JORNALEGO
Nº
17, Em 10 de Outubro de 2002.
Artigo
MONTEIRO LOBATO
A figura deste festejado mestre da literatura brasileira tem um lado
nebuloso que gostaria fosse desvendado por algum biógrafo competente. Se já não
o foi e eu ignoro.
Nada a acrescentar sobre o paulista
José Bento Monteiro Lobato, a não ser repetir as elogiosas referências sobre o
seu papel como literato. Seus escritos preencheram minha infância, a dos meus
filhos e agora já começa a serem apreciados pelos meus netos. Li também um dos
seus romances para adultos e igualmente constato a sua excelência como escritor.
Adquiri, recentemente, suas obras completas (literatura infantil e adulta) para,
principalmente, colocar à disposição dos meus netos. Quem não conhece e se
delicia com a Emília, o Pedrinho, Narizinho, o Marquês de Rabicó, o Visconde de
Sabugosa, Dona Benta e Tia Anastácia? A Rede Globo também vem difundindo esses
personagens adoráveis.
Mas me intriga a sua atividade como
homem de petróleo em nosso país. O meu maior interesse sobre esse aspecto
prende-se ao fato de ter servido à Petrobrás como economista durante a maior
parte de minha vida profissional. Trazer esse assunto à baila, agora, não tem o
objetivo de lançar sobre o escritor uma suspeita a respeito de sua postura neste
particular, mas continuar a minha participação na discussão sobre a política
nacional do petróleo. Um diagnóstico correto contribui para uma política
eficiente, apesar da desastrosa abertura do setor petróleo no Brasil, feita no
primeiro governo FHC. Não se trata de macular o famoso nome, mesmo porque o
Lobato pode ter entrado neste imbróglio sem dolo, simplesmente colocando a veia
idealista de escritor a serviço de suas tentativas empresariais, que não tiveram
sucesso, inclusive como editor, cuja firma acabou falida.
Sem dúvida Lobato era um
nacionalista. E por isso é sempre lembrado quando se fala de petróleo no Brasil.
Assim se posicionou em sua campanha sobre o petróleo. Seu prestigiado nome
deu-lhe um púlpito de grande ressonância ao defender suas posições sobre esse
setor.
Seu nacionalismo, contudo, vinha
revestido de um modelo empresarial privado e pessoal. A indústria do petróleo,
como se sabe, requer fabulosas somas de recursos para financiar seus grandes
investimentos. Excetuando alguns sucessos no seu nascedouro, nos Estados Unidos,
e alguns mirabolantes episódios cinematográficos, a indústria só é viável tocada
por grandes grupos econômicos, hoje representados pelas grandes empresas
multinacionais de petróleo, ou por capitais estatais. Na falta daqueles, no
Brasil, na primeira metade do século, a política nacional do petróleo optou pelo
Estado. Primeiramente através do Departamento Nacional de Produção Mineral,
depois do Conselho Nacional do Petróleo e a partir de 1953 pela Petrobrás.
A política estava correta e assim o
demonstrou a história. A leitura atenta que fiz do livro “O Escândalo do
Petróleo“, de Lobato, datado de 1936, lido nos dias atuais, mostra alguns
delírios e erros crassos do autor. Lobato chegou a contar com a participação de
alguns picaretas, do tipo visionários, que o tentaram ajudar na procura do
petróleo. Ele queria o aval do governo para captar junto à população brasileira
os vultosos recursos requeridos para sua atividade, vendendo ações no mercado
para financiar suas aventuras. O governo foi decididamente contra esta
empreitada sem respaldo técnico mais cuidadoso colocando a poupança pública em
risco, tendo inclusive, arbitrariamente, mandado prendê-lo em 1941, por três
meses, por causa de uma carta que escreveu ao então ditador Getúlio Vargas.
A ocorrência de grandes volumes de petróleo no
Brasil se deu mais no mar do que em terra. A esse respeito, o tão criticado
relatório Link estava relativamente correto no que tange à produção terrestre.
Para chegarmos à produção atual e a possibilidade concreta de atingirmos a
auto-suficiência nacional, a Petrobrás teve, durante anos, de executar uma
estratégia global, investindo mais pesadamente no refino e com os lucros daí
advindos, e mais, com o desenvolvimento da sua própria tecnologia, desbravar as
profundezas marítimas, onde mora o grande sucesso.
Um parêntese: com a abertura do
monopólio estatal do petróleo às empresas privadas, notadamente estrangeiras,
tudo indica que a nossa produção possa ultrapassar as necessidades nacionais.
Contudo, a autonomia nacional sobre esse petróleo, com a abertura, fugiu das
mãos dos brasileiros. Outra informação é que a produção atual (por volta de 1,8
milhão de barris por dia para uma demanda que presumo esteja acima de 2 milhões
de barris por dia) é totalmente feita pela Petrobrás.
A exemplo do que aconteceu mais
recentemente com Paulo Maluf, quando governava São Paulo, com a nefasta
experiência da Paulipetro, onde foram gastos quase um bilhão de dólares, sem
nenhum retorno, Lobato queria achar petróleo perfurando a camada basáltica da
Bacia Terrestre de Santos que, até agora, com todo o avanço tecnológico,
continua, se não
virgem, totalmente estéril em petróleo e gás natural. Seria um desperdício do
dinheiro da população crédula e empolgada com a pregação nacionalista. Acredito
que Lobato se espelhava muito e queria ser uma espécie de Rockefeller
brasileiro.
Um aspecto interessante é que a
primeira ocorrência de óleo brasileiro se deu na Bahia, numa localidade chamada
Lobato. Este nome não tem nada a ver com o escritor. Trata-se de mera uma
coincidência. Foi produto de uma perfuração feita pelo Conselho Nacional do
Petróleo.
Assim termina este artigo com uma
bruta interrogação. A tese aqui levantada está carecendo de um bom biógrafo,
como declarei no início deste texto, para confirmá-la ou não.
Genserico Encarnação Júnior
Itapoã, Vila Velha (ES)
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