ANO IX - Nº. 248, em 10 de maio de
2010.
Conto
DNA GUERREIRO
Conheci
Stephen há pouco tempo numa balada no Spírito Jazz, reduto de musicófilos
na vizinha Vitória, do outro lado da ponte, quando ali se apresentava Leny
Andrade, em turnê de final de semana. Quem me apresentou a ele foi o amigo
Eleisson, profundo conhecedor e também aficionado da boa música. Além da nossa
música, o americano gosta de cinema e eu o estou introduzindo a literatura
brasileira.
Ele é um
apaixonado pelas coisas do nosso país, especialmente por sua música: o samba de
raiz, o chorinho, a bossa nova. Isso já dá para situar o bom gosto do sessentão,
que aportou por aqui há uns cinco anos. Depois eu conto como isso aconteceu.
Stephen
nasceu em Des Moines, capital do Estado de Iowa, no meio-oeste americano, onde
viveu até completar a high school. Em idade de ingressar no ensino
superior, transferiu-se para a pequenina cidade de Ames, no mesmo Estado.
Ingressou na Universidade Estadual de Iowa, bacharelou-se em Economia, ali mesmo
fez mestrado e doutorado. Não chegou a graduar-se em Phd, pois, embora não sendo
obrigado por sua condição de universitário, quis voluntariamente alistar-se no
exército para lutar no Vietnam.
Convivendo
numa comunidade extremamente conservadora, como é natural em seu estado natal,
representante legítimo da comunidade wasp (white, anglo-saxon and protestant),
emprenhou-se do sentimento anticomunista e da necessidade de estancar a
escalada mundial dessa ideologia após a Segunda Grande Guerra. Já bastava a
tomada de meia Europa. Entusiasta do regime capitalista, do mundo livre, da
democracia representativa e dos princípios cristãos legados pela família, por
fim, orgulhoso do seu país, imbuído desses sentimentos que julgava o suprassumo
do idealismo, lá foi ele para o sudeste asiático.
Na volta,
depois da guerra vencida pelos comunistas, desiludido de seus ideais e de seu
fundamentalismo religioso, terminou sua tese, recebeu o seu grau de Phd. Foi
contratado imediatamente pela Universidade para ser professor, em vista de suas
excelentes notas e da tese de doutoramento que mereceu grau máximo.
Nesse período
casou-se, teve um filho e sete anos depois se divorciou. Pode ter sido a famosa
the seven year itch (a coceira dos sete anos), tradicional nos casamentos
da sociedade americana ou, quem sabe, por força de alguns traumas adquiridos
durante o período da guerra que a coitada da mulher não aguentou a barra.
Por ali
viveu até sua aposentadoria, quando escolheu o Brasil como seu novo domicílio.
Por quê? Bem esse assunto tem várias explicações. Algumas delas são elucubrações
minhas feitas a partir de conversas que tive com ele.
Primeiramente, falou-me de um colega brasileiro na universidade, um carioca, que
lhe passou os primeiros conhecimentos sobre o Brasil e os brasileiros. Jorge
tinha levado alguns discos de vinil com nossa música e emprestou a Stephen para
os primeiros contatos. Talvez, aí, tenha sido o começo de tudo. Por incrível que
pareça (isso cheira a ficção) o Jorge foi também meu colega na pós-graduação da
Fundação Getúlio Vargas, no Rio. Como o mundo é pequeno! Que coincidência!
Em segundo
lugar, mas não necessariamente nessa ordem, acredito que, principalmente, sua
vinda para cá se deve às razões que ora passo a descrever.
O avô de
Stephen foi herói da I Grande Guerra Mundial. Voltou morto para casa,
devidamente condecorado. Seu pai, por seu turno, lutou na II Guerra. Retornou
mutilado, também herói, igualmente condecorado, viveu respeitado como veterano
de guerra, usufruindo de algumas regalias concedidas pelo Governo e pela
Sociedade, vindo a falecer no início dos anos 60. Um tio mais novo lutou na
Coreia, no limiar da campanha americana para estancar o avanço comunista no
leste da Ásia. Voltou derrotado, pior, morto, quando rechaçado por
norte-coreanos e chineses do assalto americano ao norte da península.
Ele, o
próprio Stephen, como já dito, esteve no Vietnam e, às pressas, na debandada
final da guerra, embarcou de volta cheio de tiques e traumas. Novo veterano de
guerra da família. Agora, seu filho americano, oficial Fuzileiro Naval da
Marinha, participa das escaramuças americanas no Oriente Médio. Já fizera parte
da operação Tempestade no Deserto, contra a invasão do Kuwait pelo Iraque,
atualmente está servindo no Afeganistão. A guerra agora não é mais contra os
nazistas, nem mais contra os comunistas. O inimigo da hora é o terrorismo.
Sempre existe um bode expiatório de plantão. “O inferno são os outros”, me disse
Stephen citando Sartre.
Ele, uma vez,
me confessou, em inglês, talvez para ser mais enfático: “What a hell! Is this
the american way of life?” (Que inferno! Esse é o estilo americano de
vida?)
Depois de
aposentado, vivendo sozinho, veio de mala e cuia para o Brasil, tendo o Rio de
Janeiro como destino. Não conseguiu contato com Jorge naquela oportunidade.
Recentemente, passei-lhe o telefone e o e-mail dele. No entanto, lá no Rio,
durante um show no Canecão, conheceu uma linda morena, daqui mesmo, da terrinha,
extrovertida, solteira, que o trouxe para cá, a comer moqueca de peixe e torta
capixaba na semana santa.
Hoje fala um
bom português recheado com algumas expressões do vocabulário capixaba. O ar do
Brasil fê-lo superar seu idealismo ingênuo (naïve como ele diz), sua
religiosidade radical, seus traumas de guerra. Do novo casamento nasceu-lhe um
filho lindo, Pedro, em homenagem ao avô materno, moreninho como a mãe, esperto
e, com cinco anos, já bilíngue. Uma graça! Mora em uma casa aprazível, na
bucólica praia de Manguinhos, no município vizinho, ao norte de Vitória.
Outro dia,
sondei o atual humor do novo amigo, perguntando-lhe diretamente se a opção de
vir morar no Brasil foi realmente boa para ele. Qual a grande vantagem dessa
mudança, do novo casamento, do novo filho.
Ele me
respondeu simplesmente: “Viver em paz!”. “Aqui, tenho certeza, de que o meu
filho, cidadão brasileiro, não vai seguir na saga de todas as gerações por mim
conhecidas de minha família, ele jamais irá participar de nenhuma guerra por
este mundo a fora.” “I hope so!” concluiu.