Jornalego
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JORNALEGO Nº 1, em 30 de abril de 2002 SEQÜESTRO Que diferença faz viver mais 10 ou 20 anos, depois dos 66? Que é isso diante da eternidade? Esses anos invariavelmente vêm cheios de achaques, doenças, limitações. Pior, uma trombose, que me deixe troncho. Seja lá como for, não é por que pense assim que eu vou ficar aqui parado sem reagir. Calçou um moderno par de tênis Reebok por cima de meias também de grife e saiu pelo calçadão. Vestia uma bermuda caqui com aqueles grandes bolsos laterais que estavam na moda, camisa de malha branca, fina, alvíssima, com a marca da confecção, discreta, na altura do coração que, por sinal, vinha sendo abastecido por uma artéria 80% obstruída, depósitos de uma vida de muita comida, muita bebida e poucos exercícios e que lhe rendera também uma diabetes. Da indumentária, ainda tinha um belíssimo chapéu panamá comprado em Quito e um relógio não muito caro, mas vistoso. Concordava com um cronista que acabara de ler. "Para pessoas maiores de 60 anos e de consciência plenamente tranqüila, tudo já prescreveu. Além disso, eles não participam mais da concorrência humana. Ordinariamente, apenas se esforçam para receber os seus proventos". Assim pensava, assim era o seu caso. Portanto estava na prorrogação, talvez quem sabe, na modalidade da morte súbita, com a vida já ganha e bem vivida. Fora operado da próstata e estava caminhando a passos largos para a impotência sexual, o que absolutamente não o preocupava. Sexo dá muito trabalho! Requer muito esforço! Em especial agora que enviuvara recentemente. Boa aposentadoria, razoável patrimônio, os filhos e netos morando fora, bem de vida, restavam-lhe as leituras, o cinema nos cinemas e as caminhadas. Morava sozinho na beira da praia. A solidão era uma companheira querida, silenciosa e não muito exigente. Uma empregada doméstica lhe servia todos os dias, menos às quartas e aos domingos. Saía sempre com um cartão de visitas no bolso com seu nome, endereço e telefone. Se acontecesse o "golden goal" a empregada seria avisada e já estava instruída para o que desse e viesse. Se me faço entender, vivia em estado de graça, preparado para a morte e a aguardava sem temor. Costumava dizer: viver é bom, morrer também deve ser. No dia do seqüestro, uma quarta-feira, estava com duas notas de dez no bolso, para a emergência de um táxi, e outras tantas de um real para beber água de coco. Quem o seqüestrou foi uma turma recém chegada de um subúrbio carioca, três homens e duas garotas, que vieram fazer a praça num mercado menos concorrido, a poucos quinhentos quilômetros de seu local de origem, alcançável com uns vinte e poucos reais por cabeça, em ônibus com ar refrigerado, banheiro, cafezinho e água gelada. Chegaram pela manhã na Rodoviária de Vila Velha, roubaram um carro para dar status, alugaram um barraco com um pátio para garagem em Terra Vermelha, sem pagar sinal; iam entregar uma encomenda que trouxeram e depois pagariam. Se mandaram para o calçadão da praia de Itaparica. Não conheciam ninguém. Não tinham a necessária organização para seqüestros, mas precisavam começar para entrar "algum". Vamos pegar um coroa com pinta de barão. Ele deve ter sua família, sua conta bancária, seus cartões de crédito, seu carrão, seu apartamento, desses de varandões na orla da praia. Vagaram do final de Itaparica a Itapoã, desceram pela Praia da Costa até o Clube Libanês. Voltaram por dentro, pegaram o início da Rodovia do Sol e entraram novamente para Itaparica, no primeiro acesso, depois de contornarem o trevo da Rodovia Darli Santos. A primeira figura que depararam foi o coroa, nosso ilustre personagem, sete horas da manhã, naquele faixa nova da calçada e do asfalto, ainda sem construções vizinhas. Tá lá nosso homem, disse o companheiro ao que estava na direção. Os outros três tinham ficado em casa. Conforme combinaram pararam ao lado da caça. Um dos dois saltou do carro, pediu uma informação qualquer, enquanto o motorista, foi para trás do carro e abriu o porta malas. Uma coronhada na nuca do velho e rapidamente o colocaram desacordado na mala que, de imediato, foi fechada. Apanharam o chapéu na calçada e zarparam. Dali para Terra Vermelha, para casa recém alugada, foi um pulo. A porta do pátio se abriu imediatamente e o carro entrou. Na mala, ainda desacordado, o nosso herói. Acordou atordoado balbuciando aquelas palavras inevitáveis. O que aconteceu? Onde estou? Explicaram. Meteram as mãos ávidas nos bolsos da bermuda e de lá tiraram os vinte e poucos reais. O relógio foi sacado devidamente e o elegante chapéu panamá ficou bem, embora folgado, na cabeça de uma das meninas. O coroa notou que o cartão de visita não estava entre as notas; fora esquecido. Com dores de cabeça bolou rapidamente a sua estratégia. Seu nome, endereço e telefone? Silêncio. Depois de perguntado outra vez e tendo levado uma porrada, respondeu: não digo. Como não diz! Vais ficar mofando e apanhando aqui até dizer. Nosso plano é simples, queremos uma grana esperta, aí por volta de uns 50 mil. Sua família nos paga e você ´ta livre para sair pra outra. Novas perguntas, novas porradas, novos silêncios. A empregada chegou no dia seguinte, aí por volta de oito e meia, nove horas. O patrão deve estar caminhando ou foi para Guarapari, como costuma, sem me avisar. Não se preocupou em olhar o carro na garagem. Começou a fazer os serviços da casa e preparar a saladinha e o franguinho grelhado para o almoço. Qualé coroa? Vai ficar mudo aí, não vai dar o serviço? Ele dá, ele dá... é só levar mais uns castiguinhos. E toma cascudo. Senhorial, do alto de sua filosofia e de sua idade disse: escuta aqui, ó garotos. Não vou dizer nada. Não tenho nome, endereço, parentes ou telefones para fornecer. Já vivi bastante e muito bem. Tenho sim, um bom patrimônio, um belo carro, polpudas contas bancárias, mas não vou dar o serviço. Vocês podem me encher de porrada, podem me matar que não vai sair nada. Vocês estão fodidos. Tão fodidos quanto eu. Vão procurar outra turma. Não temo morrer, resisto bem à dor, já fui torturado durante o regime militar, não tenho religião, sou materialista e ateu. Não tenho nada a perder. Agora me resta morrer, acho que vai ser bom, assim evito alguma doença mais grave daqui pra frente. Depois da dor de perderem o pai, meus filhos receberão suas partes na herança e pronto. O lucro deste seqüestro, portanto, será deles. Esse diálogo de porradas e doutrinação, ameaças e pedidos negados durou dois dias. A empregada, na sexta-feira, começou a desconfiar do desaparecimento do patrão. Entrou em contato com a família, com os filhos no Rio e São Paulo. Os parentes de Vila Velha contataram a polícia e pediram confidencialidade. Esperemos um contato. Desconheciam que o seqüestrado não tinha levado qualquer identidade e não se identificara como estratégia. E a espera continuou. No terceiro dia, todos exaustos, com o dinheiro que trouxeram acabando, mesmo acrescidos dos parcos vinte e poucos reais do coroa, os seqüestradores começaram a perder as suas expectativas e decidiram sair para outra. Abandonar o local, o velho e ir em frente. Assim o fizeram. Na tarde deste dia, nosso herói se sentiu isolado no seu quarto miúdo. Forçou a porta e a abriu. Ninguém em casa. Silêncio. Compreendeu de imediato que estava sozinho. O plano dos bandidos falhou. Sua expectativa de morrer, já dada como certa, falhou também, pois tinha certeza que não sairia vivo dessa. Surpreendeu-se com o sucesso de sua estratégia. Agora era sair e voltar a encarar a velhice que lhe esperava com seus percalços. Velha seqüestradora, mais arguta e perspicaz que o grupelho de bandidinhos. Velha bandida, essa sim, que, ao fim e ao cabo, vai me matar. Possivelmente com maior e mais longo sofrimento. Sem respeitar qualquer estratégia fajuta como a de esconder identidade. Irremediavelmente. Inapelavelmente. Vagou pela casa, no escuro da noite que já se iniciara, tateando as paredes não rebocadas procurando a saída. Onde estava a porta? Achou. Estava trancada. Continuou procurando uma alternativa. A saída, onde está a saída?! Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha (ES), 27 de março de 2002.
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