ANO VIII - Nº. 234, em 10 de dezembro de
2009.
Crônica
ÚLTIMA PAIXÃO
A inspiração
para escrever esta crônica me vem antes da última rodada do campeonato
brasileiro de futebol deste ano, quando, se vencer o Grêmio gaúcho, o Flamengo
poderá se tornar, pela sexta vez, campeão da primeira divisão. No entanto, na
data da divulgação deste número já saberei dos resultados dos jogos. Mas isso
não alterará o conteúdo do presente texto nem tampouco o seu propósito.
Sou flamenguista por
hereditariedade, desde criancinha. Meu pai xará me legou essa preferência
clubística.
Depois de
ultrapassar a barreira dos setenta, aposentado, sem compromissos profissionais,
políticos e de outras naturezas que não as familiares e as de amizade, estou
tentando me desvencilhar de todos os penduricalhos supérfluos, desnecessários a
uma vida saudável, no sentido lato do termo, tais como paixões, crenças,
idealismos, ideologias, mitos, ilusões e certezas. Até mesmo dos sentimentos
românticos. Penso estar isento desses alumbramentos amorosos.
A paixão é o câncer
dos sentimentos, a emoção desvairada, a razão de porre. A propósito, acho a
emoção um pobre sentimento humano, diante de outros píncaros de elevação
sensorial, como os de ordem intelectual ou mesmo erótica; droga, álcool e
religiosidade fora. Hoje, me emociono ao ler um discutível texto adocicado ou
ver uma imagem apelativa. Com duas doses de uísque, até o beijo ressuscitador do
príncipe encantado na Branca de Neve, envenenada por aquela bruxa malvada, me
faz carpir grossas lágrimas.
Tentar me
livrar das paixões e das emoções baratas é o que tento nesse período de
“desconstrução” que, em absoluto, não deve ser entendido como de destruição. O
ser humano não prescinde das ilusões, bem o sei. Que tal, para preencher esse
espaço, a arte: a literatura, o cinema ou a música, por exemplo?
Entre as paixões, a
do futebol. Vivi altos e baixos ao longo da preferência rubro-negra. Fui
fanático ouvindo os jogos pelo rádio, quando do segundo tri-campeonato carioca
em meados dos anos cinquenta, em plena adolescência. Depois, na continuação dos
estudos e na tentativa de afirmação profissional, relaxei um pouco; foi quando
comecei a julgar a paixão futebolística alienante. De fato é. Passa a ser o
centro da vida de algumas pessoas, não sobrando tempo para nada; vira religião,
fanatismo, o único assunto, o que é extremamente prejudicial a quem viaja por
essa vereda. Parafraseando Marx: o futebol torna-se, nesse caso, o ópio do
povo.
Lembro-me bem, ao
passar por Portugal, em 1975, logo após a Revolução dos Cravos quando ouvi, pelo
rádio, uma pregação do novo regime: “o povo tem que se libertar dos três Fs
– fado, Fátima e futebol”. Não conseguiram.
Veio o tri-tri
campeonato carioca e, logo depois, a brilhante conquista da taça Libertadores
das Américas (que bela homenagem a esses bravos homens!) e do Campeonato Mundial
de Clubes em 1981. Acordei às três da manhã para assistir na tevê o jogo em
Tóquio. Depois veio a época dos cinco campeonatos nacionais e o quarto
tri-campeonato regional com manifestações diferenciadas de minha parte:
ciclotímico, ora eufórico, ora guardando certa distância.
Passei um quarto de
século sem frequentar estádios de futebol por causa de demonstrações de
torcedores vândalos cujas presenças são tão comuns nesses locais.
Com a aposentadoria,
voltei a acompanhar religiosamente os jogos; torço, emociono-me, decepciono-me
com os reveses e sofro com algumas besteiras de jogadores e dirigentes; revejo
os gols depois dos jogos, volto a vê-los nos noticiários e caço sofregamente os
jornais impressos do dia seguinte para confirmar a vitória do Flamengo. O
penta-tri carioca pertence a essa época. Pura piração!
Agora chega de
paixões! Não que eu vá abdicar por torcer pelo Flamengo, absolutamente não! Mas
não mais os excessos de tais sentimentos. Toma tenência, coroa!
Bem, até o jogo
final. Respeitarei este texto seja qual for o resultado. Mas, como desejo o
hexa-campeonato! Penso no Maneco, um grande amigo que recentemente se foi,
vibraria se o Flamengo for campeão!
Esperemos
também tranquilamente a Copa do Mundo. Nada de grandes expectativas. Futebol é
jogo, “uma caixinha de surpresas”, e “um grande pote de ouro” para jogadores,
clubes, federações e cartolas, devidamente financiado pelo suado dinheirinho dos
torcedores. Vamos ver os jogos na África do Sul e nada dessa ansiedade louca,
patriotadas e que tais, que geram frustrações e alegrias efêmeras.