Jornalego
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ANO VIII - Nº. 242, em 10 de março de 2010.
Conto TIA AMÉLIA
Tia Amélia era a irmã mais velha de minha mãe. Duas lindas moreninhas, filhas do Seu Venâncio, meu avô português, casmurro, anacrônico, autoritário, casado com minha avó Cacilda, dali mesmo, de Niterói, onde nasceu, casou e sempre morou, companheira completamente apagada diante da figura daquele homenzarrão bigodudo de carranca sempre fechada, seu senhor e marido. Aos vinte anos tia Amélia arranjou um namorado, num passeio à Quinta da Boa Vista, do outro lado da baía com um grupo de amigas do colégio devidamente acompanhadas por uma inspetora de disciplina. Foi um dia memorável. Um rapaz muito simpático, bem apessoado como se dizia na época, trocou olhares com ela e, num átimo, se aproximou, sob os olhares vigilantes da inspetora, mantendo com a rapariga um rápido diálogo. Informou-se do seu endereço e prometeu visitá-la, pedindo permissão para a aventura além-mar. Tão jovem, já era homem de negócios bem-sucedido, dirigindo empresa de seu falecido pai, português, que negociava com importação e distribuição de produtos da terrinha: bacalhau, vinhos, azeite de oliva, azeitonas etc. Além de ser corretor de café. A firma, muito conceituada, nas praças do Rio de Janeiro e de Lisboa, era tida como sólida e em franco desenvolvimento. Toda essa ficha cadastral, seu sucesso nos negócios, a filiação portuguesa e a ligação profissional com a terra do Seu Venâncio, fez com que a fera do pai fosse mais tolerante ao receber a visita do pretendente de sua filha mais velha, empresário ousado que o regalou com um fino azeite lusitano e um legítimo Douro. Para a senhorinha Amélia trouxe rebuçados de Lisboa. Assim, antes de qualquer contato com Amelinha, procurou inicialmente pelo sisudo pai e explicou-lhe a sua motivação. Conheceu sua filha no Rio, quando do último piquenique na Quinta, teve oportunidade de manter uma ligeira conversa com ela e gostaria de pedir permissão para fazer a corte, com as melhores intenções possíveis. Apresentou-se: Alcides Pacheco d’Oliveira, encantado, seu criado. O namoro transcorreu normalmente, seguiu-se rapidamente o noivado, com miras ao próximo casamento, já com dia marcado. A empolgação do par era muito grande, viviam num estado de levitação, quase não pisavam no chão, entusiasmadíssimos. Uma semana antes do seu casamento, os noivos estavam na varanda da casa dos pais, em Niterói, trocando carícias de apaixonados como era de se esperar, quando foram surpreendidos pelo meu avô. O Seu Venâncio, num rompante, não hesitou em expulsar de sua casa o abusado noivo de sua filha. Imagine isso! A tia Amélia, revoltada, acompanhou o noivo e foi para a casa dos pais dele. No dia do casamento, na data aprazada, o rigoroso pai não compareceu à cerimônia como também proibiu toda a sua família de comparecer à igreja, para o sofrimento de minha mãe. Tia Amélia iniciou sua caminhada na nave da igreja, sozinha, risonha, segura e altiva. O noivo, que a esperava junto ao padre e aos padrinhos, num impulso caminhou até a metade do percurso a ser cumprido pela noiva, deu-lhe o braço, e juntos, assomaram ao altar. Essas ofensas, tia Amélia jamais perdoou. Nunca mais colocou os pés em Niterói, nunca mais viu os pais. Só muito tempo depois, minha mãe, já viúva, pode fazer contato com ela, como se verá. Repudiou o nome da família passando a se apresentar unicamente com o novo nome herdado do marido. A partir do casamento desfrutou a vida com o seu amor, que tinha excelente situação financeira, muitíssimo melhor do que a dos seus progenitores e a da minha mãe, que se casou com o meu futuro pai de condição bem mais modesta. Tia Amélia relacionava-se com a alta sociedade do Rio de Janeiro, freqüentava o Palácio do Catete, enquanto o Dutra era o Presidente, o Jockey Club, o Yacht Club, o Country Club e o Fluminense Football Club. Conviveram com o casal Dutra, comparecia regularmente ao chá das tardes das quintas-feiras com as senhoras do Grupo de Oração de Dona Santinha, antecedidos invariavelmente por uma seção de preces sussurradas, para não chamar a atenção do expediente administrativo e das várias reuniões que por ali tinham lugar. Esse grupo teve grande influência na proibição dos jogos de azar em todo o território nacional. As reuniões aconteciam nas grandes varandas envidraçadas da parte superior traseira do antigo casarão, que davam para o jardim do palácio. Dali entrevia-se, por debaixo das palmas altas, o mar do Flamengo e suas ondas, a bater contra a murada de pedra (gnaisses facoidais) que o separava da pista de rolamento e dos poucos automóveis que por ali transitavam. Também durante a presidência do General, participaram de algumas festas bem-comportadas, sem pompa nem circunstância, nos salões presidenciais. Não tiveram filhos e não se preocuparam em amealhar maior patrimônio. Viviam a vida sem pensar no futuro. Eram figuras conhecidas da vizinhança do casarão de Botafogo onde moravam, então o bairro mais nobre do Rio, principalmente quando, após o jantar que ocorria bem cedo, ainda na claridade dos dias de verão, davam uma volta pelo quarteirão fazendo o quilo de braços dados e finamente vestidos. Eram admirados e cumprimentados por todos, vizinhos, crianças e comerciantes. O marido, vítima da tuberculose – doença grave e mortal na época – morreu com pouco mais dos quarenta anos. Fumava. A vida em comum durara, se tanto, vinte gloriosos anos. A viúva não pôde mais manter o mesmo padrão de vida. Teve que deixar a casa ampla e bem mobiliada de Botafogo e se mudar para um pequeno e modesto apartamento de sala e quarto, de fundos, na Rua Buarque de Macedo, no Catete, a duas quadras do Palácio não mais utilizado pelos presidentes. O referido imóvel foi o único deixado pelo marido, além de algumas ações de empresas cotadas na Bolsa, cujos dividendos foram o meio de sustentação dela, enquanto duraram. A sólida empresa já havia se desmanchado no ar. Passou a viver, orgulhosamente, do passado, como a Viúva Pacheco d’Oliveira. Na medida em que ia envelhecendo mais se isolava. Não tínhamos notícia dela. Vivia reclusa recebendo diariamente, ao cair da tarde a lembrança de seu saudoso Alcides que lhe trazia sempre um agrado e quedava-se por lá até os alvores do outro dia. Isso lhe bastava. Conversava muito com o marido. Preparava alguma coisa para o jantar. Deitavam-se ainda conversando e trocando carícias e dormiam um sono reparador até quando ele se levantava, se compunha no seu terno escuro, colocava seu chapéu de feltro, ajeitava a gravata e beijava-lhe a testa. – “Até mais ver minha querida”, e saia acenando, ela a lhe mandar beijinhos pelo postigo da porta do apartamento. Vizinhos do mesmo andar testemunharam, várias vezes, essa última cena. Durante algum tempo ainda mantinha uma empregada diligente que lhe fazia o frugal almoço e o que sobrava ia para a grande ceia da noite quando, invariavelmente, recebia a visita do Seu (só seu) Alcides, tão logo se despedia da sua ajudante. Com a saída da empregada, as coisas se deterioraram. Minha mãe, preocupada com a falta de notícias, desobedeceu a proibição de procurá-la e fez-lhe uma visita. Não foi muito bem recebida. O ódio da sua família não esmorecera, sem nenhuma culpa da minha mãe. Assim mesmo, mamãe tentou colocar ordem naquele espaço e providenciar ajuda que se constituiu, entre outras coisas, em contratar nova empregada. Com a saída dessa moça incompetente e desumana, as coisas pioraram. Minha mãe falecera e eu, seu sobrinho, tomei a mim os cuidados para com tia Amélia, apesar de meus inúmeros compromissos e atividades profissionais, além da família que constituíra. Começou a infindável temporada dos hospitais para cuidar de enfermidades que se sucediam e, finalmente, veio a necessidade de colocá-la num asilo. Sua saída do apartamentinho foi tocante, pois ainda, diariamente vinha se encontrando com Seu Alcides, o último alento que tinha nessa vida já avançada. Nas primeiras horas da manhã do dia que foi transferida para a casa de repouso, a melhor que pude arranjar dentro das minhas possibilidades, ao nos dirigirmos para o elevador ela acenava pungentemente para seu grande amor que, por sua vez, lançava beijinhos, ainda encerrado no apartamento, com o rosto emoldurado pelo postigo da porta do velho apartamento, como chegou a me mostrar. Associou essa saída a uma nova expulsão de casa e a uma nova proibição para encontrar-se com Alcides, passando a me odiar e a me maltratar. O século XX estava terminando e tia Amélia também. Completou 100 anos pouco antes que o século gregoriano completasse o seu centenário. Nascera em 1900 e morreu dias antes do fim desse seu contemporâneo. No seu último dia de vida, recebeu no asilo a visita do seu querido Alcides que, desde sua saída do apartamento do Catete, não havia mais aparecido. Tia Amélia imputava-me as ausências dele, como se eu fosse a reencarnação do seu pai. Ele a despertou suavemente e ela, risonha, deu-lhe as boas-vindas. Levantou-se tão lépida quanto pôde, vestiu um quimono roto, deu o braço ao seu amado e saíram, sem serem impedidos, para dar uma volta no quarteirão, saudando a manhã e o que a aurora vinha trazendo com ela. Minha tia, centenária, trôpega, apoiada num guapo senhor na flor da idade dos seus quarenta e poucos anos. A morte congela, conserva.
Para Roldão Simas Filho que me deu o mote
Genserico Encarnação Júnior, 70 anos. Itapoã, Vila Velha (ES)
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