JORNALEGO
ANO VII - Nº. 205, em 10 de
dezembro de 2008.
Conto/crônica
ASSIM SE PASSARAM OS ANOS
No dia
08-08-88, quando se aproximava o fim do último ano
do ensino médio, numa festa de aniversário de um dos colegas do colégio que
reuniu toda a galera, surgiu a brilhante idéia de se reunirem vinte anos depois,
no dia
08-08-08. Os algarismos repetidos se prestaram à concepção do plano. É lógico
que, por mais que acreditassem na evolução da medicina, não ousariam esperar
para se encontrarem na repetição da mesma data de 08-08-88, cem anos depois.
Mesmo sem os dois algarismos dobrados que costumam identificar o ano do século
em curso, admitiu-se que a existência do zero antes do oito final em nada
diminuía o simbolismo da data. Foi assim que acertaram o novo encontro em 2008.
O algarismo oito simboliza o número da sorte
na milenar cultura chinesa. Tanto é assim que, também no dia 08-08-08, às 8
horas e 8 minutos, na mesma hora em que começava a dita reunião, respeitada a
diferença dos fusos horários, foram inauguradas as olimpíadas de Pequim. Ah! A
humana necessidade de ilusão.
Viviam a expectativa do final do curso, no
esplendor, na média de idade da turma, dos 17 anos, todos visando à
Universidade, ao sucesso na carreira, a grandes amores e a felicidades eternas,
no início da contagem regressiva para a chegada do terceiro milênio.
Adolescentes em final da adolescência, de família de classe média alta, zona sul
do Rio de Janeiro, estudantes em colégio particular bem conceituado na cidade.
À época desses anos dourados, João amava
Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que
amava Carlos Drummond de Andrade.
Assim se passaram os anos. Reuniram-se
transcorridos dois decênios. Descobri, folheando o Houaiss, que década é o
conjunto de dez entidades, seres, objetos etc. de igual natureza. Pode ser um
decêndio (uma década de dias) ou decênio (uma década de anos). Pode ser até dez
ave-marias (uma década de ave-marias)! Jornalego também é cultura, pois não?
Das três décadas (!) de alunos de então
compareceram vinte e três. Bom quórum!
João casou com Maria. Teresa e seu
companheiro violão fazem parte de uma orquestra de mulheres. Raimundo morreu de
aids. Joaquim trabalha na China depois de dois casamentos desfeitos e dois
filhos feitos, dos quais tem saudades dilacerantes (casamentos se desfazem;
filhos não se podem destê-los, dizia um amigo). Mesmo assim ele
compareceu ao evento. Lili, cronista consagrada nas páginas do segundo caderno
de um grande jornal carioca, deu-me o mote desta historinha. Achou-se muito
comprometida para escrever sobre o assunto.
Assim mesmo, como na continuação do poema, a
vida foi levando a vida de cada qual. Na reunião de agosto passado,
inteiraram-se da vida de cada quem, os paradeiros, as situações profissionais.
Só dois morreram; do Raimundo já comentei. Dos outros ausentes todos estavam
residindo em outras plagas, a maioria no exterior, razão por que faltaram, com
exceção do Joaquim, ao qual já me referi. Os demais moram nos Estados Unidos e
no oeste europeu: circuito Elizabeth Arden. Até João e Maria, que vivem nos
confins do Brasil, deixaram os filhos por lá e compareceram entusiasmados,
únicos personagens do poema a se unirem, descumprindo os vaticínios do vate (vatecínios?).
Quem mais me levou a escrever esta crônica
foi a sorte (se posso assim chamar) do Jean Marc. Filho de pais suíços, nascido
brasileiro de nacionalidade brasileira. Primeiro aluno da classe durante todo o
período escolar, muito inteligente, também falecera precocemente. Bacharelou-se
em Economia, fez Mestrado, Doutorado e coisas que tais, fora para os Estados
Unidos, viajava pelo mundo globalizado, entre desenvolvidos e emergentes, ganhou
muito dinheiro no mercado financeiro, como alto executivo de grande grupo
financeiro. Rico e bonito se matou com um tiro, na pérgula de sua piscina, na
presença dos filhos, ao lado da mulher mais linda do mundo, que o amava
profundamente.
“Há uma capacidade para o apetite que nem
mesmo todo o céu e a terra feitos de bolo podem saciar”. Foi o primeiro sintoma
da crise financeira internacional que, até então, “não tinha entrado na
história”.
Comecei e finalizei com Drummond, passando
por Steinbeck para contar a singela história que a Lili me contou. Nada disso,
portanto, aconteceu. Precisamente assim, particularmente com ninguém. Isso só
acontece com “todo mundo”, um personagem que não tem nada a ver conosco nem com
quem quer que seja.
A gente se vê em 08-08-28!