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JORNALEGO ANO VII - Nº. 201, em 20 de setembro de 2008. Opinião
¿POR QUÉ NO HABLAR?
¿Por qué no te callas? Perguntou o rei grandalhão ao grandalhão presidente. Falava o Primeiro-Ministro da Espanha quando o Presidente da Venezuela, falastrão como ele só, interveio, criticando a atuação do país ibérico em atividades econômicas e políticas na América Latina. Isso se deu numa Cúpula dos Países Ibero-Americanos em Santiago do Chile, no ano passado. A mídia achou uma grande notícia a ser veiculada, aproveitando para espinafrar o Presidente latino e enaltecer a postura real pela reprimenda ao seu colega plebeu, Chefe de Estado de uma republiqueta tropical, ex-colônia de España patrícia. Recentemente houve um novo encontro dos dois grandalhões e aproveitaram a oportunidade para trocarem de bem. Afinal, ficava feio, para o interesse de ambas as partes, ignorar um ao outro, tamanhos os seus tamanhos. A meu ver, naquele encontro no Chile, o rei estava sobrando. Ali se sentavam os legítimos representantes dos povos ibero-americanos, eleitos pelo voto popular e não tinha lugar para cabeças coroadas. A não ser, como efetivamente se deu, só para enfeitar o ambiente com uma presença monárquica. O rei deveria conhecer o seu lugar! Achei uma petulância a real reprimenda pública ao presidente da Venezuela que, por sua vez, deveria se conter e deixar o representante espanhol vender o seu peixe na esperança de novas e ricas pescarias em suas ex-colônias. Esperasse a sua hora. A mídia exultou. Os sem-opinião própria, repetidores de tudo quanto lêem nas revistinhas semanais, ótimas para o bom funcionamento dos intestinos, soltaram suas sonoras gargalhadas. Por que essa presença e atitude reais e suas conseqüências estão sendo tão criticadas agora por este jornalista artesanal? Vamos ao cerne dessa antipatia. A antiga monarquia espanhola ruiu de podre, como também outros reinados, tal como a de seu vizinho Portugal, e de tantos outros feudos monárquicos na Europa e alhures. No entanto, a República que a sucedeu também não se sustentou. Veio a guerra civil, fratricida, que colocou, durante três longos anos, cidadãos de um mesmo país se digladiando, se matando, se violentando brutalmente, num exercício de esquentar músculos, com o concurso de forças estrangeiras, para o embate da Segunda Guerra Mundial. A facção vitoriosa, a dos monarquistas, contra os legalistas e republicanos, chefiada pelo Generalíssimo Franco assomou ao poder, criando uma das mais vergonhosas e atrasadas ditaduras modernas que durou aproximadamente 40 anos, fazendo parelha com o vizinho Salazar, de Portugal. A carta do baralho que estava escondida na manga do Ditador para resolver a sua sucessão foi a volta da monarquia ao país. Franco chamou para ocupar os seus palácios e sua realeza, às vésperas de sua morte, o herdeiro da coroa defenestrada no início do século (o neto do rei Afonso 13, este exilado e morto na Inglaterra), o não-tão-mais-infante Juan Carlos, nascido na Itália, e o entronizou, pleonasticamente, no trono da Espanha, seguido do imponente número romano “I”. Por que não chamou antes? Somente o fez passadas quatro décadas de seu discricionário poder. Portanto, trata-se de uma monarquia que renasceu no ventre de uma ditadura. Seguiu-se uma concertação de interesses, conhecida como Pacto de Moncloa, dando origem à nova constituição política da Espanha. Ele, o novo rei, parece que se saiu a contento no acerto das partes, fazendo com isso, acredito, que o povo espanhol o aceite, com as exceções de praxe (bascos, catalães et caterva). Concorreu para isso a inclusão do país no seio da Comunidade Européia que, de tão boa que é, até consertou Portugal. Portanto, que façam bom uso de seu rei! Mas nos livre dele, aqui em terras ultramarinas e do mal. Amém. Voltemos o foco agora para o grandalhão venezuelano. Vou me ater a uma única de suas iniciativas. Não vou discutir o seu governo, sua revolução bolivariana e sua ligação com grupos armados em outros países. Nem seu estilo boquirroto. Trata-se da criação da Petrocaribe, uma iniciativa do Chávez, criada em 2005, para propiciar aos pequenos países da região a compra de petróleo da Venezuela em condições de preços e pagamentos preferenciais. Admite-se, para cada país, a compra de 185 mil barris diários de óleo, com financiamento de 25 anos e juros de 1% a.a., podendo ter como contrapartida produtos agrícolas locais. O estabelecimento dos negócios se faz somente entre empresas estatais dos países compradores, sem interferência de intermediários. Não se admite a participação das grandes empresas internacionais de petróleo que, nunca em sua história, deram milho aos pintos. Tais países são: Antigua e Barbuda, Bahamas, Belize, Cuba, Dominica, República Dominicana, Granada, Guyana, Jamaica, Nicarágua, Suriname, Santa Lúcia, St. Kitts & Nevis, Saint Vincent e Granadines. Barbados e Trinidad/Tobago não assinaram o tratado, possivelmente por contarem com alguma produção própria de petróleo ou por almejarem um dia tê-la. O Haiti não foi convidado. Logicamente que essa iniciativa está eivada de objetivos políticos. Ela vem sendo severamente criticada pelos meios de comunicação, principalmente dos americanos. Mas aqui está uma iniciativa que nunca foi realizada por companhias de petróleo. Só teve paralelo com a venda de óleo a preços e condições favorecidos aos países satélites da antiga União Soviética. Isso é bom ou mau? Deve conter as duas faces da moeda. Isso tem semelhança com o princípio das quotas instituído no Brasil. Sou favorável a esse tipo de atitude. Devem-se proteger os infantes e os pobres, entre outros. O problema maior de tais iniciativas é como sair delas, isto é, se elas, no seu bojo, permitem aos agraciados andarem, um dia, com seus próprios pés e não se acostumarem com esse tipo de regalos, se é que realmente são regalos. Está aí essa experiência, que passou despercebida pela grande imprensa, para ser analisada, conferida, elogiada ou criticada. Eu também não tenho do alto de minha inércia profissional e técnica, os melhores meios para aferi-la. Contudo tenho certeza de que bandidos piores do que Chávez, como o pintam os meios de comunicação da burguesia americana (do norte e do sul), são os bandidos da indústria internacional do petróleo, da globalização financeira, da máfia globalizada, dos exércitos mercenários, acobertados pelos governos dos maiorais do planeta e pelos mantos purpúreos de monarquias ainda não-extintas. Na comparação dos sangues-azuis com os plebeus, a minha preferência, por princípio e em princípio, sempre vai para os últimos, principalmente quando eu vejo os primeiros acobertarem empreendimentos, a exemplo de alguns sabidamente discutíveis do também discutível empresário espanhol Chico Recarey aqui no Brasil. Quando suas majestades, o rei e a rainha de Espanha, estiveram aqui no Brasil, abrilhantaram com suas presenças a inauguração da casa de shows daquele señor, a Asa Branca, no Largo da Lapa, no Rio de Janeiro. Aliás, para aquele tipo de objetivo da Petrocaribe é que foram criados a Petrobrás (com acento) e o monopólio estatal do petróleo aqui em nosso país, há cinqüenta anos. Para que, sendo produtor de seu petróleo e de seus derivados, incentivando a engenharia e a tecnologia nacional em seu entorno, o povo brasileiro usufruísse dos seus benefícios, sem os altos e baixos do mercado internacional do petróleo, produtos de guerras e especulações. Com o advento do governo neoliberal do PSDB/PFL e da abertura de nossa indústria para os estrangeiros, essa estratégia foi abandonada. Atentem que nosso projeto, abortado pelo neoliberalismo, seria realizado dentro de um mesmo país, de dimensões continentais, e não num agrupamento de países, como é o caso da Petrocaribe. A esperança é de que a descoberta das grandes reservas do pré-sal possa colocar o trem de nossa indústria petroleira nos bons trilhos outra vez, com um novo marco regulatório: servir ao país e a seu povo e não aos grandes interesses internacionais e à Petrobras (sem acento). Imaginem: com a compra de um lote de ações da Petrobras na Bolsa de Nova Iorque, um estrangeiro passa a ser dono de uma parte correspondente das reservas do pré-sal descobertas pela Empresa brasileira. Tem graça?! Que as empresas internacionais sejam contratadas para a operacionalização da produção, que vendam ou desenvolvam conosco novas tecnologias, que financiem as atividades, mas o “petróleo é nosso”! Mirem o exemplo do Estado do Espírito Santo e seu desenvolvimento de fachada. Aqui, onde foram descobertos grandes campos de petróleo e gás, ficaremos somente com o pum dessa produção, os royalties, embora bem mais cheirosos do que o pum da exportação de minério de ferro, o pum da siderurgia, o pum da celulose e o pum da pelotização. O grande pum da poluição ambiental que a todos nos emporcalha.
Genserico Encarnação Júnior, 69. Itapoã, Vila Velha (ES).
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