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JORNALEGO ANO VII - Nº. 191, em 10 de maio de 2008. Crônica
RETRATO DE MULHER
Entusiasmo-me com fotos de rostos femininos. Eles não precisam ser belos. Elas devem ser expressivas, acentuando a feminilidade deles. Já escrevi um conto sobre essa fixação no número 86 do JORNALEGO, que pode ser relido clicando no atalho que aparece ao final do texto. Dias atrás fui surpreendido novamente por uma linda foto de um lindo rosto publicada na imprensa. É sobre ela que discorro, me estendo e me perco por estas linhas. Pensei inicialmente reproduzi-la aqui. Desisti. A fotografada é mulher famosa e isso poderia fazer com que o respeitável público associasse a foto à personalidade da pessoa, o que não é meu propósito. Quero ficar restrito à imagem mostrada no jornal. Para efeito do presente texto e para os fins propostos, não sei de quem se trata. Foco a foto, só a foto. Ela mostra um rosto voltado para a câmera, olhando-a de frente. Tal rosto é a extensão e o coroamento de um lindo pescoço totalmente à mostra. Sem colar. Partes mínimas de um ombro e das costas também aparecem apesar do corte inferior da fotografia. A partir daí se ergue o esguio pescoço com dobrinhas na pele em toda a sua base e mostrando um intrigante gogó, provocados pela virada do rosto para a lateral do corpo e por leve inclinação da cabeça para cima. As ditas dobrinhas recendem a feminilidade. Mas a apoteose vem com o rosto, num corte fotográfico que lhe passa pela testa, logo acima da sobrancelha esquerda. Tais expedientes artísticos, a exposição do pescoço e o corte preciso, dão maior relevância ao rosto da retratada, emoldurado por uma parte dos cabelos dourados, que lhe caem nas laterais da testa e que, mais atrás, cobrem a parte superior da fina orelha direita. Sem brinco. Sua boca está levemente entreaberta permitindo ter uma ligeira visão de seus dentes alvos. Seus lábios estão pintados de um rosa que lhe valoriza o sorriso. Esse conjunto, presume-se, demonstra a felicidade que ela demonstra em se saber bela e exala sensualidade de que também é senhora, com a certeza da sensação que provoca no observador. Abaixo da boca formosa um queixo mimoso que se estende graciosamente pelas laterais do rosto na linha dos maxilares. O nariz é uma peça primorosa, afilado ma non troppo, narinas bem torneadas, que compõe o proscênio do cenário, separando com graça as maçãs do rosto bem maquiadas, nos remetendo à sensação de uma dança com rostinho colado, celebrizado na expressão inglesa cheek to cheek. As sobrancelhas pouco combinam com a coloração do cabelo, elas são mais escuras, o que pode ser natural ou permite admitir que o alourado dos cabelos tenha sofrido um apoio artificial. Por fim, a glória dos olhos verdes claros povoados de nuvenzinhas brancas, provavelmente reflexos da iluminação do fotógrafo. Pestanas de boneca, pequenas pupilas negras e o alvíssimo globo ocular completam o espetáculo policromático dessa vitrine de mulher. Repito, o ar que transpira é de sensualidade e de prazer sensual de se saber e sentir-se bela, em exposição e devidamente apreciada, sem maiores apelações. Sua maquiagem não esconde poros faciais minimamente abertos que lhe dão um ar de mulher madura num rosto de menina. Depois de muito olhar e me embebedar esteticamente do prazer pela contemplação platônica daquele rosto, ouso partir para uma série de carícias virtuais que me transportam para um campo mágico onde, ultrapassando os limites do papel de imprensa, toco com as pontas dos dedos das duas mãos o objeto retratado, num gesto quase litúrgico de recebimento de alguma oferenda divina. Meu primeiro impulso é sentir-lhe as maçãs do rosto, aproximando-me mais e mais na tentativa de beijar-lhe levemente as faces. Depois tateio seus cabelos com os dedos de uma única mão, abertos, penteando sua franja. Volto a passar vagarosa e carinhosamente as pontas dos dedos por toda a extensão do seu rosto. Imagino-a fechando os olhos. Sussurro-lhe um segredo que não sei qual seja e, incontinente, comprimo com os lábios um dos lóbulos de sua orelha. Cheiro, numa inspiração profunda, o seu cheiroso cangote. Ela abre os olhos. Encaro-a de frente. Olho no olho. Assim permaneço alguns segundos. Pisco. A foto não pisca. Desloco o olhar para um ponto mais abaixo, e seus lábios se abrem um pouco mais. Então fruo da beleza da ficção literária e de sua concretude. Ora dirão os mais pragmáticos: numa mulher existe algo mais interessante para apreciar e se “cantar” do que o seu rosto. Naturalmente. O rosto, contudo, não esconde o resto. Pelo contrário: sugere-o. Uma mulher é principalmente seu rosto, seu olhar, sua voz, sua mente. Aí reside sua alma, sem nenhuma conotação metafísica ou religiosa. O coração é uma simples bomba de compressão que batuca conforme as sensações emanadas pelo cérebro. Quem seduz e se seduz por esse conjunto facial terá eternamente (enquanto dure, a bem da verdade) a compensação do resto. O que não elimina outros caminhos para se chegar ao “coração” delas. Terminemos a exaltação a esse ser impresso, distante, etéreo deixando-o quedar-se na folha fria do papel de imprensa a seguir o destino de um jornal velho. A propósito: tenho visto inúmeras fotos de mulheres que me deixam estupefato. Principalmente aquelas veiculadas em revistas temáticas (!) e pela Internet. É um festival de peitos, glúteos, cinturas, pernas, caras e bocas em poses eróticas, quando não descambam para um puro exercício de endoscopia fotográfica. Por vezes vemos mulheres grávidas exporem nuas suas imensas barrigas prenhas. São reflexos dos costumes de que toma parte uma garotada sarada e malhada que gosta de se exibir em suas sumaríssimas indumentárias e, por vezes, em quentíssimas demonstrações públicas de afeto. Isso leva à vulgarização, à coisificação da mulher. O expressivo dessa onda é o espetáculo periódico de modelos anoréxicos a trotar rebolando-se e equilibrando-se nas passarelas dos desfiles de moda. Mais lamentável ainda é a iniciação precoce de menininhas, em sua primeira infância, ao erotismo, por meio de programas televisivos, danças e roupas que só acerbam este movimento. E os homens, como ficam nessa? Alguns exultam. Outros, como eu, criticam esse comportamento, com um olho gordo nas imagens das carnes expostas, como nas feijoadas de sábado. Velho raposão esnobando tenras uvas inacessíveis? O chamamento ao voyeurismo é muito grande. Lamentavelmente essa é uma expressão do consumismo desvairado que campeia no mundo pós-capitalista, pós-socialista, pós-moderno, pós-industrial, pós-ético, quase prematuramente póstumo. Uma boa parte da juventude dourada brasileira, acredito, está se envolvendo nessa realidade, sendo mais realista do que o próprio rei. Ah! Que vontade de escrever um conto! E o conto não vem! Um romance, nem pensar; careço de empenho, engenho e arte. Fico aqui soltando esses “cocôs de cabritos”, na linguagem pitoresca de um personagem do livro que acabo de ler, ao se referir às suas crônicas ligeiras. ---------------------------------------------------------------------------------------------------------- http://www.ecen.com/jornalego/no_86_eros_%26_ona.htm.
Genserico Encarnação Júnior, 69. Itapoã, Vila Velha (ES).
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