JORNALEGO
ANO VIII - Nº. 225, em 30 de agosto de
2009.
Crônica-conto
O JOVEM QUE
QUERIA SER VELHO
Perguntaram-me, numa entrevista para o
Jornal do Diretório Acadêmico da Faculdade, sobre o exame vestibular a que
acabara de me submeter e em que fui classificado em primeiro lugar para o Curso
de Filosofia da Universidade Federal: qual seria o meu grande sonho na vida? De
imediato respondi: não trabalhar!
Elaborando melhor a minha resposta, assim,
nesses termos em que a entrevistadora me pedira, prossegui: meu grande desejo
seria viver sem trabalhar, sem compromissos empregatícios e nem depender do
exercício de atividade econômica lucrativa. Ter uma boa renda para não precisar
trabalhar. Não nutro sonhos egoístas, nem sequer mirabolantes sonhos altruístas;
não quero ser um grande político, um empresário de peso, um laureado escritor,
um artista de renome. Não tenho grandes projetos e nada espero da humanidade!
Sem meias palavras: eu não quero trabalhar. Prefiro ler meus livros e escrever
meus textos. Não pretendo viajar pelo mundo para conhecer outras gentes, lugares
e costumes. Minhas viagens são outras.
Não tenho invejados e invejáveis sonhos de
consumo: casas, carros, iates, restaurantes caros, mulheres caras, nem
caras-metades. Aliás, acho que ao homem certa dose de misoginia é altamente
recomendável. Gosto de coisas boas, mas passo muito bem sem elas.
Uma renda modesta que me fosse propiciada
pelos meus pais (impossível para uma família de classe média como a minha), quem
sabe uma boa herança (impossível pelas mesmas razões) ou uma boa aposentadoria
(impossível obtê-la, só daqui a mais de 35 anos de trabalho e de contribuições a
um bom plano de seguridade social); só assim poderia alcançar tal sonho.
Isso, se não ganhasse numa dessas loterias
estatais, nas quais jogo todas as semanas, apostando pouco. Não seria suficiente
fazer maiores apostas para melhorar as chances de sucesso. A probabilidade, por
maior que seja minha aposta, aumenta minimamente. A danada da sorte é que é
suficiente e mais do que necessária.
Ainda mais, gostaria de não ser eleitor, não
ter amante fixa, não ser motorista. Não ter compromissos com a reprodução da
vida. Não me move a necessidade de afirmação. De parecer. De aparecer.
Ler, ver, observar. Pagar meia-entrada nos
cinemas e teatros. Gratuidade nos transportes públicos urbanos. Preferência nas
filas. As opiniões, não mais as emitir. Omiti-las, é o que gostaria. Gosto de
escrever literatura, contos, romances, poesias tendo como tema a tragicomédia
humana. Me amarro em cinema.
Tudo isso sem esnobar a bela saúde que
tenho, é claro. Não fumo, não bebo, não cheiro. A morte deve ser boa. Chato é
morrer.
Como é belo o prazer intelectual de ouvir uma bela música
(não esses tum-tum-tum da juventude de hoje, nem essas musiquinhas vagas
e vazias consumidas avaramente por um mercado formado pela mídia); ver um filme
inteligente, ler um romance (clássico, de preferência; os atuais best sellers,
se e quando se tornarem clássicos, se ainda eu estiver vivo, lê-los-ei com muito
prazer)! Detesto a Internet de relacionamento, mas gosto de uma boa conversa e
prezo meus poucos amigos e familiares, desde que os use com moderação. Odeio a
moda e a publicidade.
“Chego a mudar de calçada quando aparece uma flor, e dou
risada do grande amor: mentira!” “Não preciso gozar para ser feliz!”
Adolescentes, crianças e animais domésticos, eu os aturo.
Detesto ”as ilusões da mocidade e os ridículos preconceitos dela”. Que me chamem
de velho, pessimista, não me importo. Velhaco é a vovozinha!
Como li num desses blogs da Internet e
acrescento outras pérolas, na mesma linha de raciocínio: repudio o romantismo
romântico. O idealismo idealista. O moralismo moralista. A sensibilidade
sensitiva. A saudade saudosista. A ideologia muito ideologizada.
Este o meu sonho do qual jamais queria
acordar.
-o-
– O que tu achas do pensamento desse jovem, pergunto eu, nobre leitor?
– Responde-me primeiro: o que achas tu, preclaro cronista?
– Bem, meu neto está sendo muito influenciado pelas conversas que tem
tido com o seu avô.
Citações (pela
ordem de entrada no texto): Chico Buarque (a primeira) e Choderlos de Laclos (as
demais).