ANO VIII - Nº. 244, em 30 de março de
2010.
Crônica de uma cidade
GNAISSE
FACOIDAL
Um número recente do JORNALEGO
fez menção ao muro da Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro que, antigamente,
separava as pistas de rolamento do mar e, depois do aterro, as separa do Parque.
Portanto o muro ainda existe por lá. Foi construído com um granito, a mais
carioca de todas as pedras, conhecido como gnaisse facoidal.
O nome pode ter causado
estranheza a muitos dos meus poucos leitores, mas fiz questão de citá-lo pela
admiração que tenho por essas rochas. Por isso comecei a pensar em fazer um
artigo a respeito, no intuito de divulgar essa maravilha da natureza carioca. Um
novo encanto dessa encantadora cidade.
Vivi quase trinta anos no Rio de
Janeiro. Meus filhos são cariocas. Volto sempre que posso a essa cidade. Ela,
como todos sabem, é cheia de paisagens lindas, belas edificações, morros,
florestas, praias paradisíacas e mulheres infernais. Esse último
adjetivo, politicamente incorreto, serve tão somente de contraponto ao
paradisíaco das praias. Contudo, a sensação mais recente que tive foi a
descoberta dessas preciosas pedras, sem a conotação que se dá às pedras
preciosas clássicas, usadas na confecção de joias. Vivi anos no Rio, voltava
constantemente à cidade e jamais havia atentado para tais tesouros.
Foi meu filho que lidava com
turismo, e que, estudioso da história e de outros aspectos da cidade que
pudessem interessar aos visitantes, me chamou a atenção para tais pedras. Quando
as descobri fiquei extasiado ao pensar que tinha convivido durante tantos anos
ao lado delas e jamais me tinha apercebido de tanta beleza nem de sua primorosa
aplicação em várias obras e edificações que marcam a arquitetura da cidade.
O Pão de Açúcar, a Pedra da
Gávea, o Corcovado são formações de gnaisses facoidais. A rocha é encontrada em
muitos outros sítios da cidade, como no maciço da Tijuca e no Morro da Viúva.
Elas são frutos de um evento geológico que aconteceu há cerca de 600 milhões de
anos, quando da quebra do Gondwana (as separações dos continentes americano e
africano) e da ação lenta provocada pelo tempo. E pensar que os criacionistas
acham que o mundo foi criado há apenas poucos milhares de anos! Insensatez!
Essa rocha não se parece com os
granitos capixabas de belas estampas coloridas. Ela é mais rústica, mas de uma
beleza singular e recatada. É extremamente durável, mas de fácil manuseio no que
tange ao fato de se prestar a desenhos e esculturas, a obras de arte da
cantaria, como as que nos foram legadas pelos portugueses.
Morava do lado do Fluminense, o
clube de futebol, e nunca apreciei os gnaisses facoidais que foram usados na
base de sua sede social. Tem muito mais: além dos muros do Flamengo e da Urca,
as várias igrejas, os palácios governamentais (incluindo o do Catete), o Teatro
Municipal, a Biblioteca Nacional, o Museu de Belas Artes, na Cinelândia; os
prédios da antiga Universidade do Brasil e do Museu de Ciências da Terra, ambos
na Avenida Pasteur, na Urca; os edifícios públicos ainda existentes no centro da
cidade e os casarões antigos de Botafogo, com os seus portais construídos com
esse gnaisse. E mais: o atual Centro Cultural do Banco do Brasil, a sede dos
Correios, na Rua 13 de Março; A Casa da Moeda, na Praça da República e,
possivelmente, o obelisco da Avenida Rio Branco, que talvez também tenha sido
esculpido em gnaisse facoidal, retirado que foi do Morro da Viúva. No entanto,
uma das “obras” mais significativas, porque simbólica, é a Pedra do Sal, no
bairro da Saúde, perto do Porto, uma escadaria cortada na própria rocha. O local
é tido como o nascedouro do samba na cidade, numa comunidade de quilombolas.
Um artigo e um estudo técnico,
ambos do Instituto de Geociências (Igeo) da UFRJ, que pode facilmente ser
acessado via Google, o levará ao conhecimento mais detalhado do assunto.
Inclusive com fotos. Foi aí também que sorvi alguma informação para esta
crônica. (Vide atalhos no rodapé.)
Os moradores do Rio e os
visitantes devem observar, se não o fizeram até agora, tais construções.
Acredito que elas só existam no Rio de Janeiro, porque a pedra é exclusividade
da formação rochosa local. Para confirmar ou negar o que aqui vai dito, com a
palavra geólogos e arquitetos. São patrimônio natural e arquitetônico da Cidade
Maravilhosa, mais um aspecto maravilhoso que merece ser destacado.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pedra_do_Sal
http://www.anuario.igeo.ufrj.br/anuario_2008_2/2008_2_09_22.pdf
Considerações de um leitor geólogo:
O tema é muito interessante e vai, sem dúvida,
agradar aos seus leitores. Porém, pelo menos há uma incorreção na sua crônica.
A época da separação do Gondwana é de cerca de 120 milhões de anos, muito mais
nova que a da formação dos gnaisses facoides que você diz ser 600 milhões.
Tentei confirmar esta última idade, a dos gnaisses, no site do Igeo, mas não
consegui acessá-lo. Pessoalmente, acho que eles são mais velhos.
Ah, uma curiosidade. Em alemão esses gnaisses são
chamados "Augen Gneiss" o que significa: gnaisses com olhos. Se repararmos, os
olhos estão lá, se bem que um tanto ajaponezados.
Ronaldo Jorge Alves.
Considerações de um leitor artista plástico:
Fui professor de ciências por 5 anos e devo
observar nesse seu texto que se é gnaiss, não é granito: uma é rocha magmática
(granito) e a outra é metamórfica.
Kleber Galvêas