Jornalego |
|
|
JORNALEGO
ANO VII - Nº. 197, em 10 de julho de 2008.
Crônica+Conto+Ensaio
TEMPOS DO FUTEBOL
Pretérito Mais que Perfeito - Fato A história deste primeiro módulo foi contada pelo escritor espanhol Enrique Vila-Matas num texto jornalístico de sua autoria, na Folha de São Paulo, Caderno Mais, de 22.06.2008. O personagem dessa história fora um famoso jogador uruguaio de futebol, no início do século passado, meio-campista do Nacional de Montevidéu, de nome Abdón Porte. Abdón, ídolo dos torcedores, jogara o melhor futebol do melhor futebol do mundo, à época. Chegara à casa dos trinta anos e se conscientizara de que a sua melhor fase passara. Outro jogador, mais jovem, da mesma posição, fora contratado pelo seu time e se constituíra sua sombra, uma presença ameaçadora. Isso o atormentara. Numa partida com o Charley, time adversário, nosso herói jogara maravilhosamente bem: principal responsável pela vitória do seu clube por 3 x 1. Comemorara a façanha com seus companheiros até altas horas da noite, quando se despedira para pegar o trem na Estação Central de volta a casa. Ao sair, mudara de idéia e se dirigira ao estádio onde se dera o jogo, o Parque Central. Adentrara-se no gramado (na expressão dos speakers de rádio) completamente às escuras. Possivelmente contara com a compreensão do vigia, que supusera que a sua volta ao Estádio fora parte das comemorações da vitória daquela tarde. Abdón encaminhara-se até o centro do campo, ao círculo central, e com um tiro no coração dera cabo da vida. Deixara carta aos familiares e uma declaração de amor à torcida e ao clube de sua paixão. Até hoje é possível ver no estádio do Parque Central, nos dias de jogos, uma bandeira com os dizeres: “Pelo sangue de Abdón”. No dia 13 de junho de 1930, tivera início a primeira Copa do Mundo de Futebol, exatamente no Parque Central, de Montevidéu. O kick-off do jogo inaugural – Estados Unidos e Bélgica – ocorrera exatamente no mesmo lugar, onde, alguns anos antes, Abdón Porte se suicidara. Começou assim a série de Copas do Mundo dos tempos modernos. O campeão fora o anfitrião Uruguai. Pretérito Imperfeito – Ficção Passadas as copas de 1934 e 1938, sediadas respectivamente na Itália e na França, ambas vencidas pela Itália fascista, caiu sobre a Europa e o mundo a noite sombria da Segunda Grande Guerra (1939-1945). Só se voltou a disputar outra copa em 1950, no Rio de Janeiro, cujo epicentro foi o recém-construído Estádio do Maracanã. Antes do embarque da delegação uruguaia a essa competição, a maioria de seus componentes combinou uma reunião, supostamente à mesma hora que morreu Abdón, no mesmo local: o Estádio do Parque Central. Entre eles, ali estavam o capitão Obdulio Varela, Ghiggia, Maspoli, Miguez e Schiaffino. Eram 25 ao todo, tendo comparecido, além de outros jogadores, o chefe da delegação, o técnico, o médico e o massagista. Deram-se as mãos fazendo uma roda no círculo central do campo, exatamente ali, onde se dera o trágico acontecimento, na escuridão do verde gramado, circundado de arquibancadas vazias. Invocaram com orações e cantorias, hinos patrióticos e clubísticos, o espírito de Abdón. Estabeleceram um pacto comprometendo-se a ganhar a copa no Brasil, em homenagem ao mártir do futebol cisplatino. Ao final gritaram em uníssono: “Pelo sangue de Abdón”. É o que repetiam nos vestiários, como grito de guerra, antes e depois de cada partida do campeonato, abraçados entre si. No fogo final da copa de 50, a história, então registrou o primeiro maracanaço (maracanazo em espanhol) que, como se sabe, deu início a outros que vieram a acontecer. Poucos, mas significativos. Todos, com times da América Latina. O escrete (!) do Brasil, naquele fatídico jogo, franco favorito, com a torcida toda a seu favor, foi batido surpreendentemente pela seleção uruguaia. No Maracanã ouviu-se o maior silêncio coletivo do país. Depois da debandada dos torcedores, a cidade do Rio de Janeiro estava “deserta e adormecida” no começo da noite. O vigoroso capitão campeão, que há pouco recebera a copa sustentada por uma angélica vestal de grandes asas abertas, saiu às ruas próximas do seu hotel e comemorou solitariamente a conquista tomando umas cervejas num bar vizinho. Ninguém o acompanhou. Ninguém o reconheceu. Nas ruas vazias transitavam cachorros vadios, também cabisbaixos e rabisbaixos. Voltou ao hotel. Dormiu um sono etílico pesado até que, no início da madrugada, ouviu sobressaltado um chamado chiado, uma voz tenebrosa, não se sabe de onde: Obduuuuuuuuulio! Obduuuuuuuuuuulio! No seu sonho, apareceu-lhe Abdón, como um ser de luz, cumprimentando-o e a seus companheiros pela bela façanha. Antes de se esvair no éter disse: “Tarefa encerrada, meu caro Obdulio; espero ter cumprido bem a minha missão bloqueando a defesa brasileira e quase imobilizando o coitado do goleiro. Tive até pena deles! Ademais, meu dia foi árduo, tentando desarmar por aqui os inúmeros trabalhos, rezas-fortes, macumbas, feitiços e mandingas, feitos pelos brasileiros na véspera do jogo. Agora chega, chega de futebol, tenho outras concepções sobre a vida ou, melhor dizendo: a pós-vida, inclusive porque compreendo agora a grande ilusão do futebol. Aprendi muito com “ele”, que é sábio, não porque seja inteligente, mas porque é velho. A rigor, como todas as paixões, elas são boas enquanto duram, mas, dado que efêmeras, quando não correspondidas nos deixam decepcionados e depressivos. Veja as caras dos infelizes torcedores brasileiros”. Sem mais contar com a proteção do além, o Uruguai jamais ganhou outra copa do mundo, chegando, inclusive, a não se classificar para algumas, desde que Abdón tirou o seu time de campo. Acho que isso pode estar ocorrendo recentemente com alguns times brasileiros, possivelmente até com a nossa seleção. É o caso de São Judas Tadeu, João de Deus, e até do lendário Sobrenatural de Almeida; acho que eles já se desinteressaram pela sorte de seus protegidos aqui na Terra. Futuro do Subjuntivo - Prospectiva “Antigamente o futebol era risonho e franco, quem não tinha chuteira jogava de tamanco”. Assim falava meu pai, falecido há mais de quarenta anos. Ele se referia a outros quarenta anos atrás. Hoje o referido esporte (desporte?) mudou sensivelmente. Um jogo originalmente viril que se virilizou muito mais com as práticas e técnicas modernas, sem falar nas violências propriamente ditas (que las hay las hay, por supuesto). Por essas e outras é que o futebol vem se modificando no sentido de preservar a saúde de seus participantes. A proibição do “carrinho” sem tocar a bola, da elevação do pé a altura da cabeça, do tórax ou mesmo das partes mais baixas do corpo do adversário e, finalmente, o uso obrigatório de caneleiras, o que não existia no passado, são evoluções no sentido, digamos, ecológico desse esporte. Não é mais permitido jogar sangrando. Acrescem as punições com cartões amarelos (advertências, contabilizadas ao longo de um certame) e vermelhos (expulsões, também computadas no jogo seguinte). Evolução. Mais importante será, doravante, o cuidado com a cabeça dos jogadores que, na disputa da bola no alto, não é incomum provocar sérias contusões. Que a cabeça é uma parte do corpo humano das mais sensíveis, todo mundo sabe disso. Mas, no futebol, precisa-se ir mais além do que só ter esse conhecimento primário. A cabeça é o centro do sistema nervoso e o nosso computador de bordo. As emoções, a fala, a visão, os pensamentos, a memória, a coordenação motora, tudo depende dessa máquina maravilhosa e frágil que é o cérebro. Ainda que muito bem protegido pelo crânio. A cabeça está sempre exposta nos embates futebolísticos. Os acidentes com fraturas cranianas e faciais (especialmente cortes nos supercílios) não são raros nos jogos de futebol. Vou me permitir fazer uma especulação sobre o futuro do futebol: inicialmente, seria obrigatória a utilização de capacetes protetores, como se usa no boxe olímpico e noutros esportes de contatos corporais (hockey, futebol americano etc.). Já tem gente jogando com essa proteção. É o caso do excelente goleiro Petr Cech, do Chelsea inglês, que também defendeu o gol da seleção do seu país, a República Tcheca, na última copa da Europa. Quer ver essa tal proteção vingar? É só uma Nike ou uma Adidas da vida “propor” ($$$$$$$$$$$$) à FIFA sua utilização universal nos jogos de futebol. Terrível, não? Uma campanha bem-intencionada associada a um expediente, no mínimo discutível, para viabilizá-la. Enfim, é assim o mundo neoliberal. Li algo semelhante em Mentiras no Divã, livro de Irvin Yalon, no caso, uma manobra de uma grande marca para produzir e vender capacetes para ciclistas. Posso até radicalizar mais nessa especulação ou elucubração: futuramente, não será permitido cabecear a bola, seja ao arremessá-la à meta, defender um petardo ou mesmo dar um passe de cabeça. Imaginemos como seria o jogo. Um toque proposital de cabeça na bola poderia ser considerado como o atual toque de mão na bola. Falta ou penalidade máxima se tal ocorresse na grande área. Se a bola tocasse ocasionalmente na cabeça do jogador, ele não seria punido, como se faz hoje também com relação às mãos. O objetivo, claro, seria evitar as disputas da bola no alto e o choque de cabeças entre jogadores, com suas terríveis conseqüências. Por falar em mãos, ela poderia não ser mais usada, nem sequer para cobrar as laterais. Somente o goleiro, naturalmente, as usaria. Já se cogitou nisso no passado recente. Isso acontece no futsal e no futebol de areia. Afinal, trata-se de jogo de football (futebol) e não de foot’n’headball (futinredibol!?). Revolução. Será que o torcedor gosta mesmo é de porrada? Pelo sangue de Abdón! Quem viver verá. Ou não.
Genserico Encarnação Júnior, 69. Itapoã, Vila Velha (ES).
|
|
|