ANO VIII - Nº. 238, em 20 de janeiro de
2010.
Crônica
APOLÔNIO VOLTA
A ATACAR
Ele voltou com as baterias
carregadas, com as suas implicâncias de sempre. De vez em quando ele reaparece.
Nestes tempos bicudos, vem atravessando galhardamente a oitava década de uma
existência saudável. Faz tempo que se aposentou. Recentemente perdeu a
companheira de quase 50 anos de vida. Vive pulando de casa em casa, da de uma
das filhas para a de outra. A última temporada ele passou no Recife, ficou mais
de um ano por lá. Agora veio para cá, passar as festas de Natal e de Ano Novo
com a filha que mora aqui ao meu lado, vizinha de porta. De brincadeira, eu digo
que ele é meu vizinho de andar, seja por moramos no mesmo piso, seja por ele ser
meu companheiro de caminhadas no calçadão da praia. Voltou para compartilhar a
solidão da viuvez também comigo nos passeios peripatéticos nos finais das tardes
sem sol, sob a sombra dos altos prédios na orla marítima de Vila Velha.
É uma figuraça esse Apolônio! Já
registrei alguns dos seus pensamentos, quando da última vez que tive a
oportunidade de estar com ele, e ele com sua filha capixaba. Foi num desses
textos do JORNALEGO, entre os duzentos e poucos que compõem até agora o acervo
do meu site. Tentei encontrá-lo naquele turbilhão de personagens, opiniões,
causos e versos, sem sucesso. Onde anda o texto e o Apolônio, perdido naquela
imensidão de títulos e palavras? Se algum leitor o achar naquela barafunda (onde
está Wally?) favor me informar.
Pra início de conversa
confessou-me que nessas festas de final de ano ele teve que rezar como nunca, ou
pelo menos desde (e como faz tempo!) que se converteu ao ateísmo. No Natal, na
casa de sua filha, teve leitura de Bíblia, oração de mãos dadas e de olhos
fechados em volta da mesa da ceia e uma ligeira cantoria (“Segura na mão de Deus
e vai”). Ele embarcou! Depois foi na casa de um parente, na orla de Camburi, na
passagem do ano, mais orações, fogos de artifício e culto a Iemanjá com sete
pulinhos sobre as ondas do mar. Ele assistia incrédulo a essa miscelânea de fé
de pessoas tão crédulas. Em vista de sua apatia a essas exibições públicas de
crendice, teve gente que mandou ver em cima do velho um discurso apostólico
mostrando extrema compaixão por essa alma penada, sem formação espiritual e,
como disseram: ainda com tempo, irmão, para a revelação e a conversão, o que
urge, dada a proximidade de encarar o juízo do Senhor. Isso é uma praga?
perguntou ele.
Depois conversou comigo sobre a
pueril participação das multidões, ao redor do mundo pela passagem do novo ano.
Desde a Austrália, passando pelo Japão, China, chegando a Europa e depois ao
Brasil. Aquele deslumbramento das pessoas na tevê, tiritando sob o frio do
hemisfério norte, irmanadas para saudar a convencional badalada da meia-noite e
a cada espocar dos fogos de artifício soltar um sonoro e uníssono oh! de êxtase
e de admiração. Para culminar, o mundaréu de gente coalhando a Times Square de
Nova Iorque para ver aquela bolota descer escorregando e rodopiando por aquele
falo enorme erguido na cobertura de uma das monstruosidades de cimento e ferro
que delimitam a Broadway. Ora vejam só, como tem gente que se presta para isso!
O mais engraçado do Apolônio, é
que ele faz essas críticas, com um excelente humor, de cara séria, exalando um
leve ar escarninho, no que eu me poco de rir, como falam os capixas.
Comentei com ele que daqui da
minha varanda, no caminho da praia, na última noite do ano, é uma multidão que
chega, molha os pés na água do mar, enche a cara de cidra (e deixa a garrafa
vazia na areia) e volta pra casa logo que termina o brevíssimo, assim chamado,
espetáculo pirotécnico lá no fim da praia. São uns debilóides, Apolônio não
refresca, mata!
E os presentes? Confessou-me que
ganhou uma bermuda colorida (ainda bem que não foi daquelas estampadas que os
garotos usam agora na praia, sobre as quais ele se diz espantado com a
criatividade dos motivos desses calções imensos que chegam a cobrir parte das
canelas), tênis de grife recomendado para correr maratonas (!), e T shirts
também de grife com palavras em inglês de que ele diz não entender patavina. Do
curto ganho da aposentadoria teve que sacar muitos trocados para regalar filha,
genro, netos, parentes e amigos com lembrancinhas. Até eu entrei nessa, ganhei o
quinto livro (o primeiro de contos) do amazonense Milton Hatoum. Dei-lhe um
malbec argentino.
Apesar das críticas, ele é um
observador lúcido e culto, com definições bem precisas sobre tudo. Por exemplo,
só agora eu passei a compreender melhor o espírito do Natal. Segundo ele, o
Natal é o festejo de uma utopia da paz e da fartura, coisas incomuns nas vidas
dos seres humanos. Os votos de amor, felicidades, paz, prosperidade etc, aliados
aos presentes e à mesa farta por si só já denotariam essa ilusão. Sem
considerarmos os aspectos religiosos. Se a isso considerarmos que a festa
celebra a vinda de um filho de Deus ao nosso convívio humano, aí tá completo o
milagre do Natal.
Imagina o que tenho de aturar
doravante (é uma maneira de dizer, pois eu adoro os papos do Apolônio), já que
ele vai estender a presente temporada até Julho. Vamos passar pelo carnaval e já
vejo o meu amigo macróbio a esculhambar com as mesmices dos desfiles luxuosos
das escolas de samba, os gritos dos puxadores dos sambas-enredos, quase todos
iguais, e a profusão explícita de peitos e de bundas daquelas mulheres
exibicionistas.
Depois vem a época do coelhinho da
Páscoa. Esse roedor ovíparo sofre sempre com a língua ferina do Apolônio. Ele
não chega a criticar o significado religioso, implica é com o coelhinho
chocólatra, ou melhor, (ou pior?), chocolatólatra.
O dia das mães com sua volúpia
consumista não deve passar incólume. Mas a Copa do Mundo ele respeita, adora
futebol.
Trata-se de fato de um entranho
personagem esse Apolônio, com quem eu me identifico. Aliás, é o que sempre digo,
nós dois temos algo em comum: ele gosta de mim.