ANO IX - Nº. 250, em 30 de maio de
2010.
TEMA DO
TRAIDOR E DO HERÓI
Ensaio
Às vezes
acordo no meio da noite e, para evitar pensar em bobagens no escurinho do quarto
(os entediáveis problemas práticos da vida: dinheiro, economia, política,
necessidades domésticas; já superei as preocupações existenciais), pego o livro
de plantão – literatura, por suposto – leio-o por uma ou duas horas, visito
outros universos. Nem os sonhos são viagens tão perfeitas. Depois, volto
a dormir o sono profundo, drummondiano, depurado dos excrementos
românticos.
Numa dessas
noites de insônia temporária, ocorreu-me ler um pequeno texto ficcional (pois no
alto da página ele está definido como tal) de Jorge Luis Borges, publicado no
livro “Artifícios”, em 1944. O título do artigo é o mesmo deste despretensioso
ensaio.
Foi imediata
a associação que me assaltou, não tão direta assim em todos os sentidos, como
verão a seguir, ao ler a história labiríntica, do labiríntico escritor
argentino. Tanto que, dando nomes reais aos meus personagens estou tratando o
presente escrito como um ensaio, portanto uma escritura não definitiva e
inconclusa, passível de ser discutida. Associei o personagem dele, Fergus
Kilpatrick, a Tancredo Neves. Espero não ser tratado como um autor maldito,
sacrílego.
Kilpatrick foi um
conspirador de uma causa tida como nobre no seu país imaginário, tratado como se
fosse a Irlanda pelo autor. Ele liderava a conspiração. Talvez para libertar o
país, admitamos. Pois bem, foi descoberto que o movimento subversivo
estava por sua vez sendo subvertido. Havia um traidor entre os seus membros. E o
traidor era o próprio Kilpatrick. Todos os conspiradores resolveram acabar com a
liderança do chefe, planejando a sua morte. Para isso, contaram com a própria
colaboração do traidor, pegado com a boca na botija. Por quê? Para não
ultrajá-lo e com isso vir a comprometer os rumos do movimento libertador;
mantiveram-no aparentemente como líder, enquanto planejavam a sua execução.
Assim, ele entraria na história como herói, como mártir, e seria salvo o
espírito da insurgência.
Finalmente, depois
do sucesso da rebelião, ele foi assassinado num teatro, e os autores do atentado
foram acobertados, nunca ninguém soube de quem se tratava. Não houve punição.
Bem, esse é o conto
do Borges. Agora minha associação parcial, despertada também pela entrevista
concedida à Globo News, pela economista Maria da Conceição Tavares, em
comemoração aos seus oitenta anos de idade. Ela faz uma retrospectiva da
história recente do Brasil, desde quando ela aqui aportou, durante o governo
constitucional de Getúlio Vargas, vinda de sua terra natal, Portugal. Além do
suicídio do Getúlio, (en passant: de quem Tancredo Neves fora Ministro da
Justiça), outra grande decepção da veneranda e passional senhora foi a não
aprovação pelo Congresso Nacional da Emenda Constitucional que instituiria a
eleição direta no Brasil. Ela estava assistindo à sessão nas galerias do
plenário (foi eleita deputada federal pelo Rio de Janeiro depois desse infausto
acontecimento) e, como toda a nação, foi dormir frustrada e transtornada.
Ao reconstituir o
acontecido, deixou escapar que a derrota no plenário teria sido coisa dos
parceiros do doutor Tancredo. Ela admite que a culpa tenha sido do mineiro que,
apesar de frequentar os palanques dos comícios das diretas-já em todo o
território nacional (com Ulisses, Lula, FHC, Montoro, Brizola, Covas, Sobral
Pinto et caterva) defendendo a dita eleição direta para presidente,
governadores e prefeitos, tendo já garantida a sua eleição indiretamente, via
colégio eleitoral dos congressistas, fazia, no tapetão, o jogo contrário.
Vitorioso, por sinal.
A inteligência, a
sagacidade, a argúcia e a matreirice do Tancredo fizeram com que ele pudesse
chegar à Presidência, sem o desgaste e o risco de uma eleição nacional.
Percorrendo nosso imenso território, com a possibilidade de perdê-la para um
aventureiro qualquer (Collor veio depois para validar essa possibilidade). Seja
através de um convencimento inocente da população (outra vez o exemplo é Collor)
seja pelo derrame de dinheiro para comprar a eleição (Maluf era um concorrente,
lídimo representante da situação e das classes empresariais paulistas). Além do
mais, estava na hora de alçar um mineiro à Presidência da República (chega de
vices mineiros: o candidato a vice na chapa de Jânio Quadros, derrotado, Milton
Campos; e mais: José Maria Alckmim, Pedro Aleixo, Aureliano Chaves; e depois:
Itamar Franco e José Alencar). Talvez esse raciocínio esteja na base do
pensamento de seu neto, também político mineiríssimo, Aécio Neves, que não quer
concorrer como vice na chapa do paulista Serra.
Sabem como são os
mineiros: “Ele diz que vai para Cataguases para todo mundo pensar que ele não
vai para Cataguases, mas o danado vai mesmo para Cataguases.”
Tancredo não foi
traidor no sentido pejorativo do termo, mas deu um golpe para alcançar o mesmo
objetivo que vinha sendo tentado de outras maneiras, isto é, dar um fim aos
governos militares. Depois, com uma Constituinte, aí então consagrar-se-iam as
eleições diretas. Escusado dizer, isso tudo com ele, Tancredo, na Presidência. (En
passant: ele foi um dos primeiros-ministros do governo parlamentar sob a
Presidência do João Goulart.)
O que esses
fatigados neurônios agora não fazem, quando dispensados de outras preocupações,
as tais entediáveis aporrinhações da vida prática!
Depois disso,
seguiram-se a doença do Tancredo, o seu calvário, a sua morte e, antes, disso, a
posse do Sarney, ex-presidente da governista Arena, preço pago aos militares
para admitir um governo civil. Uma sequência de tragédias.
Quanto à morte do
Tancredo eu não fiz nenhuma associação com o assassinato de Kilpatrick, o
personagem do Borges. Mas que foi uma grande coincidência, ficar doente no dia
da posse, ah, isso foi. Com a história mundial tão cheia de acidentes dessa
natureza, a gente fica desconfiado. Lincoln, Kennedy, Luther King, João Paulo I,
o próprio suicídio de Getúlio Vargas, e outras tantas tragédias dessa ordem
podem dar margem a muitas especulações, a outros ensaios. Mas, quanto a isso,
deixo aos meus leitores o exercício desse tipo de malabarismo intelectual.