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JORNALEGO ANO VII - Nº. 192, em 20 de maio de 2008. Artes Plásticas
O MURAL
O painel é extenso, de cores berrantes, visualmente bonito e muito significativo. Não obstante, pungente e triste, apocalíptico mesmo; sofrido para quem o fez e para quem o vê. De leitura fácil em seu simbolismo. Segue a linha dos grandes murais mexicanos de Rivera, Orozco e Siqueiros. Sempre a transmitirem uma história, um tema, uma ideologia, uma visão de mundo. É o caso deste. Ele se expõe num pavilhão circular, de pé-direito alto. Para admirá-lo afasta-se um tanto e caminha-se compassadamente ao lado da tela, por toda a sua extensão. No inicio de sua leitura, na concepção ocidental, da esquerda para a direita, vê-se uma enorme figura humana, em cortes que a mostram das coxas à testa: um corpo nu de mulher, grávida e magra, encarando ostensivamente o observador. Os olhos estão esbugalhados numa pose mais do que defensiva, ansiosa e ostensivamente agressiva. Sua enorme barriga é transparente, onde um feto em sua posição normal se acomoda mergulhado no líquido amniótico de um exíguo espaço uterino, prestes a rebentar. A barriga está baixa. A pele da mulher é de cor ocre, seus cabelos são longos, escorridos e pretos, seus braços esqueléticos. Os peitos grandes e cheios. Um cordão umbilical que parte das entranhas dessa mulher, mesmo antes do parto, liga-a a uma série de crianças na primeira infância que têm a proteção e são orientadas por um anjo de asas enormes, ao ultrapassarem um regato caudaloso, em direção a uma pia batismal de um luxuoso batistério. Lá, estão rodeados pelos pais e padrinhos; sacristães e padres, estes em suas vestes rendadas. Um destes últimos a deitar água na cabeça de um dos pimpolhos. O primeiro de uma longa fila. Ele esperneia e berra. Os demais, atordoados, esperam sua vez. Na parte inferior do mural, em toda a extensão do quadro, situa-se o céu, com o seu azul celestial, suas nuvens, o Sol e a Lua como que a brotar do chão. Entre nuvens, um triângulo equilibrado em seu vértice superior (agora inferior) emoldura um vigilante olhar. No alto da tela estão a terra e o mar, as montanhas e outros acidentes geográficos, de cabeça para baixo, como que dependurados no teto do pavilhão. Assim, o autor provoca uma inversão propositada das posições entre o céu e a terra da posição observada por nossos sentidos gravitacionais. No prosseguimento da pintura surge uma sala de aula, onde os alunos estão todos devidamente uniformizados, e um mestre, vestido à antiga, de régua na mão transmite uma lição. Ao fundo, uma bandeira e um crucifixo. De pé, cantam um hino. É um emaranhado de figuras e situações para cujos detalhes não dá para atentar. Nem tampouco a obra cobre a totalidade de capítulos e itens que o amplo tema comporta. Só os mais significativos e marcantes. A seguir vem a alegoria de um desfile militar. São coturnos, somente coturnos, portando metralhadoras em seus cadarços, marchando com passo certo em direção a um cogumelo atômico. Num canto, um conjunto ordenado de cruzes lembra um cemitério militar; cruzes que, na evolução da pintura, se transformam em crescentes lunares, em estrelas de seis pontas e de oito pontas, em sóis nascentes, e, mais além, em fetiches, imagens, vacas e sangue, muito sangue. Sangue que jorra em profusão de plataformas de prospecção, como as de petróleo, a alimentar máquinas e autos, a defecar excrementos. Obras de arte, quadros e esculturas, estão agora escorados por milhares de livros, volumosos compêndios e enciclopédias, fechados e empilhados em desalinho. Um violino de cordas arrebentadas é ferido não por um arco, mas por uma flecha. Não há músico, música, nem maestro. Na continuação do mural, observa-se que nenhuma dispersão sustenta a possibilidade de mudança no tratamento do tema. São tentativas de escapadas furtivas da corrente principal que a tudo leva de roldão. Bustos de filósofos famosos, de olhos abertos sem luz, se espalham pelos espaços da tela. Bandeiras, muitas bandeiras, muitos escudos e símbolos povoam novos espaços: cruzes, suásticas, foices, martelos e cifrões, cifrões, muitos cifrões. Grilhões, instrumentos de tortura, forcas, armas e bombas, fumaça, destruição. Um casal jovem, saído da adolescência, atordoado, vagueia, de mãos dadas, por esse cenário. Sugerem-lhe caminhos diversos: um mestre togado de arminho e borra; um eclesiástico de longas vestes encarnadas, bastão e um ridículo chapéu de curinga; um homem fardado, dobrado ao peso de suas medalhas e condecorações, coberto com um capacete de aço; um macróbio de barbas brancas metido em um comprido jaleco branco. Um ar de desolação, medo, angústia, perturbação e dúvida persiste no olhar atônito do casal em movimento. No caminhar do jovem par, uma profusão de castelos, palácios, catedrais, pirâmides, fortalezas, obras e obras faraônicas. A sustentá-los alicerces de ossadas humanas. Na sequência, o observador depara com vários ambientes de trabalho. Uma fábrica, chaminés fumegantes, uma linha de montagem, a transportar operárias e operários em filas intermináveis, num desfile a que assistem fileiras de máquinas e veículos estacionados. Um escritório com milhares de computadores conectados a cérebros humanos. Os funcionários dispostos em cima de bancadas, olhos atentos aos monitores refestelados em poltronas confortáveis. A inversão das posições e a subversão dos sentidos predominam ao longo da tela. A representação da ciência é feita com a famosa careta do Einstein, esticando a língua para fora da boca. Já o (assim chamado) processo democrático da tomada do poder mostra uma série de urnas coletoras de votos, sendo alimentadas por cédulas monetárias em vez de cédulas eleitorais. Quase ao final do périplo de 360 graus, uma alegoria ao progresso regressivo da civilização humana mistura numa embaralhada infernal, aeronaves, trens, pistas, artefatos eletrônicos, astronautas a flutuar no espaço sideral, mulheres nuas em poses eróticas, armas, cifras e cifrões, animais arredios e mutilados, árvores queimadas e rios secos e fumaça, muita fumaça cujo cheiro dá para sentir à simples observação das imagens. E lixo, montanhas de lixo. A última figura do mural é a reprodução da imagem da mesma mulher que o inicia, igualmente nua, igualmente grávida, postura idêntica, esquálida, peitos agora murchos, a barriga enorme igualmente transparente e útero vazio. Ao final da caminhada ao longo do mural circular, chega-se ao mesmo lugar em que tudo começou. Uma curiosidade sobressai: qual o título desse exercício pictórico? Não há nenhuma alusão em nenhum lugar a ele, como também a tela não leva a assinatura de seu autor. Seria o caso de atribuir-lhe um título? Submetamo-nos a tal especulação. Mas, por favor, que não seja, em respeito ao extenuante trabalho do autor, algo irônico, depreciativo e sarcástico do tipo “Delírios de um cérebro doentio ou mórbido”. Sugere-se um nome mais significativo e mais politicamente correto, seja lá o que isso seja (sic). Um nome mais construtivo diante de tanta desconstrução. Outra curiosidade intrigante, agora que o expectador chega ao final deste surreal círculo vicioso: onde fica a saída?
Genserico Encarnação Júnior, 69. Itapoã, Vila Velha (ES).
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