JORNALEGO
ANO VIII - Nº. 223, em 20 de julho de
2009.
Crônica em mosaico
EPÍLOGO &
PRÓLOGO
Epílogo
Num texto transgressor nada
impede que o começo comece com o fim, pelo epílogo. A arte reproduz a vida. Vida
que vai. Vida que vem. Vida que se esvai. A roda roda. O de cima desce. O de
baixo sobe. Moto contínuo. Rotatividade. Sucessibilidade. Roda viva!
A crise no núcleo do sistema
capitalista levou à quebra da bolsa de Nova Iorque, à guerra quente, à guerra
fria, às ditaduras e a uma nova crise do capitalismo, agora globalizada na
quebradeira financeira. Testemunhei esse ciclo e as mudanças estruturais
decorrentes. O fim das experiências fascista e comunista. Industrialização
galopante. Urbanização desumana. Crescimento selvagem. Incorporação de novos
mercados consumidores. Comprometimento ambiental. Privilégios das classes
favorecidas. Avanço tecnológico. “Conquista” do espaço. Fecha-se um círculo.
Esse período foi de um tempo
maravilhoso na Terra Brasilis, para nós, quotistas privilegiados. Esse, o
meu tempo!
Veio o crepúsculo profissional,
a aposentadoria, a abstinência de discussões político-partidárias, o eleitor
facultativo, o motorista retirante. A velhice traz em seu bojo os déficits
físico e cognitivo. Foi-se o tempo dos amores, das paixões, das empolgações, das
viagens. A participação cede lugar à observação. A exacerbação, à serenidade,
não tão serena como se deseja. A análise cada vez mais crítica, mais cáustica.
Não ao romantismo romântico, ao idealismo idealista, ao moralismo moralista! Se
me faço entender. Viva o fino humor e a poesia espumante! Brut, s’il vous
plait.
Meu tempo foi. Vivo/viva seu
epílogo.
Mot de la fin:
Podeis passar, cedo meu lugar, o mundo é vosso, mas “dizei ao povo que fico”.
Prólogo
O começo após o fim em novo
recomeço. A roda a girar. O velho não morreu, e o novo já nasceu. É tempo de um
novo prólogo: prospectivo, especulativo. O que aconteceu aconteceu. O que será
será. Quem viver verá. O romance está sendo escrito.
É novo tempo de revolução
estrutural. Conservar privilégios ou revolucionar parâmetros, concepções, modos
de viver? Criar novos sistemas político-econômicos. Façam seu jogo, meus
senhores. Eu passo.
A crise do capitalismo
globalizado persiste. A catástrofe ambiental pende sobre nossas cabeças como uma
espada de Dâmocles. A desigualdade aumenta. A fome crônica persiste.
Como será a história de uma nova
era? Aproveitar as “riquezas da iniquidade” e romper a inércia desse movimento,
ou aproveitar a “iniquidade das riquezas” e surfar a mesma onda?
São inúmeras as investidas
reacionárias, na tentativa de manutenção do statu quo. No centro do
sistema, na capital do capitalismo, caiu o baluarte do atraso. Com a nova
administração, há uma esperança e um aceno de possibilidade de mudança.
Sutilíssimo, pisando ovos, evitando qualquer conotação socialista. Pode até ter
– e tem –, mas que não se use esse labéu. No Brasil aguarda-se a abertura da
urna de Pandora para o próximo ano. Com o quê o futuro nos acena: a volta ao
passado, das oligarquias, dos privilégios, do entreguismo, ou a caminhada rumo a
um país emergente, solidário, justo, democrático e sustentável?
É tempo de novo prólogo. Quiçá,
anunciando, verdadeiramente, um admirável mundo novo, onde o trabalho se ombreie
com o capital e não seja, jamais, o seu escravo.
Mot de la fin: Se
assim não for... ”Senhor leve-me enquanto sou anjo!”