JORNALEGO
Nº 23,
em 10 de Dezembro de 2002.
Conto
FÊNIX
Mário Eugênio era
engenheiro de uma empresa estatal, localizada no Espírito Santo, tendo sido
demitido quando ela virou privada. Tinha muitos anos de casa e estava às
vésperas de sua aposentadoria. Agora é consultor autônomo onde emprega sua
experiência e competência ganhando em média o mesmo que percebe dos proventos da
aposentadoria, o que resulta em ter seus rendimentos dobrados. Isso sem contar a
bolada que recebeu quando da exoneração.
Com a vida mais
tranqüila, finanças folgadas e filhos emancipados, nosso personagem caiu de
amores por sua secretária. Uma morena de vinte e poucos anos, baiana de olhos
verdes, fogosa, cujos atrativos e atributos não-profissionais o leitor pode
muito bem imaginar, dispensando o autor do desfrute em descrevê-los.
Os encontros em motéis da
periferia e os amassos depois do expediente em pleno escritório não estavam
satisfazendo mais. Simulou uma viagem a São Paulo para visitar uma empresa
internacional de consultoria, muito conceituada na sua área de ação. Avisou a
Lucinda, sua mulher, que passaria uma semana fora, em viagem de negócios, em
conferências com a mencionada empresa, que ele muito bem representava no Estado.
Realmente zarpou, com a deliciosa Dorotéia, seu caso - no caso a secretária -
para uma circulada em Porto de Galinhas, no litoral pernambucano.
Foram dias maravilhosos
de sombra, água de coco fresca e muito amor. Sol, só mesmo a Dorotéia tomava
para realçar sua tez morena e o contraste com as marcas do biquíni, que
proporcionava ao nosso “latin lover” intenso tesão. Além do mais, não ficaria
bem se expor ao sol e voltar bronzeado de uma viagem de negócios à fria
Paulicéia. Alheio a tudo, não lia jornal e nem via televisão. Vivia da cama pra
mesa com fugidas à noite para bares, boates ou outros sítios do gênero.
Nesse ínterim, o diabo,
que anda sempre a vagar por aí aprontando das suas, soltou uma fagulha no
circuito elétrico do prédio que sediava a tal empresa paulista, iniciando um
incêndio catastrófico, com a demolição de alguns andares e provocando dezenas de
mortes. A cobertura jornalística foi completa. O trabalho dos bombeiros foi
demorado durando toda a semana sem se completar ao fim deste período.
Coitada da Lucinda!
Coitados dos filhos, dos parentes e amigos! Inconsoláveis passaram todos esses
dias a espera da notícia fatal, do reconhecimento do corpo do infeliz retirado
daquelas cinzas e escombros do prédio. Impossibilitada de viajar para São Paulo
por causa do seu estado lastimável, a esposa sofrida mandou um irmão acompanhar
os trabalhos de rescaldo dos desaparecidos. Seguramente lá estaria o marido, que
durante este tempo não dera notícias.
Passados os
sete dias, Lucinda mandou rezar uma missa pelo desaparecimento do marido,
infalivelmente morto no incêndio daquele edifício.
Coincidentemente, neste
mesmo dia, à mesma hora, nosso herói desembarca de sua viagem de férias no
aeroporto de Goiabeiras, em Vitória. Após colocar Dorotéia num táxi, telefona
para casa. Perguntando por Lucinda para pedir que viesse ao aeroporto lhe pegar,
foi informado pela empregada recentemente contratada que ela estava na missa, na
Santa Rita. Decidiu pegar um táxi e foi para lá encontrar a mulher.
Ao entrar na igreja e dar
os primeiros passos pela nave notou um certo burburinho enquanto caminhava,
seguido de algumas defecções dos fiéis pelas portas laterais à medida que
avançava à procura da mulher, sentada no primeiro banco junto aos filhos. Ao se
aproximar sorridente de Lucinda notou sua expressão de dor. Ato contínuo a
mulher desmaiou tombando ao chão.
O barulho no interior da
igreja cresceu e ele não entendia mais nada. Recolhendo a mulher do chão,
segurando-a nos braços, alvo dos olhares atônitos dos filhos, percebeu o padre,
aliás, cônego, seu contemporâneo do Colégio Salesiano, erguendo os braços e os
olhos às alturas, procurando o apoio divino no pé-direito alto da igreja a
balbuciar: “Vade retro”.
Sem desviar o olhar do
alto, persignou-se, incontinenti escafedeu-se para a sacristia e num átimo
evacuou-se do local.
Genserico
Encarnação Júnior
Itapoã,
Vila Velha (ES), outubro de 2002.
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