ANO VIII - Nº. 233, em 30 de novembro de
2009.
Fragmentos de um romance
inconcluso
CONTUS
INTERRUPTUS
Retornávamos de uma
balada com colegas e amigos de teatro, que conosco vieram do Rio, para passar
alguns dias numa praia, na terra natal de minha família. O baseado tinha corrido
solto, devidamente acompanhado com muita vodka. Eles ficaram por lá. Nós pegamos
a estrada e não sabemos como conseguimos chegar sãos e salvos à casa da minha
avó, a cinquenta quilômetros dali.
Eram cinco horas da
manhã, alguma claridade já afugentava a noite lá por trás do morro das antenas
de televisão. Entramos na casa aos trambolhões. Nosso “silêncio” acordou todo
mundo: a avó, a tia e os meus pais, que por lá estavam. Ouviram-se muxoxos e
resmungos nos seus quartos. Caímos de roupa e tudo numa cama do início do século
passado, de jacarandá maciço, de guardas altas, com a da cabeceira finamente
trabalhada. Nos vértices da cama existiam quatro hastes. As da cabeceira
encimadas por pequenas cubas, supostamente para aparar joias das mulheres. Para
parecer uma cama medieval só faltava que as hastes fossem mais altas e
suportassem uma armação de madeira ornamentada, forrada de tecidos, como um
dossel, de onde poderia pender um cortinado. Não tinha cortinado, mas mosquitos
os havia. Contudo, do jeito que estávamos mamados e chapados, não sentíamos
nada. Eles, os mosquitos, deveriam sentir.
Dos lados da cama,
dois criados-mudos altos, estilo antigo, da mesma madeira da cama. Na parte de
baixo deles, um pequeno compartimento, onde poderiam ser guardados sapatos, ou
quem sabe, os penicos e escarradeiras de antanho. Acima desse espaço, havia uma
parte aberta, sustentada por pequenas colunas finas muito bem trabalhadas,
talvez para livros de cabeceira. Mais acima, uma pequena gaveta. No ápice, um
tampo de mármore servia de aparo para copos, vasilhas etc.
O quarto,
numa casa antiga, de pé direito alto, tinha duas janelas altas, com vidraças,
venezianas e portas internas para se proteger da claridade matinal, as quais
chamávamos de “os escuros”. Um exemplar raro da arquitetura fin de siècle (le
XIXème), na velha cidade quatrocentona.
Fomos nos despindo,
passando do devagar ao rapidinho, à medida que o tesão ia aumentando. Depois de
nos beijarmos, tudo e todos, sentei Carla no meu colo e penetrei-a. Estávamos de
frente, um para o outro, ela virada para a guarda traseira e eu para a cabeceira
da cama.
Com os escuros
fechados, a luz estava acesa e a porta displicentemente encostada, sem tranca,
no desleixo em que chegamos. A “viagem” continuava. Transcorridos alguns
minutos, desviei meu olhar para a parede acima da cabeceira alta. Compondo o
ambiente, vi uma imagem de um homem seminu, esquálido, as costelas quase que
saltando da fina pele do peito, com uma coroa de espinhos no topo da cabeça meio
pendida, o corpo todo a sangrar, de braços abertos, sendo sacrificado, pés
superpostos presos com os mesmos imensos cravos que prendiam suas mãos e braços
a uma cruz. Uma visão lúgubre, mórbida, fúnebre! Ele me olhava fixamente com
olhos mortiços diretamente nos meus, presenciando aquela encenação toda.
Foi quando brochei
pela primeira vez. A primeira vez a gente nunca se esquece!
Carla não ligou, já
estava quase adormecida em meus braços, embalada pelos movimentos ritmados.
Larguei-a com
cuidado num lado da cama, cobri seu corpo com o único lençol disponível e
joguei-me ao lado dela, completamente nu.
Acordei apavorado
com alguém abrindo a porta do quarto. Era Sinhá Júlia, empregada octogenária,
agregada da casa há muito tempo que, por iniciativa própria, foi nos chamar para
que participássemos com a família do almoço. Já passava da uma hora da tarde.
Pulei em pé do lado da cama. Como ela notasse a minha nudez, puxei o lençol da
Carla cobrindo somente a frente do meu corpo. Para melhor esconder minhas
vergonhas virei-me de costas para ela. Conscientizando-me da besteira que
cometera voltei a cobrir a Carla. Diante dessa sucessão atrapalhada de pseudo
providências pudicas, novamente pelado, joguei-me ao chão e me enfiei debaixo da
cama.
De lá ouvi Sinhá
Júlia informar ao pessoal, sentado à mesa na sala contígua: “Os anjinhos ainda
dormem”.