ANO VII - N° 212, em 10 de março de 2009.
Alegoria épica
TEMA DE GAIA
Gênese
No início o Caos e a
paz do caos. Deu-se a vida: vegetal, animal. Organismos primários. Animais
marinhos, anfíbios, voadores e, finalmente, terrestres e mamíferos. O homem e a
mulher. A razão. O medo. A criação dos deuses à imagem e semelhança do ser
humano. As profundezas da mente. A consciência da morte.
Gaia
Nasceu saudável, cresceu e se
transformou numa linda menina. Um nome bonito, um tanto incomum: Gaia. A
inocência sofreu seus primeiros reveses quando a matricularam num internato
religioso, dirigido por irmãs de caridade não tão caridosas. Aprendeu uma porção
de coisas dispensáveis para o seu desenvolvimento físico, cultural e humano.
Mentiras, ilusões, fantasias, idealismos românticos, puros exercícios de
obscurantismo. E de poder. Mais: ser servil aos seus pais, aos mais velhos, aos
superiores, aos mestres e ao marido, única meta que lhe foi apresentada de plena
realização. Aprendeu a obedecer, sem nenhuma análise crítica, aos ensinamentos
recebidos como o primor da educação. Sua infelicidade decorria da aceitação
incontestada a tudo isso, sem decodificação. Ela acreditou sem jamais ousar que
poderia desacreditar!
Zeus
Chegava a orar várias vezes por
dia, ao amanhecer, às refeições, ao dormir e a toda hora em que se encontrava em
estado de inquietação. Orava e voltava a declamar suas orações na perspectiva de
que não tinham sido bem feitas, sem devoção, sem entrega. Não se despia para
tomar banho. O sono era fiscalizado por uma das muitas noviças, que se revezaram
nesse meritório mister. Foi batizada, crismada, fez a primeira comunhão,
inúmeras outras, retiros espirituais, casamento religioso sem conhecimento da
realidade conjugal e com medo de entregar a sua virgindade ao marido. Nove meses
depois teve o primeiro filho. Depois outro, outro e mais outro. Todos educados
sob rígida disciplina religiosa. O marido exercia o poder total, utilizando os
seus direitos preconizados pela religião e os bons costumes da sociedade
burguesa. “Ele é o homem, eu sou apenas uma mulher.”
Posídon
As suas leituras se restringiam
aos livros românticos e idealistas permitidos por seus superiores no colégio.
Depois da adolescência cederam lugar aos livros religiosos (a Bíblia) e, mais
recentemente, aos de autoajuda. O tempo de lazer, da faina de dona de casa,
passava-o a assistir a novelas televisivas. Seu mundo mudou quando um primo lhe
deu de presente, “num dia muito especial”, um livro de Flaubert, que sabia
proibido pela Igreja. Abriu-se-lhe um novo mundo! Nunca mais deixou de se
envolver com literatura. Leu Amado, Machado, Dumas, Proust e muitos mais.
Sua vida tornou-se inquietante,
desequilibrada entre a rigorosa disciplina que lhe impuseram e se impunha e a
realidade do que lia, sentia, via e vivia. Não mais compreendia sua cabeça, seus
sonhos, seus instintos, seu sexo, suas vontades, suas fantasias e, agora, o
pânico, a insegurança, as enxaquecas, os suores frios, os descontroles
emocionais. Muito menos entendia o marido e os filhos, esses em sua desenfreada
caminhada através da adolescência para o mundo futuro.
Fez ioga e, sem saber muito bem
como, se deitou no divã de um psicanalista. Foi ele que, no curso do tratamento,
lhe emprestou um livro de Freud. A partir daí começou a perceber seu mundo
profundo, os mistérios da mente e seus descompassos com a realidade aparente.
Mergulhou fundo nas profundezas de seu ser. No cavernoso mundo subconsciente e
nos mistérios da mente. Não chegou a abandonar a religião, mas suas convicções
se relaxaram; não se separou do marido, mas criou seu espaço, principalmente
interior; não se curou, mas o melhor conhecimento das coisas, a verdade (aqui
tida somente como a negação da mentira) lhe fez muito bem. Passou a viver mais
feliz, a melhor entender a vida, sem a pretensão de explicá-la totalmente. Muita
coisa que a atormentava anteriormente agora se fazia mais aceitável e palatável,
sem os rigores do pensamento acrítico. Rebelou-se. Libertou-se. Emancipou-se.
Não totalmente, ainda lhe restavam alguns grilhões do tempo da dominação.
Hades
A vida depois da vida é criação
humana que tenta aliviar a dor da morte. O incréu vai ter uma grande surpresa
(boa ou má) se estiver errado em suas convicções. O crente, nesse caso, nada.
Assim pensava Gaia e conjeturava: como encarar a morte? Talvez os mais
intelectualizados e cultos, entre eles os mais céticos e corajosos, não lutassem
contra o inevitável. Deixar-se-iam morrer, simplesmente. Na doença optariam pela
ortotanásia, quem sabe até pela eutanásia. Na Suíça, já existe o suicídio
assistido em clínica especializada e legalizada. Talvez caminhemos para isso.
Quando, já em idade provecta, a
doença a pegou, esqueceu todas as teorias. Lutou galhardamente pela sobrevida ou
pela cura. Teve sucesso. Viveu bem durante anos. A medicina posterga a morte e
cobra a conta. Lembrou-se de Santo Agostinho: “A vida é mortal, a morte é
vital”. Belo e lúcido jogo de palavras.
Gaia passou a viver mais feliz
consciente do ciclo da vida, assumiu seus cabelos brancos, rugas e manchas senis
na pele. Mais tarde a idade lhe pesou mais. As pernas, inicialmente. A mente. O
corpo inteiro, por fim.
Apocalipse
O ser humano
encheu-se de conhecimento, deu à luz avançadas tecnologias e técnicas, sistemas
políticos e econômicos, todos exploradores, predatórios e destruidores da
natureza, agressivos ao seu habitat e à vida. Gaia fenece e falece. Fecha-se o
círculo vicioso. Ao fim, o retorno à paz do caos.
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P.S. do autor: Em interação com um leitor atento ele
me fez ver que eu não deveria terminar o texto acima sugerindo o falecimento de
Gaia (a Terra). Adverte-me que o falecimento será da vida na face da Terra e não
da Terra, na alegoria representada por Gaia (a mulher personagem). Achei
perfeita a colocação. Por mais que esteja consciente da armadilha do pensamento
antropocêntrico (o homem como o centro do Universo) e queira dele escapar, o
entendimento humano está impregnado desse engano. Tanto é que fiz a confusão do
desaparecimento do ser humano (e da vida em geral) com o planeta Terra.