Jornalego
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ANO VIII - Nº. 241, em 20 de fevereiro de 2010.
Crônica MENSAGENS DO ALÉM
Sei lá se elas vêm do in ou do subconsciente, se originam no id ou do próprio ego, nesse caso se se trata do super ou do alter. Não sou versado nessas denominações psicanalíticas. Quero me referir a tudo aquilo que está além do racional que, vez por outra, escapole da mente sem querer, sem passar pelo crivo da censura racionalizante. Entendido? Pois bem! Dito isso, segurem esta: João quando fala de Pedro traz mais luz sobre João do que sobre Pedro. Fica como epígrafe desta crônica. Além dos sonhos e dos atos falhos, ou quando se está de porre ou chapado, a Internet é um excelente divã para que um sagaz observador das mensagens possa analisar os meandros das mentes de seus remetentes. Nada com muita profundidade é lógico, porque nós, os freudianos artesanais, não estamos preparados para tais mergulhos na alma alheia, apenas para uma análise perfunctória, como diria a madre superiora descendo os marmóreos degraus da escadaria do convento. Mas, realmente, as mensagens internéticas constituem um prato fundo para um psicanalista atento. Cada remetente tem o seu perfil mental estabelecido e é difícil que ele se transforme ao longo do tempo em que vem mandando suas mensagens. Comecemos com o mensageiro idealista, que eu associo muito ao religioso, aquele que idealiza a realidade, como aquela que atende a ele e às percepções humanas (antropocêntricas). A seguir vem a mente romântica, com aquelas mensagens melosas e melodiosas, geralmente compostas de belas paisagens e de flores maravilhosas e que, necessariamente, têm um belo pano de fundo musical romântico. Minha taxa de glicose atinge os píncaros. Por falar em música, os aficionados por música se especializam em enviar músicas de todos os tipos. Geralmente avisam: imperdível! Os piadistas nos enchem com algumas piadas boas e outras que eles julgam que sejam boas. Os pornográficos nos brindam com aquelas poses eróticas excelentes para o estudo da anatomia interna do corpo humano. Os aficionados do estilo autoajuda se amarram em mensagens edificantes, sempre acompanhados do seu testemunho: isso é uma verdade! Os hipocondríacos, com a advertência: não deixem de ler, discorrem sobre como a borra de café, ingerida no café da manhã (jogue fora o café) previne o câncer, como também sobre o afrodisíaco caldo de raspa de chifre de unicórnio, tomado ao deitar, bom para bem dormir ou para o bom desempenho nos embates noturnos mais violentos. Além dos alarmistas, ainda há aqueles que aconselham imperativamente: divulguem esta mensagem. Isso ocorre invariavelmente. Pelo remetente, pelo que vem anunciado no campo “assunto” da mensagem, a gente já prevê o conteúdo delas. Existem os politicamente preconceituosos que já vêm fichados na cabeça do destinatário, principalmente se esse é de outra facção ou de outro pensamento político, mandando mensagens que sempre têm os mesmos fins ingênuos, quais sejam, fazer a cabeça da rês tresmalhada da manada do bem (!). Entre eles, o que mais acontece é o achincalhe ao atual presidente ou à sua assídua companheira, a primeira dama. Quando chegam tais mensagens, pelo odor de enxofre que exalam impregnando minhas narinas, imediatamente aborto a recepção. Sendo eu eleitor do candidato vitorioso nas duas últimas eleições presidenciais, resolvi outro dia, enviar para um desses senhores da oposição difamatória, um ensaio de um dos intelectuais do PT, que nem por isso deixa de ser dissidente do atual governo, com críticas severas à condução dos trabalhos governamentais. Não sei se foi o caso de um artigo do sociólogo Francisco de Oliveira, respeitável intelectual presente nas primeiras horas de vida do referido partido, agora crítico feroz do governo. Se não foi ele foi outro articulista tão erudito e responsável quanto ele. Mas fixemo-nos no Chico de Oliveira, com desculpas por tamanha intimidade que ele nunca me concedeu, nem sequer me conhece. Ele, em suas críticas, está coberto de razão, na minha humilde avaliação. Contudo, exercícios intelectuais são extremamente válidos, mas quem governa o País é um político, que atua no campo do possível e não do ideal. Se o atual governo fizesse algo semelhante ao aconselhado pelo preclaro sociólogo, possivelmente teria o mesmo fim de um João Goulart ou de um Salvador Allende. Isso tudo para mostrar ao meu interlocutor internético que se ele quisesse criticar o governo, o tentasse fazer com críticas tão contundentes e tão bem fundamentadas como essas a que me referi do Chico Oliveira e não com gracinhas preconceituosas. Raramente, esses distribuidores de milhares de mensagens escrevem alguma coisa de sua lavra, encaminham e repassam mensagens recebidas, de muitas das quais, nota-se claramente, que o verdadeiro autor se esconde escandalosamente sob o nome de escritores festejados de nossa imprensa ou literatura. Detestável apropriação indébita de nomes famosos. Trata-se de uma fauna muito interessante que se entrega facilmente para o receptador das mensagens! Ah! E os representantes da linha-dura! Recentemente tenho recebido notícias de que o Brasil corre o perigo de trilhar o caminho do comunismo. Assim como alguns americanos acham que o Obama também quer implantar tal regime nos Estados Unidos. Finalmente, há aqueles que pensam que são escritores e pontualmente, regularmente, mandam seus belos escritos e opiniões aos coitados internautas. Estou me referindo, por exemplo, a mim mesmo. Já que estamos tratando de mensagens do in ou do subconsciente, permitam-me deitar nesse divã internético. Escrever e publicar (ou divulgar, como talvez seja mais correto no caso dos meus escritos) são duas faces de um mesmo céu/inferno em que vivem os escritores. A atividade de escrever pode ser comparada com a da concepção da vida (que é um ato difícil no caso de escrever), mas prazeroso para nós humanos. Terrível mesmo é a divulgação, essa é comparável ao parto natural. É aí que mora a angústia do escritor. Como os leitores receberão as histórias, as idéias e as mensagens explícitas ou implícitas dessas mal digitadas linhas? Como serão suas interpretações? Outro dia ao soltar um ensaio comentando parte do meu pensamento político, fiquei sem dormir a noite inteira, suando frio, porque sentira, abrira minha mente, talvez sem querer, na compulsão de escrever. Ainda bem que o pânico passou. Ainda bem que pouca gente me lê. Imaginem se eu abro totalmente os meus guardados segredos! Esses, nem às paredes confesso. É por isso que gosto de escrever ficção, sem me comprometer muito com a conjuntura. Apesar de, também no campo ficcional, o autor se revelar. Na maioria das vezes o leitor pensa que me baseio na realidade e geralmente se interroga ou me interroga sobre a identidade dos personagens. Ora, isso não existe. O que existe são situações e sentimentos. Os personagens são fictícios. Mas alguma coisa do autor está sempre presente. Já dizia Gustave Flaubert: “Madame Bovary c’est moi”. Enfim, a comunicação via e-mail é uma verdadeira janela (Windows) escancarada para o mundo, principalmente se você cai na rede, com um site ou coisa parecida, aí você está na crista da onda de um grande tsunami, totalmente exposto aos milhares de olhares indiscretos. A minha angústia, relatada linhas acima, se deu a partir de um problema técnico que aconteceu comigo, com o recebimento de mensagens contínuas do fabricante do software que estava sendo utilizado, que me impediu de continuar escrevendo. A sensação foi a de que estaria sendo espionado por alguém, pois a Internet estava ligada enquanto escrevia. Contornei o problema desligando a conexão. Um caso que me remeteu ao Big Brother, não ao da TV Globo, mas ao do romance “1984”, de George Orwell. Paranóia minha ou profecia dele? Só que, diferentemente do que conta o livro, onde a ação se passava numa ditadura comunista, atualmente pode estar acontecendo numa democracia capitalista.
Genserico Encarnação Júnior, 70 anos. Itapoã, Vila Velha (ES).
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