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JORNALEGO ANO VII - Nº. 194, em 10 de junho de 2008. Arte Literária
O FASCÍNIO DA LITERATURA
Um leitor amigo assim se pronunciou sobre um dos últimos números do JORNALEGO: “seu conto termina abruptamente”. Eu tentei explicar, de maneira jocosa, que o conto termina quando acaba. Afinal eu já tinha matado todos os personagens, só me restava enterrá-los. Achei dispensável fazê-lo. Agora, mais sério: naquele conto eu já havia vendido o meu peixe, apresentado o cerne da história, portanto o encerrei. Continuar seria espichá-lo. Mas isso não quer dizer que a história não pudesse ter tido continuidade. Um conto encerra (contém) uma história, mas não necessariamente a encerra (termina). Ela pode estar contida no conto ou mesmo extrapolá-la. Um conto pode focar só uma parte da história. Porque a vida/a história continua. Ela é contínua. Aliás, o escritor não deve ser egoísta e monopolizar a escritura de sua peça. Deve compartilhá-la com o leitor. Que ele, o leitor, dê prosseguimento à história contada em sua cabeça. O saudoso ator Paulo Autran, numa entrevista, contou sobre uma encenação que fizera em uma cidadezinha do interior. Ao fim da peça uma parte do público o esperava à saída do teatro para saber ao certo o que aconteceu com fulano, se ele tinha se casado, com quem ficou beltrana, e sicrano? Como é comum acontecer em novelas televisivas nas quais todo o mundo casa com todo mundo no último capítulo da série. Ocorre-me que uma história contada num conto pode chegar ao fim e não ao cabo. É por causa disso que existe a expressão: “ao fim e ao cabo”. Embora meu providencial anjo da guarda literário me garanta que essa expressão é redundante, não há diferença alguma entre ao fim e ao cabo. Deixa pra lá! Uma coisa que me preocupa como escritor artesanal é a não familiaridade do leitor com essas filigranas da literatura, que me fascinam. Às vezes o leitor se põe no lugar de um voyeur. Ele quer saber da vida dos personagens, o que cada um fez e o que não fez. Acho que isso não interessa. O que vale não é bem a sua movimentação na história, mas o seu caráter, as suas características, a sua psique, o ambiente em que ele se insere. Isso é literatura, o resto é crônica social. Num jornal leio: “o filósofo francês (não interessa quem seja) garante que ler um livro e esquecê-lo é o mesmo que nunca tê-lo lido”. Isso pode encerrar um engano: quase que garanto que nunca me esqueci de um livro que tenha lido. Posso me esquecer do seu título, de seu autor, de sua história. Mas, se me lembrar do título e do seu autor, se vir o livro, me lembro dele, embora possa não me recordar de mais nada, o que é um tanto paradoxal. A trama é o fio condutor do livro, mas não é a coisa mais importante. Acontece comigo também associar a leitura de um livro com a ocasião e com o lugar, quando e onde o li. Onde o comprei, se o ganhei de presente. O livro, seguramente, está introjetado no meu cérebro, mesmo que eu tenha esquecido sua história; seja lá como e onde: no consciente, no inconsciente, nos meandros dos meus neurônios ou escondidos em becos freudianos do cérebro. Dizem: “cultura é aquilo que fica depois que esquecemos tudo”. Legal! O leitor não iniciado em literatura se preocupa em saber se um personagem é verdadeiro ou não. É comum um livro perder o interesse, mesmo do grande público, quando se diz, inicialmente, que fora baseado na vida real e se revela, depois, ficção. O que querem? Reportagens a gente encontra nos jornais. Literatura é arte, boa ou má, não interessa no presente caso, e arte é aquela mentira que a gente conta para tentar passar uma verdade. Lembro-me dos tempos do filmes da minha infância, de farwest e cowboys. Quando o bandido morria, o público às vezes gritava: olha lá, ele está respirando. A gente queria que o ator morresse e não só representasse a morte do personagem. O leitor que convive com o autor é outro caso interessante Quando não acostumado à linguagem literária, geralmente pergunta: quem é o personagem, alguém de nosso relacionamento? O personagem é o personagem. Ele pode incorporar traços de alguém, de várias pessoas, inclusive do escritor, mas ele é, basicamente, uma figura fictícia. Perguntaram uma vez à minha mulher: seu marido morava em Vila Isabel, que eu saiba não? Quem morou em Vila Isabel foi meu personagem. Acontece que eu gosto muito de escrever na primeira pessoa. Além de autor, quero ser ator nos meus contos. Daí a confusão. Outro amigo aprecia biografias. Diz que, ao lê-las, lhe parece que a vida faz sentido. Achei isso genial! Por quê? Porque as biografias são romanceadas, a rigor, são diferentes da realidade crua que os seus personagens viveram. A realidade é um tanto cansativa. Um exemplo: o virtuosismo de Pelé. Não se discute essa realidade. Mas assistir em vídeo a todas as partidas que ele jogou, integralmente, seria muito chato. O bom, o artístico, é rever as grandes jogadas dele, os passes, os dribles e os gols, tudo devidamente editado. Preferencialmente, no estilo do Canal 100 do Carlos Niemeyer, com fundo musical de “Que Bonito É”, tocado pelo piano de Bené Nunes. A realidade é chata, preenchida, é verdade, de instantes poéticos, estéticos, geniais. Esses instantes são a praia da arte. Como são insossas as notícias e os comentários nervosos da imprensa sem a contextualização histórica devida, e veiculada, quase sempre, de acordo com as verdades/dogmas do momento, da moda, o que pode se constituir em escabrosas mentiras. E o blá-blá-blá político entre a oposição e o governo? Além do mais, o leitor precisa compreender que os escritores não são tão cartesianos assim. “Não é fácil aprender com os escritores: eles nos transmitem não ensinamentos, mas enigmas”. Essa citação do José Castello lembra-me a do Chacrinha: “eu não vim para esclarecer, mas para confundir”. O autor descreve, não explica. E os enigmas são o tempero da arte; esta nada mais é do que uma proposição de enigmas; desvendá-los é tarefa do leitor. E aí reside o encantamento. Como compreender uma piada, sem a necessidade de explicá-la. O leitor deve ter uma postura ativa diante do texto. Nada de passividade. Não se trata de matar a charada. É sentir, a partir de uma obra de arte, uma emoção, uma excitação esquisita, que seja uma revolta, a tocar os sentimentos, a alma e, com isso, afetar o intelecto. Porque o homem, além de ser um ser racional, é um ser artístico. A música talvez seja a mais radical forma de arte. Alguém entende a música? Pode entender de música. Entende-se a técnica da música, de compô-la ou executá-la, como tocar os instrumentos, mas os sons harmônicos (ou não) que ela dispersa no ar são incompreensivelmente captados pelo ouvinte. Goste-se ou não deles. O leitor que provocou, sem querer, este texto é um bom leitor e escritor bissexto. Lógico que ele entende tudo que eu disse aqui. Não estou a ensinar padre a rezar missa. Assim como outros leitores que me prestigiam. Mas eu estava aguardando uma oportunidade para discorrer sobre este assunto. Et voilá! Um último pensamento sobre a literatura. Observando formas raras dos reinos mineral, vegetal e animal, por exemplo, o próprio ser humano, chego à conclusão de que nenhum projeto criacionista, por mais divino que seja, seria capaz de chegar à sofisticação, ao detalhe, à complexidade, ou mesmo à esquisitice de alguns espécimes. Só um processo evolutivo de milhões de anos poderia alcançar tais extremos. Por analogia, por mais que a inspiração seja importante na literatura, é o trabalho árduo de elaborar um texto que pode levá-lo à excelência. Também aí o evolucionismo prevalece sobre o criacionismo. Como traduz muito bem o chiste: escrever é 95% de transpiração e 5% de desodorante.
Genserico Encarnação Júnior, 69. Itapoã, Vila Velha (ES).
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