JORNALEGO
ANO VI - Nº. 183, em 10 de
fevereiro de 2008.
Conto
O FRADE ATEU
Ou seria o ateu frade? Talvez essa inversão corresponda
melhor à realidade da história de Tomé, o irmão Tomé.
Conheci o nosso herói (isso não é somente força de expressão,
considero-o verdadeiramente um herói) na feitura deste conto, pois se trata do
meu bastante (!) personagem. Mesmo não tendo convivido com ele ou com alguém que
o tenha conhecido, sei tudo a seu respeito. Nesse particular sou onipotente,
onipresente, onisciente, sinto-me um Deus, limitado, é verdade, a alguma
necessidade de verossimilhança, não necessariamente à de veracidade dos fatos.
Nasceu pouco depois do nascimento do século passado e morreu
pouco antes do seu término. Foi educado na fé cristã, no âmago da Igreja
Católica da época. Essa, antiga e conservadora, tem, vez por outra, suas mudas
de plumagem. Tomé foi batizado, fez a primeira comunhão, assistia às missas aos
domingos e dias santos, cumpria total circunspeção e os retiros nas semanas
santas, jejum e abstinência de carne às sextas-feiras. Além de atender aos
ofícios religiosos e festas nos dias dedicados aos santos padroeiros. Depois,
freqüentou colégio interno de frades e muito ensino religioso.
Já no colégio, acreditava sempre desconfiado dos ensinamentos
a ele ministrados. Essa desconfiança vinha sendo construída principalmente em
suas férias, quando voltava para o convívio da família, preferindo passar seu
tempo na biblioteca do avô, brilhante jurisconsulto e jornalista bissexto, de
grande cultura humanística e amante da literatura mundial. De quem, mais tarde,
herdou todos os livros e certa maneira de pensar.
Quando saiu do ensino básico, Tomé fez um brilhante curso de
direito em faculdade nacionalmente reconhecida tendo depois casado com a
senhorinha Maria Cândida – Candinha para os íntimos da família – com quem teve
três filhas.
Sua vida de homem casado e de respeitado profissional
passou-se com a imersão compulsiva em livros técnicos e em muita literatura. Aos
poucos, mas já quarentão, foi se “convertendo” definitivamente ao ateísmo, o que
lhe rendeu grandes discussões, principalmente com a Candinha que, além de
católica fervorosa e piedosa, era simpatizante juramentada do kardecismo.
A despeito dessa divergência de opiniões no campo religioso,
viveram muito bem, educaram suas filhas, hoje mulheres independentes (inclusive
de crenças religiosas), e testemunharam devidamente embarcados, o século mais
violento e o de mais estonteante avanço tecnológico da história.
Tinha por volta de oitenta anos, quando, já aposentado havia
mais de uma década, ficou viúvo e sozinho, perdido na vida e em sua imensa casa.
Foi aí que teve uma grande idéia, a que me apresso a contar, motivando esse
conto.
Tinha ouvido a história de um renomado historiador que, em
idade avançada, se confinara em retiro espontâneo num mosteiro no interior do
país. Sondou alguns amigos religiosos a respeito da idéia, contando sempre com
sua aprovação. Mesmo porque todos conheciam as suas convicções e queriam também
colocá-las à prova. Devidamente encomendado pelo arcebispo da sua região, que
nutria uma esperança velada, procurou o abade de um recolhido mosteiro, também
no interior. O convento recomendado situava-se no sul, bem longe, portanto, de
sua cidade natal e de sua residência de toda sua longa vida. Num recanto pacato
da serra gaúcha.
Mesmo na sua condição de agnóstico, pensou num refúgio
religioso. Não via alternativa para seus propósitos. Bem que poderia ter optado
por um reduto budista ou de outra confissão, qualquer uma, desde que a seita
escolhida fosse honesta em seus princípios e propósitos. Fixou-se numa confraria
da Igreja Católica, uma vez que nessa igreja fora iniciado na religião que era a
seguida por toda a família.
O cético ateu queria paz de espírito e mais, esse também era
um grande objetivo do retiro: se disponibilizar (é assim que se diz atualmente)
inteiramente para sofrer a “tentação de Deus”, coisa que não o sensibilizara na
vida adulta. Se seguira a religião católica era porque fora iniciado nela por
seus pais e pela catequese dos mestres. Agora estaria pronto para, ao final de
sua vida, se expor, volto a dizer, à tentação divina.
Na sua concepção, essa tentação é muito mais sedutora do que
as profanas, as ditas pecaminosas, como qualificadas pelos catecismos. A
condição humana, frágil, efêmera, trágica mesmo, encoraja a grande maioria dos
mortais a ter uma religião e a acreditar numa divindade, a procurar um sentido
para a vida, especialmente quando ela não existir mais. As estatísticas provam
isso, não há muita necessidade de gastar argumentos na defesa desse tema. É
muito mais fácil sucumbir à tentação divina, porque aceita pela sociedade, do
que às profanas, rejeitadas pela moral e pelos bons costumes.
O seu patrimônio material já fora distribuído para as filhas.
Sua vasta biblioteca (devidamente lida) foi doada para a universidade local.
Propôs ao superior que destinaria todos os proventos de sua respeitável
aposentadoria para a instituição a que iria filiar-se, para cobrir as despesas
de sua manutenção, que seriam relativamente muito menores do que a quantia a ser
direcionada para tal fim.
O “noviço” confessou ao irmão superior e não fazia segredo de
seu pensamento também aos seus confrades, do seu ceticismo e da vontade de se
expor totalmente à dita tentação. Como também submeter-se à disciplina, à
doutrinação, à vida modesta, à liturgia, aos trabalhos (por mais humildes que
fossem) da congregação, desde, é claro, que fossem condizentes com a sua
situação física de idoso. Nada rejeitaria, apenas não abriria mão de pensar como
quisesse, embora jamais ousasse discutir as verdades consagradas pela Ordem e
pela sua Igreja. O conflito, que necessariamente ocorreria, seria de foro íntimo.
Data vênia.
Internou-se; a rigor deu adeus ao mundo laico em que vivera
desde então e entregou-se de corpo e alma à sua nova vida.
Assim se passaram os anos: uma década aproximadamente.
Portou-se magnificamente, aceitando as ordens superiores, rezas, matinas,
vésperas, missas, ladainhas, leituras, sermões e a companhia silenciosa de
dezenas de monges, todos vestidos com as mesmas batinas marrons, cintadas por um
cordão branco, crucifixo ao pescoço, sandálias franciscanas e tonsura dos
cabelos que lhe restavam. Deixou crescer, como de costume, uma barba revolta,
totalmente branca, igualmente rala.
Foram anos de muita introspecção e disciplina, silêncio,
silêncio, muito silêncio, entrecortado de orações e cânticos, os belos cantos
gregorianos, que tanto apreciava.
Morreu aos noventa e dois anos, deixando a seguinte carta ao
abade e aos irmãos frades, seus companheiros nesses anos.
Meus
caríssimos irmãos.
Nos últimos
meses de minha vida, que passei aqui em vossa companhia, estive escrevendo,
preparando, repassando, reparando, esta missiva que ora vos faço conhecer.
Durante todos esses meses ela estava sempre pronta. Sofreu várias versões,
modificações, mas esteve sempre à vossa disposição para o caso de minha morte.
Enfim, aqui está ela, acredito que tenha chegada a hora de revelá-la.
Todo esse
tempo passado em vossa companhia foi o mais maravilhoso de minha longeva vida.
Vida que foi pontilhada de momentos muitos felizes. Vivi com muita alegria. Tive
muitas oportunidades e muita sorte, especialmente no casamento que durou quase
cinqüenta anos e por ter sido pai de três maravilhosas filhas. Hoje tenho
inúmeros netos dos quais não conheço a maioria.
A
solidariedade e a fraternidade entre os homens, encontrei aqui. Quanta
generosidade em acolher-me em vosso seio! Aqui me senti mais querido do que
nunca, sem nenhuma exposição explícita desse carinho. O método da vida monacal,
os ofícios religiosos, os trabalhos, as leituras religiosas que me foram
recomendadas, o tempo destinado ao árduo trabalho de pensar e o silêncio, o
silêncio, o eterno e maravilhoso silêncio intramuros e na solidão de minha cela,
tudo foi uma experiência a mais sensacional que tive. Vir para o vosso convívio
foi a mais brilhante decisão de minha vida. Aqui a senti plenamente, na
“plenitude do enquanto”, como se expressou o poeta.
Deixo-vos
saudoso, feliz, sem abrir mão das minhas antigas convicções que, não se
modificaram, a despeito de todo o ambiente religioso que aqui vivi. Sempre
pautei minha vida convosco com extremo respeito a tudo e a todos, e aberto aos
ensinamentos recebidos, com a minha sensibilidade escancarada para novas
sensações que, logicamente, foram muitas e sentidas, mas que não me moveram para
o idealismo invejável de que, meus queridos irmãos, vós sois possuídos.
Aqui senti a
paz e um lampejo do que poderia ser a vida por vós preconizada após a morte. O
paraíso, eu estive nele, enquanto convivi convosco. As mais sutis revelações
tive em vosso convívio. Lamento que não fossem na direção da vossa pregação.
De minha parte
não me fechei em idiossincrasias de velho turrão, pelo contrário, me abri
honestamente a todas as manifestações de fé, amor e esperança professada por
“nossa” religião.
Despeço-me
humildemente desculpando-me da insubmissão intelectual no seu sentido mais amplo
que, afirmo, não foi marcada propositadamente pelo radicalismo racional. Como
sabeis, ninguém tem a exclusividade da verdade, mas garanto minha sinceridade e
honestidade, no dizer e no pensar.
Repito, vós me
fizestes conhecer o verdadeiro paraíso. A paz dos homens esteja e continue
convosco.
Do vosso
irmão, Tomé.
“Plenitude do enquanto!” uma expressão de Eda Farjat.