Jornalego
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JORNALEGO ANO VII - Nº. 199, em 30 de agosto de 2008. Crônica de Viagem
RELATOS DE UMA VIAGEM
Vila Acre, Rio Branco, Acre, agosto de 2008.
Chegamos no dia 1º. É a oitava vez que visitamos o Acre desde que nossa filha e seu marido para aqui vieram há oito anos. Estamos ajudando a tomar conta dos dois netos acreanos. Os pais saíram de férias. Aqui ficaremos por todo este mês. Não temos urgência de voltar. Estamos numa chácara, a 10 km do centro da cidade. Chácara grande para os padrões do Sudeste e pequena para os padrões locais, adquirida em parceria e habitada em condomínio com outro casal de Brasília, aqui chegado à mesma época, com filha também acreana. A chácara é um pedaço do ainda não descoberto paraíso terrestre: verde para todos os lados, árvores frutíferas, especialmente mangueiras e pés de cupuaçu. Tem acerola, jabuticaba, jaca, jambo etc. O pior daqui são as carapanãs, os meruíns (como aqui são chamados) e outros hematófagos amazônicos que, me parece, vêm diminuindo com a urbanização do local. Quando havia galinhas ciscando pelo gramado e porcos no chiqueiro, o perigo eram os mucuins (carrapatinhos), que não mais existem. No primeiro ano que aqui estive, conversando com um limpador de quintais, profissão comum no lugar, ele me perguntou de onde eu era. Respondi-lhe: Espírito Santo. E ele: Isso fica no calcanhar do Judas! Eu retorquindo: Pensava que o calcanhar do Judas fosse aqui. Tudo, portanto, é uma questão de óptica. Tenho a impressão de que já contei isso e outras coisas que se seguem. Mesmo assim, prossigamos. Dia 6 de agosto é feriado estadual. Dia em que se comemora a Revolução Acreana, de 1902, comandada pelo gaúcho Plácido de Castro em defesa da causa de um Acre brasileiro. Os acreanos são muito bairristas, a incorporação do Acre ao Brasil também é comemorada com feriado no dia da assinatura do Tratado de Petrópolis (17 de novembro), expediente diplomático liderado pelo Barão de Rio Branco, confirmando a posse do território. Outra data significativa por aqui é a da transformação do Território em Estado (15 de junho). Não sei se é feriado. Isso se deu em 1962, no governo do presidente João Goulart. O cultuado líder do movimento autonomista foi o mineiro Senador Guiomard Santos, nome de um município vizinho à capital. Os feriados estaduais, talvez pela ferocidade comemorativa, não são totalmente respeitados por bancos, comércio e mesmo colégios. O Governo decreta ponto facultativo no serviço público. Respeitados rigorosamente são os feriados nacionais. Uma informação interessante: a mesma figura jurídica usada pelo Barão, o Uti Possidetis (a terra deve pertencer a quem de fato a ocupa), para sacramentar a incorporação do Acre ao Brasil, foi também considerada pelo seu pai, o Visconde de Rio Branco, para abrir mão da Província Cisplatina que formou a República Oriental do Uruguai. O Acre era brasileiro, aqui se falava português, aqui viviam brasileiros, aqui circulavam os mil-réis. A Província Cisplatina era de outro povo que falava espanhol. Ali a população não era brasileira. Grande pai e grande filho: os Paranhos! Acredito que aí nasceu a filosofia que até hoje predomina na nossa diplomacia, no que diz respeito às nossas relações com os países sul americanos. Política de afirmação com cordialidade e respeito mútuos. Com alguns deslizes, é verdade, mas não necessariamente oriundos da diplomacia do Itamaraty, mas de governos autoritários ou ditaduras de ocasião. Aqui e alhures. A novidade no Acre é o novo fuso horário instituído por lei ou decreto federal. Antigamente era de duas horas de defasagem (atrasadas) em relação ao horário de Brasília, que vigora para o resto do país, com exceção da parte ocidental do território. Agora é de somente uma hora atrás, passando a ser igual ao horário da referida parte ocidental. Isso foi bom para aproximar o horário acreano ao central, fazendo com que os bancos e outras atividades financeiras, funcionassem com apenas uma hora de defasagem. No horário de verão essa defasagem será de duas horas. Com o fuso antigo, a defasagem era de três horas nos meses de verão no Sul maravilha. A mudança de horário não tem muito a ver com o movimento do Sol que, logicamente, tem que ser respeitado. Foram levados em conta os horários dos bancos e (por que não?) dos programas televisivos originados no Sudeste, bem como os dos jogos de futebol. O interessante é que os acreanos adaptaram suas atividades ao novo fuso: a entrada e saída das escolas, por exemplo, passaram a ser feitas meia hora mais tarde em relação ao horário anterior. Achei muito inteligente essa iniciativa. Enquanto os relógios adiantavam uma hora, algumas atividades atrasavam meia hora. Assim “o preço” de se aproximar do horário central brasileiro foi só de meia hora. As mudanças de horário, logicamente têm que respeitar o ciclo sideral, mas não é só isso, outras variáveis entram na questão. Faz muito calor neste seco verão amazônico com pouquíssima chuva. O rio Acre, que corta a capital em dois distritos, está baixíssimo. No centro da cidade, as margens ribeirinhas têm mais de dez metros. Pois bem, atualmente, o nível da água está deixando à mostra toda essa altura. No inverno amazônico (fim e início de ano) o rio chega até a transbordar. É muita água! Durante esses oito anos eu testemunhei uma transformação muito grande aqui em Rio Branco. Acredito que isso tenha se espraiado por todo o Estado. Já viajei até Xapuri indo também à Bolívia (Cobija). O advento do PT por aqui foi um acontecimento notável. O partido já está no terceiro mandato na governadoria do Estado. Na prefeitura de Rio Branco, pleiteia a reeleição, que me parece garantida. A ação do PT estadual chegou a refletir-se nacionalmente, lançando nomes como Marina Silva, Jorge Vianna (ex-governador) e Tião Vianna (senador). Chamo essa gente de geração Chico Mendes. Em época de eleição, várias bandeiras vermelhas (do PT) são desfraldadas no topo das altas mangueiras e pés de cupuaçu, em imensos mastros de bambu, compondo com pontos encarnados a paisagem verde da periferia e dos quintais centrais. Vi duas exposições excelentes na recém-construída Biblioteca da Floresta (tudo aqui leva o nome de floresta; cidadania aqui é florestania!). A biblioteca tem nome: Ministra Marina Silva. A primeira exposição foi sobre a constituição geológica das terras acreanas. Há aproximadamente 11 milhões de anos essa região estava submersa num grande lago (Pebas) que tinha saída para o oceano Pacífico. Com a formação dos Andes, essas águas passaram a correr para o leste, formando a bacia amazônica e o seu rio principal, desaguando, a partir de então, no oceano Atlântico e fazendo com que as terras submersas aflorassem, por exemplo, onde hoje se localiza o Acre. A outra exposição dizia respeito à descoberta de novas tribos de índios, até então desconhecidas. Depois das chamadas “correrias” (o avanço violento das fronteiras exploratórias de seringueiras, caucho e madeira) tais índios se refugiaram nas cabeceiras dos rios, onde há poucas seringueiras e caucho, nas fronteiras do Peru com o Acre. São três terras indígenas onde vivem quatro povos (acredito que sejam pequenos agrupamentos) isolados, nos nascedouros dos rios Envira e Tarauacá. Perfazem 636 mil hectares. Aparentemente eles não querem ser contatados e são chamados por outros índios de “bravos”. A nova política da Funai é de regularizar essas terras, sem fazer contatos com os silvícolas. Dependeria futuramente deles próprios o contato com a “civilização”. Historicamente, esse contato geralmente representa o extermínio dos indígenas. Eles, os índios, sabem disso. “Proteger as áreas habitadas pelos índios isolados da exploração predatória de recursos naturais é hoje importante também para garantir a integridade dos recursos hídricos, a reprodução da biodiversidade e o abastecimento de água potável dos moradores das florestas e cidades no Estado do Acre”. Copiei na exposição. A propósito, no Brasil, atualmente, há mais de cem, quase duzentos idiomas diferentes, falados pelos povos indígenas. Já foi muito mais. Isso constitui uma riqueza cultural que deve ser preservada. Uma última informação e curiosidade que passei a perceber com a leitura do livro Memórias da Liberdade, de Carlos Trigueiro. Esse autor, hoje radicado no Rio de Janeiro, morou, na sua infância, num povoado ribeirinho no interior do Amazonas. Ele relata que lá não utilizavam rodas, tudo se fazia usando o rio e o lombo de animais. Acredito que também essas populações indígenas isoladas, pelo que li e vi em fotos, todos ribeirinhos, desconhecem a roda. Tudo se transporta em canoas pelos rios. É madrugada. A temperatura é amena. Ao final da escuridão da noite, começa a sinfonia dos galos e dos latidos dos cachorros. É uma população imensa a repicar os sons de seus iguais até o raiar do dia. Aí se ouvem também o chilrear dos pássaros, o cricri dos grilos e a estridente sirene das cigarras. É o sinal de que o potente Sol vem chegando para violentar a frescura da manhã de um clima continental, e, entrando em cena, dar início a outra sessão no escaldante teatro amazônico.
Genserico Encarnação Júnior, 69. Vila Acre, Rio Branco, AC.
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