JORNALEGO
Nº 24, em 20 de Dezembro de 2002.
Conto da série Artimanhas do Amor.
Classificado em 3º lugar no III Concurso de Contos da Petros – Ano 2002.
FAZENDO CHOVER
Lotário, a despeito do nome, não é um
pobre de espírito. É inteligente, culto, tem experiência acumulada em sua vida
de cinqüentão. Está no auge de sua lucidez. É competente no trabalho, atuante em
tudo que participa e cultiva uma boa forma física. É o que se chama de um homem
bem apessoado. Apaixonado por literatura começou a escrever concomitantemente à
leitura dos primeiros romances. Contudo, não se trata de um romântico. É
intelectualmente cético para não falar pessimista. Veio para Brasília, depois da
morte dos pais, no início dos anos 80, proveniente da mineira terra natal de
Itajubá, onde se formou em engenharia elétrica. Agora vive só, numa solidão
compartilhada por inúmeros livros e personagens, seus e dos mais renomados
autores. É alegre, nunca “carpiu” essa solidão.
De amores
teve poucos. Supria a falta dos êxtases amorosos com sua amada literatura. As
necessidades do sexo, se as atendia, o fazia de formas nunca dantes reveladas.
Sou seu amigo e fui seu colega de Ministério, na Capital Federal. É uma pessoa
razoavelmente falante, mas muito reservado no que respeita aos assuntos
pessoais. Uma única vez, ainda no início deste ano, quando voltei a rever
Brasília, talvez porque eu estivesse de passagem, me presenteou com um conto de
sua autoria, descrevendo uma deliciosa aventura amorosa. Tratava-se de um conto
lavrado em três laudas bem editadas que a seguir reconto, embutida neste meu
conto, apelando para a memória, pois perdi o texto. Com os nomes devidamente
trocados para preservar a privacidade das pessoas envolvidas, o conto,
confidenciou-me, retrata uma aventura sua com uma colega de trabalho.
Camila vem a ser o seu
nome. Dez anos mais nova que ele, bonita, falsa-magra, cabelos longos e lisos
sobre a nuca e costas, personalidade elétrica, competente, conhecedora profunda
dos serviços ministeriais, das pessoas e dos intrincados meandros da burocracia
federal. Seios pequenos, constantemente intumescidos, certa vez descortinados
pelo decote quando, de pé ao seu lado, Lotário a ajudava a escrever um
relatório; ela, sentada ao micro, arfando suavemente. Suas ancas eram rijas,
pequenas e formosas. Coxas roliças imaginadas por sobre a saia justa que
freqüentemente usava delineando as formas ou furtivamente flagradas num cruzar
mais despreocupado de pernas. Que pernas! Ele morria de amores ou de desejos por
ela. Mas, como realizar essa paixão com aquela timidez afetiva que o
caracterizava? Pior, Camila era casada, tinha dois filhos. Seu marido, mais novo
do que ela, um jovem forte e vistoso.
Teve uma idéia nada
original e inviável: convidá-la para almoçar. Em Brasília jamais isso se daria,
ela costumava almoçar em casa, com o marido e filhos, depois de apanhar os
pequenos na escola. Desistiu. Na provinciana Brasília, no perímetro do poder, o
“big brother” anda à solta. Mas eis que de repente, lembrando Vinícius, não mais
que de repente, foram escalados para uma viagem a São Paulo, para tratar de
assuntos do Ministério.
Depois da
reunião, a idéia vingou; ele a convidou para almoçar e ela aceitou. Foram a uma
tratoria no Bexiga, com tempo suficiente para conversar até pegar o vôo de
volta, à noitinha.
Feitos os pedidos - dois
tipos de pasta, ambos com frutos do mar, e uma garrafa de vinho tinto –
começaram a conversar sobre o trabalho. Depois, astutamente, ele desviou o papo
para literatura, sua praia, perguntando-lhe se costumava ler e o que lera. Muito
pouco! Na pré-adolescência folheou e leu algo de Monteiro Lobato; mais tarde, já
mocinha, chegou a ler um ou dois livros “chatérrimos” de Machado de Assis como
obrigação escolar. Tentou O Pequeno Príncipe, mas não entendeu muita coisa. Bom
mesmo foi Fernão Capelo Gaivota. Depois de casada dedicou-se ao trabalho e aos
exaustivos serviços de dona de casa, esposa e mãe.
- Você não imagina o que é ter dupla
ou tripla jornada de trabalho e cuidar de casa, marido e dois filhos pequenos!
Lotário
falou sobre Machado de Assis fazendo-a entender melhor a literatura do Bruxo do
Cosme Velho, sua história pessoal, sua glória ainda em vida, o conteúdo de sua
obra, numa linguagem simples, terminando por fazê-la atinar para a poesia de Dom
Casmurro, a crônica de costumes da época no Rio de Janeiro e os conflitos
psicológicos de seu principal personagem. Contou que chegou a se apaixonar por
Capitu e mesmo sentir uma ponta de sensualidade em alguns trechos do romance,
especialmente quando Bentinho a ajuda nos trabalhos de toucador. Explicou o
significado da palavra, ignorado por suposto. Citou o personagem Escobar e o
enigma que o romance propõe ao leitor
Depois
falou de Érico Veríssimo, de Jorge Amado, de João Ubaldo, de Drummond, de Braga,
de Nelson Rodrigues, da prosa, da poesia, da crônica, do teatro, enfim, do mundo
encantado da literatura em que ele se refugiava, se isolava e se bastava. Camila
o escutava hipnotizada, possivelmente antevendo um novo campo a se abrir em sua
vida. Fora advertida que se limitara a falar sobre autores brasileiros, deixando
a possibilidade de se estender sobre literatura internacional em outra
oportunidade. Ah! A literatura latino-americana! Uma estratégia matreira para
continuar a abordagem visando o epílogo desejado.
Foi num
ímpeto que Camila inquiriu sobre a sua vida afetiva. Sabia que ele morava
sozinho e perguntou por que não se casara e se não tinha namorada, se já teve,
essas curiosidades femininas.
Lotário
respondeu que a sua vida afetiva se sublimava com a literatura. Sua timidez o
encasulava nos livros, de onde matava toda sua sede romântica e afetiva.
- Mas você não tem alguma fixação, um
grande amor no qual direcione seus pensamentos? Uma musa, por exemplo, já que
estamos falando de literatura.
- Sim - de início foi lacônico -
depois se mostrou confiante e prosseguiu perplexo diante de sua inusitada
abertura. Existe uma mulher que mexe muito comigo de todas as formas. Linda,
jovem, sensual, preenche todo o meu pensamento quando não o ocupo com as minhas
leituras e meu trabalho. Mesmo o escape da literatura, age às vezes como uma
vereda que conduz meus pensamentos a ela. Às vezes passo horas, antes do sono
chegar, pensando nela e sofrendo com a sua ausência. Sonho freqüentemente com
ela, a estar comigo e morro de amores!
- Pelo que eu notei este amor é
platônico, desculpe-me, você ainda não teve a iniciativa de declarar-se, não é
isso mesmo? Deve dar muito prazer a uma mulher saber-se e sentir-se amada a tal
ponto.
- Saiba e sinta-se, pois.
Sua
resposta intempestiva lhe deixou surpreso e gelado, enquanto Camila corou logo
que interpretou o sentido da resposta, sentindo um calor que se externava em
gotículas de suor na região do inexistente buço.
O silêncio
se estendeu por alguns segundos a que se sucederam elogios de parte a parte
sobre a excelência da comida. Mas o clima que pintou não se arrefeceu e ficou
claro nos olhares brilhantes dos comensais. Ao final do almoço, com todas as
forças que pode arregimentar de seu íntimo tímido, Lotário pousou a mão sobre a
mão estendida de Camila ao longo da mesa, como se a interrompesse no que estava
falando e perguntou:
- De sobremesa, o que você deseja?
- Um quarto, respondeu-lhe, se também
é o que deseja.
Do que se passou depois e
depois do depois, “noblesse oblige”, nada me foi dado saber, tendo o seu conto
terminado assim. Uma das maravilhas da literatura reside nas omissões do autor,
quando passa a escrever na mente do leitor. Para isso servem os espaços e os
finais abruptos.
No mais, sua história não
mereceu comentários adicionais quando me encontrei novamente com o protagonista
desta história para as despedidas ao retornar para o meu refúgio à beira-mar
plantado.
Não sei se
essa história realmente ocorreu e da forma que foi narrada. Na literatura não
existem limites definidos entre a ficção e a realidade no que tange às
situações, embora os sentimentos do meu amigo sejam reais e Camila represente
efetivamente sua colega, esposa dedicadíssima do Anselmo e mãe amantíssima.
Após a
leitura do conto, tive dúvidas quanto a consumação do seu amor por Camila. Ele é
assim, fissurado em literatura e é na literatura que se realiza. Acredito que
seu grande caso de amor pode ter se dado no plano da ficção, com uma pequena
contribuição de Cervantes na escolha dos nomes dos personagens.
A
literatura supre também esse papel, faz chover na horta do autor e na hora que
ele bem quiser, bastando-lhe para isso uma pitada de engenho e arte. Na
literatura vai-se a Pasárgada quando se quer, tem-se a amizade do rei e a mulher
desejada na cama escolhida.
As
suspeitas sobre a veracidade do acontecido decorrem da minha maior imersão na
literatura depois da aposentadoria, por onde vago por entre linhas e
entrelinhas, desconfiado de minha própria existência, embora a sinta plena ao me
perder por esse mundo encantado, onde também sou senhor das minhas vontades,
fazendo chover quando e como quero nas singelas páginas dos meus contos.
Genserico Encarnação Júnior
Itapoã, Vila Velha (ES), outubro de
2002.
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