JORNALEGO
Nº
21, em 20 de Novembro de 2002.
Crônica
O MUNDO ENCANTADO DA LOUCURA
No princípio era o nada. Onde e quando não cabiam o princípio e o
nada.
No fim será o nada. Onde e
quando não caberão o fim e o nada.
No princípio, era o verbo? Ou
a reverberação da voz humana?
Entre o princípio e o fim o
que existe? O infinito? Como contê-lo, se infinito? O tempo? O tempo, o que é?
O que é, o que é? É ladrão de mulher! Hoje tem espetáculo. Tem palhaço no
picadeiro. O palhaço quem é?
O palhaço sou eu. Saco de pele com cobertura de cabelo. Encerrando vísceras,
ossos, carne, cartilagens, sangue, músculos, água... Saco esburacado de
entradas e saídas que captam imagens, sons, cheiros e onde se processam
instintos, desejos, sensações, sentimentos e raciocínios.
Ah! A razão! Fatídica causa
da tragicomédia humana!
Produz beleza e genialidade, numa visão narcisista, a própria imagem do
humano. A armadilha do antropocentrismo! O corpo humano é bonito para o corpo
humano. O gênio humano é genial para o gênio humano. A vida é bela!
A vida, outra tirada narcisista do ser humano. Produto de uma série de
acidentes cósmicos? Como um câncer a se propagar neste pequeno sítio deste mísero
sistema solar, perdido na imensidão de nossa galáxia entre tantas no universo.
Ou universos? A solidão cósmica!
O câncer avança construindo
e destruindo, partes integrantes do mesmo processo. Imagine o planeta antes do
ser humano. Dê um passo mais atrás, antes mesmo da vida. E depois desta
aventura? A mesma placidez de antes, na espera sem pressa do desaparecimento dos
vestígios vitais. Os viventes e a vida são incompatíveis com a eternidade
universal.
O universo, este oceano sideral sem porteira, esfinge indecifrável! O
macrocosmo incognoscível por mais que o desvendemos. O microcosmo que nos
revela da mesma matéria de uma ameba. Dá-me medo ver-me em nossos irmãos
gorilas, extasiar-me com estranhos seres submarinos, os insetos, os répteis, os
animais mastodônticos, nossos parentes muito próximos.
A formiga que estrebucha sob os meus dedos equivale à minha morte. É
indiferente no plano cósmico! A diferença é o passageiro sentimento de quem
continua vivo. O tempo de uma vida, o que é viver algumas dezenas de anos
diante da eternidade? O que é a eternidade?
A lucidez nos leva às raias da loucura. Tenho medo. O sono me vem cheio
de pesadelos. São monstros que me rondam, porque tento desvendá-los. Como são
felizes os irracionais! Eles não sabem o que fazem. Não temem a loucura.
Voei alto. Coloquei asas de cera e parti para a luz. Quis voar mais alto.
Não consigo. Estou caindo, caindo. Socorro!
Só o emplastro da fé me salva ao preço da alienação. Ajudem-me.
Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos! Mas isso não é uma solução, é um
palíndromo. Assim como se eu me chamasse Raimundo também não seria uma solução,
só uma rima drummondiana para um mundo kafkiano.
Não há momentos de maior aqueles do que os de principalmente! Louco
sim, nas retrincheiras, nas borboleteiras e nas reboleteiras do palhaço que
sou. E o palhaço o que é? É ladrão
de mulher. Hoje tem espetáculo! The
show must go on!
-
Professor, professor. Desculpe-me por interromper seus pensamentos. Está na
hora de sua conferência e o auditório está lotado, ansioso, aguardando-o.
Podemos ir?
Genserico
Encarnação Júnior
Itapoã,
Vila Velha (ES)
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