos agora relaxar e torcer pelo time do Brasil na Copa do Mundo, depois torcer pelos times brasileiros que ainda persistem nos jogos finais da Libertadores, entrementes, assistir o finzinho da Copa do Brasil, depois torcer por nossos times no prosseguimento do Campeonato Brasileiro, depois... Depois... Depois... Até alcançarmos à Copa do Mundo no Brasil em 2014. Não deve ser uma sugestão da Fifa para a Copa de 2014, mas erradicar o analfabetismo brasileiro até esse ano seria uma bela meta, ao lado da construção e modernização de nossos estádios, aumento da capacidade hoteleira e melhorias na infraestrutura urbana. Isso bem que poderia se transformar em plataformas de campanha dos candidatos e de governo para quem chegar lá.
Genserico Encarnação Júnior, 71 anos. Itapoã, Vila Velha (ES)
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