ANO IX - Nº. 249, em 20 de maio de
2010.
“O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO”
(título em português de um livro de J. D.
Salinger)
Máximas
A brancura de uma folha de
papel é, indiscutivelmente, um território de sedução, um corpo a explorar. (José
Cardoso Pires, in O Delfim).
O homem conservador
conserva a doença por superstição de que a cura lhe seja mortal. A úlcera
está localizada, mas inventa-se-lhe uma função regeneradora. (José Cardoso
Pires, in O Delfim).
Hipótese é uma coisa que
não é, mas a gente diz que é; para ver como seria se fosse.(Apparício Torelly -
Barão de Itararé, jornalista gaúcho).
Escrever é estar no extremo
de si. (João Cabral de Melo Neto).
Minha sabedoria é ignorar
as minhas originais certezas.(Mia Couto, in O Fio das Missangas).
O poder encantatório das
mercadorias é condição não da riqueza, mas da miséria material e espiritual.
(Maria Rita Kehl, in Sonhos do Avesso, Folha de São Paulo, Caderno Mais,
06-09-2009).
Escrever não é inventar,
mas correr o risco de encontrar a realidade.(Clarice Lispector - 1920-1977).
A única salvação para os
vencidos é não esperar nenhuma salvação.
Una salus victis, nullam sperare salutem.
(Virgílio in Eneida).
A minha mais doce esperança
é perder a esperança. Ma plus douce
espérance est de perdre l’espoir. (Corneille,
in Le Cid).
O fato mais terrível, a
inclinação mais violenta, um planeta por mais ímpio, apenas enfraquecem a
vontade, mas não a forçam. (Pedro Calderón de la Barca -1600-1681).
A verdadeira vida, a vida
por fim esclarecida e descoberta, a única vida, pois, plenamente vivida, é a
literatura. (Marcel Proust).
A ignorância gera mais
confiança do que o conhecimento. (Charles Darwin).
A propósito: Darwin, durante 20 anos ficou sem
divulgar sua teoria da evolução das espécies com medo de estar se opondo à ideia
divina da criação. Hoje, com a descoberta dos genes e do DNA, que ele
desconhecia, sua teoria evolucionista continua válida. O filme inglês “Criação”
conta aquele período de inquietação interior vivido pelo cientista.
Da mesma forma, os cientistas que descobriram a
física quântica, no início do século XX, ficaram tão perplexos com a descoberta,
pensando se tratar de um delírio deles, que só divulgaram mais tarde os seus
conhecimentos sobre a matéria. Mesmo porque essas descobertas iam contra a ideia
da perfeição da criação ou da natureza, a chamada visão monoteísta da ciência.
(Essa última expressão é do físico Marcelo Gleiser, citado a seguir).
A nossa insaciável busca pelo conhecimento, querendo sempre saber mais sobre
quem somos e sobre o mundo em que vivemos, é alimentada por uma profunda
referência pela beleza e pelo drama da Natureza, pela emoção que sentimos ao
presenciar o esplendor da criação. Está é uma visão profundamente espiritual da
ciência. (Marcelo Gleiser, in Criação Imperfeita).
Nós precisamos da natureza, a natureza não precisa de nós. (Marcelo Gleiser,
comentando o terremoto do Haiti).
O importante é não ser colonizado ou colonizável. (Arthur Moreira Lima em
entrevista na televisão sobre Ernesto Nazareth).
Entra mar adentro. Deixar o marulho das ondas lhe envolver. Até apagar o
blá-blá-blá humano. (Waly Salomão, poeta).
O que eu menos quero pro meu dia: polidez, boas maneiras. Por certo, um
Professor de Etiquetas não presenciou o ato em que fui concebido. (Waly Salomão,
poeta).
Minha terra tem Palmares, memória cala-te já. Peço licença poética, Belém
capital Pará. (Cacaso, poeta).
Marginal é quem escreve à margem, deixando branca a página para que a paisagem
passe e deixe tudo claro à sua passagem. (Paulo Leminski).
A gente podemos (sic) fazer o que quiser quando tá (sic) falando ou escrevendo,
não é que nem viver, quando a gente só podemos (sic) fazer o que tá fazendo. (Sapphire,
nome artístico de Ramona Lofton, no romance Preciosa, em que se baseou o filme
de mesmo nome).
A gente não tem que fazer tudo aquilo que a gente tem que fazer. (Rubem Braga).
Que falta o ódio faz para nos sentirmos saudáveis! Acharmo-nos em harmonia com o
mundo é uma infecção mortal. (António Lobo Antunes, in Auto dos Danados).
A sátira, isto é, a denúncia e acusação, não é possível sem um critério de
valores que o sátiro considera superiores aos valores do mundo denunciado e
acusado. (Otto Maria Carpeaux).
A brutalidade cotidiana para com os pobres é invisível, enquanto a menor
perturbação da rotina das classes médias é condenada como um ato de violência.
(Filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek).
Não posso, por exemplo, e apenas para citar uma das questões mais frequentes,
aceitar a ingênua divisão dos homens em bons e maus. Os dualismos clássicos da
natureza – sol e lua, dia e noite, treva e luz, morte e vida, sul e norte,
contingente e necessário – não se repugnam entre si, antes, são transformações
duma mesma coisa que subsiste em diversas formas e maneiras, às vezes
simultaneamente. (Carlos Heitor Cony, in “Informação ao Crucificado”).