JORNALEGO
ANO VII - Nº. 198, em 25 de
julho de 2008.
Crônica Confessional
O TEMPO BLOQUEADO
Tenho a impressão de que o tempo parou pra mim. Se pudesse datar
esse fenômeno, isso teria ocorrido em 1999, quando completei 60 anos. Não que a
velhice e a decrepitude tenham dado uma trégua em seu insidioso processo.
Acontece que o meu século foi/é o que passou. Nem o cabalístico 2000, o último
ano do que findou, me fez adentrar de corpo, e mais precisamente, de alma, no
novo período. O segundo milhar não me foi/é familiar, o terceiro milênio não me
soou/soa bem, fazendo-me rejeitar de forma singular esse plural inexistente. Não
consegui me adaptar ao novo tempo. Meu século é o passado, apesar de suas
mazelas. Não foi eu quem o escolheu.
Lá eu nasci, me criei/criaram-me, amei, procriei, trabalhei, sofri,
sonhei os melhores sonhos. Transposta a barreira do calendário, vou morrer junto
com meus sonhos não concretizados no corrente século de sonhos não concretizados
(sic).
1999 foi meu último ano de trabalho profissional. Entrei em 2000 e
no século XXI sem vínculos trabalhistas, o que me levou a liquidar outras
relações perigosas, igualmente de dependência. As passagens do século e do
milênio foram marcos meramente simbólicos. Coincidência. A assunção de um
novo/velho estilo de vida e de uma postura diferente diante da vida,
possibilitadas pela aposentadoria, geraram toda essa mudança. O trabalho, como
ganha-pão e terapia ocupacional, acabou; agora me ocupo simplesmente em viver. A
melhor das ocupações. O sentido da vida é viver.
O tempo parou. Essa prestidigitação muito me agrada. Fui ajudado
pelo estado de saúde relativamente bom em que me encontrava/encontro. Não que
mantenha o mesmo vigor, que não tome continuadamente minhas mezinhas, meus
remédios, que não tenha os meus males e achaques próprios da idade.
Psicologicamente, o tempo estancou. Não anda nem pra frente nem pra
trás. A areia da ampulheta não cai nem sobe. Engasgou. Entalou.
Não sou saudosista. Não sofro de nostalgias. Também não lamento o
que passou. Não tenho recordações românticas. Nada de cultuar o passado como
“aquele tempo maravilhoso que não volta jamais”. Não sou passadista. Não volto
no tempo. Digo que o tempo parou no tempo. Vejo o tempo passar, indo/se
esvaindo. Mas estacionei no meu tempo. É diferente!
Meu tempo está no presente, embora não seja o presente. Às
vezes, lembro-me de um pretérito mais-que-perfeito, quando algumas gafes
foram cometidas: sociais, profissionais, afetivas. Isso me leva a pensar como eu
era bobo, despreparado, caipira, imaturo e rigoroso no pensar. Não tenho
remorsos e não culpo nada, nem ninguém, nem a mim, pelo que cometi. Não me
arrependo de nada.
Por outro lado não tenho planos, esperanças, ambições, sonhos.
Não sofro pensando na inevitável morte. Não sou idealista nem melancólico.
Não quero ser nada quando crescer.
Não cultuo tristezas bem como não procuro ansiosamente alegrias e
felicidades fúteis. Acredito que esse estado de alma possa ser chamado de
bem-viver. Aliás, aprendi muito com os animais, os ditos irracionais, que são os
viventes que mais sabem viver: sem sofreguidão, convivendo pacificamente com
seus instintos. Desconhecem a morte, são obedientes aos seus relógios
metabólicos e necessidades vitais. Sem estresse.
Não tenho grandes ligações, a começar, como contei, com o trabalho
de subsistência. A bênção São Karl Marx! Por falar em santos, não os tenho,
muito menos deuses. Portanto, não há religião que me convença, livrei-me disso
há muito tempo. Não tenho mais a ideologia de esquerda que tanto me fascinou na
juventude e na maturidade, nem por isso descambei para a direita. As ideologias
podem ter acabado, mas não o espírito de classes e os preconceitos ideológicos.
A juventude durou muito. A velhice chegou cedo. Chamo a isso
de “a colisão do tempo”, big bang que, talvez, tenha sido a causa da
referida cessação do meu tempo.
Não tenho partidos políticos, nem mais simpatias por eles. Depois do
regime militar por que passamos, sempre votei no Partido dos Trabalhadores.
Votei em Lula para Presidente em quatro eleições seguidas, incluindo dois
segundos turnos. Portanto: seis votos persistentes e finalmente vitoriosos. Na
realidade eu votava no partido que, por acaso, tinha o Lula na cabeça. Eu
acreditava na ética do PT. Com a sua ascensão ao poder central desiludi-me.
Primeiramente pela aceitação do modelo neoliberal implantado anteriormente pelo
PSDB e seu vaidoso líder; depois pelo “Mensalão”. Com esse último evento
o Lula ficou maior do que o seu partido, o que é ruim politicamente, tendo
ganho, inclusive, sua reeleição. Com meu voto. A despeito dessas considerações
tenho admiração pelo homem e pelo político. Mas não estou tão entusiasmado com a
política como antes. A eleição municipal deste ano é a última na qual sou
obrigado a votar. Não sei se comparecerei às urnas na próxima eleição para
presidente, governador, senador, deputados, dado que o voto é facultativo para
maiores de 70 anos.
Não pertenço a nenhuma instituição. Meu mundo hoje se restringe à
minha casa e à minha família, de onde lanço um olhar observador, atônito, mas
não escandalizado, pelo que passa fora dela: urbi et orbi. Também prezo
e me valho de meu pequeno/grande círculo de amizades. Mantenho sentimentos de
brasilidade, latino-americanidade e de humanidade. Embora não nutra grandes
esperanças no futuro dessa humanidade, a despeito dos estonteantes avanços
tecnológicos.
Detalhes: odeio viagens, turismo em geral. O que vi por aí deu para
o gasto, conhecer lugares e gentes, e alimentar a antipatia por aventuras
turísticas. Viajo somente para reencontrar familiares e amigos. Viajo também por
outros canais, nas asas da literatura, do cinema, de um pouco da música, e do
que me é dado conhecer e admirar das outras formas de arte. Não simpatizo com a
imprensa de hoje, principalmente com as revistinhas semanais. Muita informação
embucha, quando não intoxica o organismo.
Que meus críticos não digam que parei no tempo e no espaço. Mas, se
assim o disserem, faz algum sentido. Fuga? Pode ser. Se quiserem acompanhar a
velocidade dos tempos que correm, dou-lhes passagem e lhes desejo boa viagem.
Sinto-me bem, sem grandes passados e mirabolantes sonhos. Sem
penduricalhos. Vivo o momento, curto o dia de hoje com suas alegrias e agruras.
A paixão que ainda me resta (hereditária) e está a me escorrer pelos
dedos é a do Flamengo. Pelo andar da carruagem ela também corre o risco de estar
com os dias contados. Sem infidelidades clubísticas na procura de novas ilusões
futebolísticas.
Vivo a fase da desconstrução, que não tem nada a ver com destruição.
A época do despojamento. Da descrença em qualquer crença ou certeza, mito ou
paixão.