ANO VIII - N° 220, em 10 de junho de 2009.
Conto
(palavrões ao final).
O PRISIONEIRO
DA VIGÍLIA
(Continuação do
Jornalego nº. 217: “O Prisioneiro do Sonho”)
Ao despertar, bem
humorado e refeito, do longo sono e do sonho embutido, banhar-se e tomar
gulosamente seu café da manhã, Jurandir confidenciou a sua companheira
Adelaide:
– Querida, vamos direto ao
ponto: fui demitido. Acredito que tenha sofrido um trauma com essa decisão dos
patrões, o que me deixou nocauteado durante dois dias e duas noites, dormindo e
sonhando sem parar.
– Daqui pra frente temos que
acordar para a realidade. Vamos deixar passar o sábado da aleluia e o domingo da
páscoa, passear um bocado com as crianças, aproveitar que a cidade está vazia.
Depois, agir; melhor: reagir.
Conversaram em paz,
enquanto as meninas ainda permaneciam na casa da avó, preparando o planejamento
para a semana entrante. Receber o FGTS, dar entrada no salário-desemprego,
procurar se reciclar na sua especialidade, atualizar o currículo e procurar novo
emprego. Paralelamente, dar um freio nas despesas domésticas, evitar o supérfluo
e, em último caso, vender o carro (um bem conservado Gol-97, adquirido de
segunda mão). Adelaide vai ter que pensar também em procurar uma fonte de renda,
com trabalhos caseiros ou um emprego fora de casa, para complementar o ganho
familiar. As crianças, felizmente, estão em escolas públicas. Manteriam o plano
de saúde enquanto pudessem.
A família passou um
belo fim de semana. Sábado foi dia para botar a cabeça em ordem e as conversas
em dia. Comunicaram às filhas o que tinha ocorrido e pediram cooperação. Elas
não tiveram exata compreensão do que se passava. Domingo pela manhã foram
passear no Parque do Ibirapuera; na volta a casa almoçaram frango com macarrão,
os adultos tomaram a cerveja e as filhas a Coca-Cola que sobreviviam em
hibernação na geladeira; à tarde, futebol na tevê; à noite, depois de assistir o
protocolar Fantástico, foram todos dormir.
Acordaram numa
segunda-feira de tempo claro e de temperatura agradável. Jurandir foi à Caixa
Econômica providenciar a retirada do FGTS e abrir uma Caderneta de Poupança com
o dinheiro. Primeira decepção: havia problemas com os depósitos que não estavam
sendo feitos regularmente pela empresa. Informaram-no do atraso dos últimos
meses nos depósitos devidos. Precisava regularizar isso junto ao empregador. Por
conseguinte teve problemas no seu pleito para se candidatar ao
seguro-desemprego, que vem a depender da correta escrituração daquele Fundo.
Xingou com todos os
xingamentos que conhecia a empresa que o empregava há tanto tempo. Partiu pra
cima dela para tentar corrigir o problema. – Estamos providenciando, dentro de
poucos dias tudo estará funcionando normalmente. Só haverá um probleminha
complementar: a necessidade de deixar transcorrer o presente trimestre
calendário para que a Caixa calcule os juros e a correção monetária. Só depois,
você estará apto a se inscrever e a receber o seguro-desemprego.
Apelou para a
Justiça de Pequenas Causas, deu entrada no seu requerimento e foi informado para
voltar depois de um mês. Não seria o caso de procurar o Procon, já que não se
tratava de um direito do consumidor. Achou irônico ter que se valer das
“pequenas causas”, quando para ele esse assunto era de crucial importância,
relacionado mesmo com a subsistência da família.
Os meses se
passaram, e nada foi resolvido. Quase um ano! Umas economias foram gastas num
curso de aprimoramento para operários na área de metalurgia, no Senai. O
sindicato não pôde cobrir os custos, porque ele estava devedor das mensalidades;
os pagamentos foram suspensos logo que deixou o emprego.
Aproxima-se o final
do conto. Por força de sua virulência verbal, o que já foi advertido no
cabeçalho desta peça, é conveniente evacuar a sala das crianças que, porventura,
ainda se encontrem por aí. Aconselha-se também aos que tiverem retinas mais
sensíveis que encerrem aqui esta leitura.
Jurandir não estava
mais sonhando: tinha que encarar a realidade; arranjou um emprego de vigia
noturno em um condomínio de luxo, com um salário equivalente a um terço do que
ganhava em sua colocação anterior. Em suas longas vigílias raciocinava sobre os
que pregavam os intelectuais do sindicato e do partido, sobre a falácia do
“sonho capitalista”. Ele o estava vivendo no corpo e na alma.
Recordando algumas
palestras, maldizia Marx por ter ensinado os segredos da história para os donos
do mundo, os primeiros a levar a sério a filosofia marxista e a reagir (eles, os
reacionários) com todas as forças, todas as armas, todas as teorias e
filosofias, todas as maracutaias, incluindo a eclosão da crise atual.
Que bela crise do
capital que só faz aumentar cada vez mais os seus ganhos sacrificando, isso sim,
o trabalho, o trabalhador, “a canalha”! Crise a aumentar e a espalhar o
espectro do desemprego, da pobreza, da miséria e do subdesenvolvimento por todo
o mundo.
As bolsas já
recuperaram as suas perdas, a atividade econômica está se reerguendo. Na sua
ex-empresa, já começaram a contratar outros empregados, mais novos, mais
capacitados tecnicamente e com menores salários. Nenhum dos que foram demitidos
foi reaproveitado. Aproveitar a experiência é balela, vale mesmo é ter menores
folhas de pagamento.
Em suma:
recomposição dos ganhos do capital ainda não realizados e geração de maiores
ganhos financeiros adicionais, com uma pequena ajuda estatal prestada
pelos solícitos governos. Quanto à renda do trabalho, com o concurso do
desemprego, foi e continuará sendo definitivamente aviltada.
Lembrou-se de um
filme político italiano que tinha assistido há anos no sindicato e,
retirando-lhe a ironia do título original, praguejou: “Neste regime, a classe
operária vai continuar mesmo é indo para os quintos do inferno.”
Na tradução não
literal do que Jurandir realmente praguejava em suas vigílias no exercício da
nova profissão, o autor tomou a liberdade de encerrar o seu conto da maneira
avisada de antemão.
– “Grandessíssimos filhos da
Thatcher: capitalistóides e neoliberalóides escatológicos (no sentido
coprológico do último termo).”
FIM