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JORNALEGO ANO VI - Nº. 180, em 10 de janeiro de 2008.
Álbum de família (1/3)
O RETRATO DE MEU PAI
O retrato foi tirado em 1937 e trocado por uma fotografia de minha mãe, quando ainda namoravam. Casaram-se em 38. Nasci em 39. Na foto, vestia paletó ou jaquetão escuro, gravata listrada, chapéu de feltro tombado para o seu lado direito, para onde também, discretamente inclinava a cabeça. A figura lembra um ator de filme policial da época. Sempre que a vejo penso em Jean Gabin ou Humphrey Bogart, por causa da pose e do chapéu. Uma modificação na posição dos móveis, dos quadros e dos retratos em nosso apartamento, o que é feito regularmente por minha mulher na tentativa frustrada de renovar o casamento, deixou-me mais exposto aos olhares fixos do retratado. Enquanto não encontrava o seu novo nicho nas paredes, a foto ficava encostada junto a alguns livros numa estante à frente do televisor. Assim, de vez em quando encarava o rosto do meu pai durante os intervalos comerciais da programação televisiva, o que provocava reflexões a partir de um diálogo mudo e surdo entre nós. No retrato em preto e branco predominam tons intermediários cinza. O branco só aparece para ressaltar o colarinho da camisa e os seus olhos, o que dá uma dimensão mais clássica ao retrato e um olhar mais penetrante ao retratado. Ele me olha fixamente, sem piscar. Eu pisco. No jogo do sério que travo, eu sempre perco. Testa que sei grande, encoberta pelo chapéu, nariz afilado, rosto redondo e róseo. Sua face sanguínea não transparece no retrato. Seu biótipo me agradava muito, destoando da maioria dos outros pais, geralmente, de tez mais morena e semblante mais sisudo. O meu pai tinha um ar alegre e moleque, ligeiramente aparente na fotografia, graças a um sorriso implícito. A luz incide pela esquerda de quem o observa, escurecendo mais o outro lado, o que mostra a maestria do fotógrafo de estúdio. Vou me afastar um pouco da foto porque, a prosseguir assim, descambarei inevitavelmente para apreciações piegas e sentimentais, enaltecendo meu progenitor, o que é comum, mas não é o que se pretende neste texto. No retrato ele está com 34 anos. O contato ora travado se faz entre mim, um velho, e ele, um jovem. Nesta oportunidade eu tenho muito mais experiência de vida do que ele na época da foto e, além disso, sou testemunha de um mundo vertiginosamente mais moderno. Assim, eu inverti a situação tradicional entre pai e filho e, com isso, a situação em que inicialmente me encontrei, quando topei, cara a cara, com o seu olhar incisivo, a observar-me em frente ao televisor. Agora eu poderia ser seu pai, sou bem mais velho do que ele no tempo do retrato, além de ser mais velho do que quando ele morreu, aos 63 anos. Já se passaram 41 anos de sua morte. Imaginei uma reflexão em dupla, que pudesse fazer convergir nossas opiniões (nem sempre convergentes) nesse imbróglio temporal que criei: uma subversão do tempo, adotando um tempo composto indistintamente do passado, do presente e do futuro, em que eles se interpenetram constituindo um tempo só, uno e plural. Uma catarse num jogo do sério, olho no olho, que nos fizesse refletir sobre a vida. Chegamos a algumas conclusões do encontro transcendental. Conclusões de ordem existencial e filosófica (não só os filósofos filosofam), as que mais perduram no tempo histórico, muito além das considerações episódicas e conjunturais. Vamos a elas, inspiradas pela fotografia e filtradas pela minha maneira de descrevê-las, mas pretensamente consensuais entre mentes mais vividas, como a dos interlocutores em questão, excluídas, é verdade, as opiniões sentimentais, religiosas e políticas. Era nessa última área que mais divergíamos. Outra característica interessante desse diálogo é que ambos os interlocutores já passamos da fase interesseira da vida: ele, da própria vida; eu, querendo simplesmente viver o que me resta. Não posso imaginar nem sequer aceitar que sua alma esteja gozando as delícias de uma vida eterna ou penando para sempre numa vida infernal. Ela está ora presente, sendo invocada neste texto. Uma transcendência horizontal, humana, no lugar de uma transcendência vertical, sobrenatural. Muito mais me causaria espécie (!) se estivesse reencarnada em algum novo embrião de gente. Cada um pensa o que quer. Fica o mistério. Na fase heróica, estóica e erótica da vida, tudo vale a pena se a alma não for pequena. Lutar, trabalhar, estudar, produzir, criar, ganhar dinheiro, amar e reproduzir-se. Foi o que fizemos. Não há alternativa, a não ser na marginalidade ou na anarquia, que são opções válidas para quem assim quiser e conseguir segurar a barra. Toda essa azáfama passa celeremente, e a vida é como um sonho numa noite de verão. Tudo vale a pena. Nada faz sentido. A vida não tem sentido. Aliás, o sentido da vida é viver preferencialmente em solidariedade com a vida em seu entorno, num quase pacto de compaixão com ela. Envelhecer, paradoxalmente, não é tão ruim, como dizem e rechaçam. Desde que não doa. Afinal, a dor pode estar presente em qualquer fase da vida e envelhecer, necessariamente, não dói. Inevitavelmente abordou-se a coisa mais importante da vida: a morte, sua presença, sua certeza. Viver, embora seja muito bom, é extremamente perigoso. Vive-se sob o signo da morte. Convivemos com ela diuturnamente e em nosso contato igualmente diuturno com o espelho. A morte foi consensualmente considerada boa. O chato é morrer. A morte é um não-estado, idêntico ao dos que ainda não nasceram. O morrer dos outros, de quem se ama e se gosta, é que dói, é mais doloroso do que o morrer de si mesmo. A vida não tem salvação nem redenção. A redenção vem com a morte. Não que a vida se redima depois da morte. Repetimos: a redenção vem com a morte, não depois dela. Mas isso é uma questão de fé e nos propusemos não discutir o assunto. A vida é um processo que transcende, em muito, a vida pessoal. A ansiedade individual, em grande parte, tem origem na tentativa de achar o sentido da existência humana dentro de nosso tempo de vida. Ou pior: depois. Impossível para a primeira suposição, improvável para a segunda. O futuro nunca chega, não há como esperá-lo. Somos (fomos) felizes. Esperamos que nos desculpem por isso os mortos de nossa felicidade. Isso demonstra, entre outras coisas, como o passado é importante no nosso fugaz presente. Como o que nos legaram, no processo das gerações em sucessão, nossos antepassados. Contudo, não se recupera o passado. Quando ele se repete é sob a forma de farsa. O futuro da humanidade é incerto e, visto de aqui e de agora, não é auspicioso. Somos céticos. Nunca o planeta e a humanidade estiveram em risco de exterminação. Inicialmente, pela destruição nuclear; agora, pela deterioração ambiental. Deve haver solução, sempre houve, embora não como agora que se requer uma solução planetária não coincidente com alguns dos interesses nacionais poderosos. Novos sistemas políticos, econômicos, sociológicos, filosóficos devem mudar para acompanhar os avanços da tecnologia objetiva (informática, medicina, engenharia, química e a estonteante física que está chegando às raias do subjetivo com a física quântica). Acreditamos que estejam em curso essas mudanças. Nós é que ainda não percebemos, embora sejamos agentes da história. Meu pai gostou muito do intercurso pseudo-intelectual com o filho mais velho (no sentido lato do termo), o morgado, como me chamava. Não obstante, achou-o muito fatigante para quem não estava acostumado a esse tipo de elucubrações e a altas prosopopéias. Esses assuntos não lhe interessam mais. Contudo, gostou de provocar ao interlocutor tais especulações. Pediu licença para voltar ao seu estado fotográfico, o da saudade, sugerindo não mais ficar pendurado pelas paredes, mas escondido nas páginas de um álbum de retratos, onde ficaria mais sossegado longe dos olhares instigantes de quem quer que seja. Principalmente de mentes ainda não apascentadas. Ao terminar, tive a sensação de que o retrato piscara para mim. Não aquela piscada intimidada que dei na primeira encarada. Mas uma piscadela marota. E ainda tive a impressão de ouvi-lo recitar a trovinha que guardo intacta na memória, carregando na pronúncia final de cada verso nos xis e nos chs. Não agüenta com o tacho? Não é macho? Sai de baixo, Seu frouxo. Olhava-me fixamente, como quem quer conferir minhas reações ao que acabávamos de concluir, se desta vez eu voltaria a piscar ao encará-lo e ao encarar os assuntos aqui tratados. Não vacilei. Dessa vez não titubeei. Não pisquei. De volta, sorri um sorriso também enigmático.
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P.S. – Agradeço as contribuições inestimáveis na elaboração deste trabalho de, pela ordem, Gilberto Freyre, Fernando Pessoa, Shakespeare, Guimarães Rosa, Pablo Milanês e Marx, com suas idéias, versos ou frases antológicas, cujos nomes não foram citados no corpo do texto para tornar a leitura mais fluente.
Genserico Encarnação Júnior, 68. Itapoã, Vila Velha (ES).
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