JORNALEGO
ANO VII - Nº. 204, em 30 de
outubro de 2008.
Crônica
HUMANO,
DEMASIADO HUMANO (*)
O corpo humano é de uma arquitetura complexa e fascinante que
chega a deslumbrar-nos, a emocionar-nos e, por vezes, a emburrecer-nos.
Recentemente visitei, no Rio de Janeiro, a exposição CORPO
HUMANO Real e Fascinante, que vem correndo mundo, talvez, sem aportar em alguns
países onde predomina o fundamentalismo religioso.
Trata-se da exposição de corpos humanos reais, isto é, de
cadáveres, que passam por um processo de conservação e são dissecados com tal
detalhe que permitem a observação de todos os órgãos e sistemas que os compõem,
tudo detidamente exposto, com preocupação didática, sem visão romântica,
idealista, religiosa e, o que é melhor, sem morbidez.
Alguns corpos foram seccionados em dezenas de partes pequenas
para a observação do interior de cada uma das seções, dos pés à cabeça. Numa
outra mostra, um “manequim” é cortado em diversas alturas (cérebro, tórax,
abdome, pernas, braços etc.), abrindo “janelas” na pele e na carne para permitir
a visão dos órgãos internos em seus respectivos lugares ao longo do corpo.
Sensacional! Além de ser uma exposição com claro viés
artístico, sai-se dela com melhor compreensão do funcionamento do organismo
humano, masculino e feminino, seus órgãos reprodutores, fetos em evolução etc.
Mas o que mais me tocou não estava ali exposto. Foi o que a partir do que vi
pude elucubrar.
Eram corpos desabitados de gente, sem vida, sem pensamento,
sem alma. Isso se esvaiu quando faleceu o funcionamento dos organismos. O
software não acontece sem o concurso do hardware (também quando em
funcionamento).
No que pensei? Por exemplo: só a evolução da natureza em
milhões e milhões de anos, desde as formas mais primitivas de vida no planeta,
poderia chegar a um organismo tão complexo, mecânica, física e quimicamente, sem
se falar no intangível da mente humana. É inconcebível o design
inteligente de uma mente superior; sem eufemismos: de um Deus. Só a evolução
natural do Universo e, no caso específico, do nosso Planeta, para se chegar
aonde se chegou. Sem falar nas intermináveis espécies de animais, vegetais,
minerais e tudo que nos cerca no Cosmos. Macroscópico e microscópico. Os grandes
corpos e elementos subatômicos.
A vida é um grande mistério neste nosso planeta. Fala-se da
impossibilidade de ela ter-se limitado somente à Terra. Por que não existiria
vida em outros planetas? Por que a exclusividade terrena? Quem assim pensa
admite que a vida seja um fenômeno extremamente maravilhoso, no sentido de ser a
joia da coroa do Universo. E se não for? E se a vida se constituir num mero
acidente físico-químico que somente ocorreu na Terra pelas condições
particularíssimas do nosso planeta? Ela poderia até ser pensada como uma praga,
uma doença do planeta. O pensamento que privilegia a vida acima de tudo é uma
visão antropomórfica ou centrada na concepção humana de que nós somos dotados.
Por que não haveria condições de vida em outros planetas?
Pode muito bem haver. Contudo ainda não tivemos conhecimento dessas condições e
de vidas alienígenas. Importante: essas vidas, se existem, podem estar em
estágios diferentes das nossas, atrasados ou adiantados. Elas também podem ter
ocorrido há milhões de anos-luzes antes da nossa era ou poderão vir a acontecer
em milhões de anos-luzes após a nossa existência.
Ademais, o que pensar e dizer sobre o tempo de existência da
vida, individual ou não. A duração de todas as formas de vida no planeta ou o
lapso da existência do gênero humano.
Não me contento com os ensinamentos religiosos e fantasiosos
que são incutidos nas pessoas desde criancinhas, e que para a maioria delas
perdura por toda a vida. Desde o Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa, passando
pela Cegonha, a criação do mundo, do homem e da mulher, até a existência do
plano sobrenatural e do plano divino.
Até que simpatizo com a figura do velhinho de barbas brancas
e indumentária vermelha de inverno, conduzido em seu trenó puxado por renas de
chifres esgalhados. O Coelhinho de Páscoa também me é simpático. Antipatizo com
o festival de consumo criado e incrementado pelo comércio, para acompanhar as
datas religiosas quando esses entes imaginários são chamados para serem
promotores de vendas. Mas não tem problema, as crianças são crianças, mas não
são burras. Ali por volta dos oito anos elas começam a desconfiar e descobrir o
engodo, enfim, a desiludir-se.
A Cegonha está sendo desmoralizada. A educação moderna já faz
com que as crianças, em tenra idade, já saibam de onde vêm os bebês.
Inicialmente se contentam com as explicações simples que vão sendo mais
detalhadas à medida que elas crescem e se desenvolvem mentalmente.
O que perdura para sempre, quase sempre, são as histórias e
previsões fantasiosas da criação do mundo e de planos sobrenaturais e divinos.
Esses ficam incrustados por toda uma vida nas mentes das pessoas, principalmente
pela cultura dominante e pelo medo da morte.
Por falar nessa senhora, li numa resenha literária uma
referência a um livro infantil, que, segundo o que dizia, objetivava explicar a
morte às crianças, por meio das mortes dos animais de estimação. Procurei esse
livro, talvez para presentear aos meus netos mais jovens. Li rapidamente o
conteúdo. Não gostei do final. Não o comprei.
Uma menininha passeava com uma bolsa, de cenho fechado a se
perguntar: “Mas por quê?”. Esse é o título do livro de autoria de Peter Schössow
(Cosac & Naify). A pergunta se devia à morte de um passarinho de estimação de
nome Elvis, cujo corpo inerte carregava na bolsa. Uma família solícita se
solidarizou com a tristeza da garotinha e providenciou um funeral digno de tão
querido animal. Só não gostei do final, quando o autor diz da possibilidade de o
passarinho se encontrar com o seu xará num plano espiritual, cantando em dueto.
Na minha visão, ele poderia poetizar e falar da saudade, da memória do amigo que
se foi, da transcendência que isso representa (lógico que ela não ia compreender
o complexo significado dessa palavra, teria que ser colocado de outra forma) e
mais: da efemeridade da vida (também nesse particular, o escritor, que deve ser
afeito à literatura infantil, iria encontrar as palavras adequadas). Depois de
ler o livrinho, disse à vendedora que não tinha gostado do final. Quando saí da
livraria, ela estava a lê-lo e, possivelmente, criticaria o velho leitor, dado
que o desfecho é tão “emocionante”.
Acercar-se da verdade é sempre mais leve e menos cruel do que
da mentira. A procura da verdade nos fortalece e liberta, a mentira nos emascula
e nos escraviza a alguém ou a alguma idéia. Para complicar mais a coisa: como
encontrar o oráculo onde mora a verdade?
(*) Nietzsche.