Jornalego
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ANO VII - N° 214, em 30 de março de 2009. Perfil
UM SUJEITO MUITO ESTRANHO Votou no Lula para Presidente da República oito vezes. Em cinco eleições, sendo três com dois turnos. Total: oito! Portanto, em todas as eleições presidenciais diretas realizadas nos 24 anos da redemocratização do País. – Que fixação é essa, votando num cara quase iletrado, aculturado, monoglota, sindicalista, retirante, tatibitate, feio, barbudo, orelhas mefistofélicas, que nunca tinha exercido o poder político e administrativo em nenhum nível de governo no país e que vai completar oito anos na Presidência? Como se explica essa preferência partindo de alguém que eu julgava razoavelmente inteligente? Apesar de dizer que não é mais eleitor, o PT não correspondeu às suas expectativas e, além do mais, passou da idade da obrigatoriedade, refuta quando, na tentativa de desqualificar a candidata precoce do Lula, alguém lhe faz notar que ela foi uma fora da lei no passado, assaltante de bancos. Para ele, isso apenas ilustra mais o currículo dela, dadas as condições em que praticava essas atividades terroristas. – Dá para compreender, defender uma meliante? Quanto a aversão de nosso personagem à religião, isso é sabidamente conhecido por quem o conhece minimamente, não vou me alongar. Teve boa educação religiosa, cursou colégio dos padres, nasceu no seio de família cristã. Hoje é avesso às religiões, todas. – Agora, cospe no prato em que um dia comeu. Tanto que investiram nele para boa formação cristã! Um infiel! Lamentável! Sua base de pensamento se funda nas ideias de Galileu, Darwin, Freud e Marx. É isso que diz. – Será que ele se aprofundou nas ideias desses senhores ou trata-se de simples conhecimento perfunctório? Será que ele desconhece que Marx “morreu” e foi enterrado sob as pedras do muro de Berlim? Mais interessante seria se ele tivesse seguido os ensinamentos de alguém que está faltando nessa galeria! O primeiro pela cronologia e pela importância. É favorável às políticas de afirmação, eufemismo, entre outras coisas, para a admissão de quotas para facilitar o ingresso de determinadas pessoas nas faculdades públicas. Defende quotas para negros, índios, pardos e alunos egressos de escolas públicas. Argumenta: se pregam a igualdade constitucional esquece-se da desigualdade histórica que sempre prevaleceu para os acima citados. Ademais, sustenta, todos nós nascidos de família de classe média alta usufruímos das quotas implícitas, seja pela condição econômica social de nossas famílias que nos permitiu uma boa educação e preparação para encarar a barreira do vestibular, seja também, por nos beneficiarmos de algum compadrismo e favores de pessoas influentes conhecidas. – Pensar assim constitui um atentado aos bons costumes e à ordem estabelecida! É contra a pena de morte e a comercialização de armas. A favor da descriminalização do aborto e das pesquisas com células-tronco embrionárias humanas. –Sempre com suas idéias polêmicas, só para aparecer e parecer moderninho! Sobre a problemática indígena é, em princípio ou por princípio, sempre a favor dos índios em questões de política, demarcação de terras, o que acha um avanço recente em nossa sociedade elitista e que não pode permitir retrocesso. Defende as comunidades quilombolas. Os sem-teto. Os sem-terra. Os destituídos sejam lá do que for. É a favor da Bolsa-Família, Merenda Escolar, Bolsa-Escola, Auxílio à Moradia para pessoas de baixa renda e um possível Imposto de Renda Negativo. Um direito e não um favor. Essas políticas são muito mais baratas do que as isenções fiscais, créditos subsidiados, doação de terrenos, incentivos empresariais de toda ordem difundidas a exaustão em nosso país. As quotas dos ricos. – Um inimigo do desenvolvimento econômico e do progresso. Por certo quer socializar a miséria. Igualdade para ele tem que ter bases históricas. As leis vigentes não são necessariamente justas porque elaboradas pelos atuais donos do poder. A luta pelos direitos humanos pode (e deve) extravasar os limites legais, para tomar as ruas e reclamar mudanças por vias extralegais, se for necessário. Para isso existiram, existem e sempre vão existir revoluções, rebeliões, movimentos de protestos e outras formas de pressão além dos parâmetros legais. A história está cheia desses exemplos. Caso contrário ela estagnaria. O mundo é dos fortes e destemidos e não dos acomodados. Paz social não tem nada a ver com quietismo social. – Um anarquista, um perturbador da ordem, pelo visto! O problema agrário no país é fruto de injustiças da sociedade patriarcal desde priscas eras e legislações complacentes, que beneficiaram senhores rurais, grileiros, invasores de terras indígenas e requerentes de terras públicas, protegidos que foram e que são pelos rigores da atual legislação. A situação, hoje, é diferente da de outrora, dada a maior pressão social decorrente do aumento da população. E requer mudanças profundas. – Entendimento muito radical do assunto! Nenhum partido político tem propostas estratégicas para o futuro do País. Só têm planos para galgar ao poder. É verdade que o Brasil e a América Latina não têm todos os graus de liberdade para a implementação de reformas estruturantes. A História mostra esses impasses com algumas quedas de governo. – Agora tira onda de cientista político! Suas teorias não deixam de ser, pelo menos, imaginativas. Para ele a revolução comunista foi provocada pela família imperial russa e a elite aristocrática que dominava o país. A revolução cubana foi fruto do regime de Fulgêncio Batista e do prostíbulo em que os americanos transformaram Havana. A situação atual na América do Sul é produto também das injustiças sociais praticadas pelos governos elitistas do passado, na Venezuela, Equador, Chile, Bolívia, Paraguai, Argentina e mesmo no Brasil. Não se esqueceu da Colômbia, acha que esse país está num estágio anterior às mudanças governamentais que estão se processando nos outros países desta parte do nosso continente. Aliás, também explica a ocorrência de movimentos guerrilheiros nesse último país e no México pelo que acontecia anteriormente. É verdade que, em cada um desses casos, surgiram lideranças diferenciadas e algumas até com comportamentos esquisitos. Até a direita voltou no Peru. Mas isso faz parte de um processo com seus inevitáveis acidentes de percurso. – Monumento de sofismas! Maniqueísmo! Pode convencer incautos. Acredita na integração dos países sul-americanos e no Mercosul. Não vê problema maior nos percalços atuais a serem ultrapassados, como foram na Europa, desde meados do século passado. O argumento de que nossas economias são mais precárias e desiguais, segundo ele, não procede, não invalida o processo integracionista. Citando Nelson Rodrigues, diz que temos complexo de vira-latas. – Ele é que tem complexo de sabichão! A propósito, acha que o terrorismo internacional e a violência urbana são frutos do statuo-quo, de situações insustentáveis cujos transbordamentos de tensões têm de vazar por algum lugar. No entanto, adverte: esse diagnóstico de viés sociológico não elimina as necessárias medidas repressivas e punitivas. – Ainda bem. Pensei que fosse partidário da liberação geral. Sobre a crise que ora se abate sobre o capitalismo financeiro internacional, acha-a perfeitamente condizente e inerente ao próprio regime capitalista que, vez por outras, resulta em acomodações em suas placas tectônicas para a realização de muitos lucros, seja durante o terremoto, seja na retirada dos escombros e na reconstrução. Na tentativa de escapar da crise, vive-se hoje um momento de socialismo para os ricos e de capitalismo para os pobres. Uma subversão dos valores sociais. –Será mesmo? Está forçando a barra com jogo de palavras e frase de efeito. Se o futuro será socialista, como dizem alguns, para ele depende de como as forças políticas da esquerda atuarão no cenário político internacional, pela representação democrática ou não. A crise está sendo tratada como um problema de ordem moral e ética, crise de valores, fruto da ganância. Esse diagnóstico contém uma parte da verdade, mas o tratamento não é por aí. O que está sendo prescrito é superficial e atua somente epidermicamente sobre as aparências: tratamento financeiro-monetário para um problema de ordem econômica bem mais profundo. Pode dar belas reportagens midiáticas, mas não resultará em mudanças radicais, o que urge ser feito. Aliás, todas as mazelas do mundo atual estão sendo tratadas assim, sem se aprofundar nos fundamentos econômicos, basicamente econômicos, que os provocam. A política é economia concentrada, alguém disse isso, disse-me ele. – Baixou seu espírito socialista-delirante! Um anacronismo. Como também seu pensamento econômico estruturalista, a criticar, como faziam anteriormente, a escola monetarista. Corremos o perigo de cair num sistema e regime piores do que esse que está em crise, se não soubermos tratar com seriedade o problema. Por exemplo, o sistema político americano não está habilitado e capacitado para tratar de assunto tão estrutural por não apresentar alternativa ao capitalismo liberal entre seus maiores partidos. Eles representam a mesma coisa sendo que de tempos em tempos se digladiam para ver quem toma o poder. – Isso é pura inveja do estilo de vida americano! – Enfim, um cara polêmico, muito esquisito. Definitivamente, muito estranho! Por essas e outras acho que dificilmente possa ser rotulado como ”do bem”!
Genserico Encarnação Júnior, 69. Itapoã, Vila Velha (ES).
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