JORNALEGO
Nº 22, em 30 de Novembro de
2002.
Artigo
OPERAÇÃO SEGURANÇA
Os militares, em
suas buscas na favela, encontraram várias crianças.
Uma delas, porém, menor de nove
anos, figurinha entroncada de atleta em embrião, face acobreada e olhos
escuríssimos e vivos, surpreendeu-os pelo desgarre e ardileza precoce. Respondia
entre baforadas fartas de fumo de um cigarro, que sugava com a bonomia
satisfeita de velho viciado. E as informações caíam, a fio, quase todas falsas,
denunciando astúcias de tratante consumado. Os inquiridores, registravam-nas
religiosamente. Falava uma criança. Num dado momento, porém, ao entrar um
soldado sobraçando a escopeta, a criança interrompeu a algaravia.
Observou, convicto, entre o espanto geral, que a escapeta não
prestava. Era uma arma à toa, merreca: fazia um zoadão danado, mas
não tinha força. Tomou-a; manejou-a com perícia de soldado pronto; e confessou,
ao cabo, que preferia a errequinze, uma arma massa.
Deram-lhe, então, uma AR-15. Desarticulou-lhe agilmente os fechos,
como se fosse aquilo um brinco infantil predileto.
Perguntaram-lhe se
havia atirado com ela, da favela.
Teve um sorriso de
superioridade adorável:
"E porque não? Pois se
havia zorra total!...Ia ficar paradão, como boi acuado, e
ficar dando moleza, quando a galera dava duro nos milicos?!"
Aquela criança era,
certo, um aleijão estupendo. Mas um ensinamento. Repontava, bandido feito, à
tona da luta, tendo sobre os ombros pequeninos um legado formidável de erros.
Nove anos de vida em que se adensavam três séculos de barbaria.
Decididamente era
indispensável que a Operação Segurança tivesse um objetivo
superior à função estúpida e bem pouco gloriosa de destruir um grupo na
favela. Havia um inimigo mais sério a combater, em guerra mais demorada
e digna. Toda aquela campanha seria um crime inútil e bárbaro, se não se
aproveitassem os caminhos abertos à artilharia para uma propaganda tenaz,
contínua e persistente, um programa, visando trazer para o
nosso tempo e incorporar à nossa existência aqueles rudes compatriotas
retardatários.
Mas sob a pressão de
dificuldades exigindo solução imediata e segura, não havia lugar para essas
visões longínquas do futuro
Obs.: Com as exceções do título e
das expressões em itálico, o texto acima é de autoria de Euclides da Cunha, em
"Os Sertões", narrando a campanha de Canudos. O lançamento do livro ocorreu em
Novembro de 1902, portanto há um século. Comemoremos o seu centenário!
In: "Os Sertões" - Ediouro/71280 -
Coleção Prestígio: Nova Fase da Luta - I - Queimadas - Outra Criança - página
215
Pelo achado, transcrição e
adaptação: Genserico Encarnação Jr.
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